Crítica

Uma modernidade persistente

A Companhia Nacional de Bailado (CNB) dedicou um programa comemorativo aos Ballets Russes, companhia que se distinguiu por quebrar cânones do ballet no século XX e abrir um caminho de inovação, com obras perpetuadas por inúmeras reconstituições ou reinterpretações.

A noite começou pela versão original de "As Bodas" (1923), com composição de Stravinski, que retrata o ritual do casamento na comunidade campestre russa. Nesta belíssima dança do povo, os protagonistas sobressaem pela imobilidade, cumprindo acções elementares da narrativa, sendo rodeados por um corpo de baile enérgico, muito sincronizado entre si e com a complexidade musical. Restringindo saltos, alongamentos e piruetas com punhos cerrados, pés flectidos e outros sinais do imaginário corporal popular, Nijinska explorou criativamente um número reduzido de passos. São notórias as formações escultóricas, o uníssono, as relações de pergunta-resposta ou a progressão em cânone de curtas frases rápidas na mancha do todo. Os bailarinos dominaram a execução maquinal, sóbria e precisa que a obra pede, transmitindo a sua riqueza coreográfica e a sua crítica subtil à supremacia das regras sociais e ao conformismo da conduta individual.

Seguiu-se uma interpretação da lendária peça que Nijinski estreou em 1912 para o "Prélude à l'aprés midi d'un faune", de Debussy. Em "Fauno", um jovem surge estirado num sofá, dança com uma mulher e termina novamente só. Situada num tempo actual e no plano doméstico, a coreografia apropria bem várias referências originais: o misto de fantasia e realidade, o ser meio humano, a relação não hierárquica e algumas posturas ou gestos de Nijinski. Wellenkamp fez uma composição sensual onde o seu vocabulário esvoaçante e emotivo é temperado por uma dinâmica lúdica e juvenil que desenha e entrelaça formas angulosas.

Para encerrar apresentou-se uma nova versão d'"A Sagração da Primavera" (1913) criada em 2010 para a CNB. De Soto manipulou uma linguagem corporal personalizada e refinada, muito ballética e nesse contexto bastante contemporânea (onde despontam influências de Forsythe e Cunningham), que conviveu favoravelmente com a música poderosa de Stravinski. Impôs-se ainda uma organização coreográfica elaborada e empolgante na sequência de solos, duetos, trios e grupos, na espacialização das acções e na distribuição e diálogo de frases pelo conjunto.

Com diversos recursos, o coreógrafo conseguiu rever a ideia de sacrifício na sociedade presente: deu um tom cinzento à peça e formou um grupo homogéneo, sugestivo de um exército, neutralizando estereótipos figurativos de feminino e masculino; encapuçou indivíduos, simbolizando as imagens mediatizadas de prisioneiros de guerra; implantou lanternas nos corpos e assim adaptou, com uma obscuridade alegórica dos interrogatórios e violações, a noite d'"A Sagração"... de Nijinski.

O programa funcionou muito bem. As duas peças de grupo, apesar do que as distancia, têm semelhanças interessantes, como a predominância monocromática, a espacialização coreográfica e a formulação crítica e o dueto adequa-se como interlúdio estético e elo entre os criadores de referência. Além disso, há um valor educativo neste revisitar do património da dança que, a avaliar pelos aplausos, ainda desconcerta o público habituado à arte oferecida em contexto institucional. Uma boa despedida para o director artístico cessante, Vasco Wellenkamp.