Crítica

Memória reanimada

Giacomo Scalisi, Nuno Nunes e Peter Michael Dietz juntaram-se à companhia de Davide Venturini para pôr a República a dançar.

Criação colectiva e multidisciplinar, que juntou os artistas Giacomo Scalisi, Nuno Nunes e Peter Michael Dietz (residentes em Portugal) à companhia italiana de Davide Venturini, A República Dança oferece uma interpretação, elucidativa e crítica, dos ideais e emoções vividas há cem anos com a revolução republicana. A peça distingue-se pela convergência equilibrada de formas de expressão e representação - corporal, vocal, plástica, sonora e fotográfica - e um processo de composição e transmissão misto, onde alternam a organização coreográfica e a encenação clássica, ou outras opções na esfera do musical e da instalação expositiva.

O espectáculo arranca com uma coreografia de gestos que evocam o ânimo e a determinação da luta - apontar, rejeitar, cerrar o punho ou reunir - e movimentos das artes marciais combinados com piruetas e saltos elegantes. Dietz, de cartola e casaca pretas, num dançar deslizante, preciso e ecléctico, interage com palavras que ora correm, explodem ou pairam no ecrã: esperança, pobreza, modernidade, justiça, monarquia...

Também com vestir burguês, Nunes surge como voz atrás da cortina, descrevendo o estado do país na época, qual corpo doente, recordando nessa analogia o papel dos médicos na conspiração. Depois, à frente do palco, e enquadrado por fotografias de momentos chave, o actor assume e dá vida a várias personagens, revelando as diferentes motivações de políticos e populares perante o desejo comum de mudança. Conta ainda, com impressionante eficácia, economia de palavras e rigor de gestos, os acontecimentos da madrugada do 5 de Outubro.

Desta experiência imaginativa, ritmada e muito bem interpretada da nossa História (esquecida ou desconhecida pela maioria dos espectadores), fazem também parte um rap de palavras de ordem; uma reverência à emancipação feminina; e um jogo de rectângulos de papel com diferentes tamanhos e tonalidades que, serenamente, destacam caras de indivíduos apanhados nos retratos de multidões anónimas que invadiram as ruas de Lisboa.

O dispositivo tecnológico de projecção vídeo com capacidades interactivas informatizadas cria uma relação dinâmica e regenerativa com um património fotográfico precioso, geralmente arquivado, que aqui salta do baú; a ideologia proclamada relembra-se de forma lúdica mas informativa, adequada ao público variado que a equipa quis atingir: dos dez anos em diante, das escolas às famílias; foi emocionante ver as crianças vibrar com o rap revolucionário e surpreendente verificar a sua atenção às histórias e às danças.

No fim, a projecção desvanece e só ficam no palco molduras vazias. É um devir bonito, mas algo nostálgico. À luz da crise política e social do presente, a força das palavras que iniciou o espectáculo e o século parece realmente ter desbotado.

"A República Dança" termina a digressão pelo país, em curso desde Fevereiro 23 de Outubro de 2010, este fim-de-semana (23 de Outubro, 15h00 e 17h00; 24 de Outubro, 15h00, ambas na Cordoaria Nacional, em Lisboa).