Selecção

Está em marcha a revolução silenciosa de Paulo Bento

Nani e Bruno Alves de olhos na bola, durante o treino de ontem
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Nani e Bruno Alves de olhos na bola, durante o treino de ontem Foto: Chris Helgren/Reuters

Quando Paulo Bento abandonou a carreira de futebolista fê-lo no Sporting. Pouco depois, foi treinar os juniores e, mais tarde, aceitou o convite para orientar a equipa principal, onde se deparou com um balneário cheio de caras familiares. Agora, o técnico voltou a encontrar algumas delas na selecção. E não hesitou em apostar, por exemplo, em João Moutinho (não era titular há dois anos), que nunca convenceu Carlos Queiroz, ganhando um meio-campo mais dinâmico. Esta é apenas uma das diferenças entre os dois treinadores. Outra passa pelo estilo de comunicação, com Bento a assumir-se como um economizador de palavras. É uma espécie de revolução silenciosa, que terá hoje uma prova de fogo na Islândia.

O técnico recém-empossado faz tudo para evitar a comparação com Carlos Queiroz. Mesmo quando é o seleccionador da Islândia a apontar diferenças: “Vi os jogos de Portugal e começaram agora a jogar e a ganhar”, lamentou-se. Para Bento, os tempos são outros e as pessoas também.

“Não comparo”, diz. E, quando entra num território delicado, passa a falar na terceira pessoa. “São pessoas diferentes com ideias diferentes, formas de trabalhar diversas”. E regressa em tom mais pessoal: “Não quero entrar por aí”. Ainda assim, admite que gostou de ouvir Olafur Johannesson. “Os elogios são sempre bem-vindos, mas que não nos façam adormecer. As coisas não estão feitas antes de serem feitas. No essencial, mudou o resultado - e ainda bem. Em dois jogos, fizemos um ponto; num jogo, fizemos três”.

A euforia que se instalou na comitiva pode, porém, degenerar em depressão em caso de falhanço frente a um desconhecido - Portugal nunca defrontou a selecção islandesa. Mas as estatísticas dizem que, nas deslocações efectuadas ao Norte da Europa (Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia), a selecção portuguesa registou 10 vitórias e apenas quatro derrotas (sete empates), numa digressão que começou em 1959.

Para o jogo de hoje, Paulo Bento voltou a lembrar que não houve tempo para fazer grandes alterações. E seguiu a máxima de Fabio Capello, que lembrou que as grandes selecções se apoiam em (grandes) clubes. A Itália campeã mundial em 1982 construiu-se à base da Juventus e a Espanha actual funciona com o motor do Barcelona. Para o mesmo efeito, o seleccionador português apoiou-se no Real Madrid: atirou o incontestável Bruno Alves para o banco para juntar os dois centrais madridistas (Pepe deixou o meio-campo para se juntar a Carvalho). Uma alteração à qual juntou o pulmão de Moutinho e o momento de forma de Carlos Martins, numa espécie de nova omeleta feita à base dos mesmos ovos. “O nosso caminho só pode ser olhar para a frente. Ganhando o jogo, chegamos a Junho com um ar e um ambiente diferentes”.