Crítica

Portugal em obra aberta

Nem significados imediatos, nem imagens feitas sobre o país.

Na sua mais recente coreografia, Paulo Ribeiro coloca um desafio ao seu trabalho: o da imponderabilidade. Deixando que a peça nunca se conclua e que, nessa fragilidade, se renove e reforce a cada passagem pelas cidades às quais se dedica (Viseu, Lisboa, Guimarães, Ponta Delgada, Porto, Aveiro, Torres Novas, Torres Vedras e Coimbra), cada cidade permite que um novo solo, co-criado com os intérpretes, se integre e encontre o seu espaço na reorganização da peça, havendo uma estrutura de base que explora os elementos unificadores e potencialmente representativos de uma certa portugalidade. Estão lá o seguidismo, o fado, o desígnio do mar, as raízes africanas ou o falocentrismo, mas também uma excentricidade generosa, uma relação com o corpo que joga com as fronteiras do pudor, uma alegria pela descoberta ou um modo de construir uma relação com o espaço que não termina no próprio corpo.

Mas, precisamente porque Paulo Ribeiro deixa de lado aspectos característicos do seu trabalho - alguma linearidade, o humor como elemento de desconstrução, os textos como complemento, e muitas vezes base, do movimento -, o que nos mostra leva a coreografia para um outro estado, mais livre, muito mais rico em termos de símbolos e certamente menos afirmativo. O coreógrafo usa o seu movimento nervoso e reactivo para alcançar uma outra meta, onde este existe menos dependente de uma funcionalidade evidente, partindo para uma abstracção sustentada na fisicalidade, na expressiva construção de uma imagem e, muito em particular, nunca deixando que as sequências se transformem em quadros fechados. Mesmo que exista um princípio de caracterização, a peça tem a vantagem de não produzir significados imediatos nem de ilustrar imagens feitas sobre o país. Há um equilíbrio entre o que pode ser entendido como representativo e a sua funcionalidade dramatúrgica. O mesmo equivale para o cenário de João Mendes Ribeiro, que dispõe um banco corrido ao fundo do palco, com dois estrados de madeira em frente e uma laranjeira num vaso. São hipóteses de ficcionalização que, pela sua abertura simbólica, potenciam usos diversos. E, nesse sentido, os corpos desenham paisagens, integrando-se nelas ao invés de as exemplificarem, tornando-se não apenas parte integrante dessa paisagem mas, precisamente por isso, conhecedores das zonas de sombra onde se podem resguardar (os bastidores e o cenário) e das zonas de luminosidade (a frente de cena) onde podem vir provocar convites, expor-se ou brincar com os estereótipos.

Será por isso que as sequências mais ricas em conteúdos e símbolos são, precisamente, aquelas que instalam ambiências, que trabalham o conjunto dos intérpretes, que se abrem a interpretações.

Destaque sobretudo para Leonor Keil e Romulus Neagus, extraordinários no modo como desafiam essa corporalidade, sugerindo imagens a partir de pequenas frases coreográficas, brincando com os olhares intensamente teatrais, seduzindo o espectador com movimentos que parecem explícitos mas depressa se desfazem. Próximas datas: 9 Outubro em Guimarães, 4 Dezembro em Ponta Delgada e de 16 a 18 Dezembro no Porto.