Crítica

Caído ao poço dos desejos

Há aqui um teatro vivo.

Com que se pode comparar uma encenação da "Gaivota"? Nuno Cardoso tem lidado com o repertório moderno, de Ibsen a Tennessee Williams, e, claro, lida com o conhecimento, pouco ou muito, que as pessoas têm das obras destes autores. Entre outras coisas, o que torna distinto o trabalho de um encenador é a originalidade da sua montagem no conjunto de montagens anteriores, e o modo como ela dialoga com a época em que é apresentada.

Nesta encenação, o cenário é composto por um espelho de água e uma floresta de árvores sem raiz, que sobem e descem conforme os actos. No final, o pano de fundo - um ciclorama banhado de luz para criar diferentes atmosferas - levanta-se para deixar ver os bastidores. As sombras e os reflexos fazem da iluminação um jogo de clarezas e incertezas similar ao comportamento das personagens. Por um lado, é como se o teatro estivesse a meter água; por outro, é como se as personagens pudessem escorregar a qualquer momento.A peça de Tchekhov é um trabalho de relojoaria bombista em que qualquer distracção pode fazer a cena explodir fora de tempo. Tudo se joga na conversa das personagens, que vai crescendo até ao momento em que algo acontece: o beijo entre Trigorin e Nina, a conversa fatal entre Treplev e Nina. O espectáculo mostra como as vontades são aleatórias e aquosas. Tratar o subtexto como um poço de contradições que transborda e inunda a cena permitiu fazer um teatro vivo.

As personagens disputam o seu destino em tempo real: Nina lida com a metáfora da gaivota que os escritores inventaram para ela e disputa o papel principal na representação. As histórias de amor são derivadas da ficção. A paixão de Treplev por Nina materializa-se no monólogo teatral que escreveu para ela. Arkadina é movida pelos papéis que interpreta, Trigorin vive através do que escreve. No fim, a encenação continua: o rapaz suicida-se mas a mãe é poupada ao espectáculo. O vencedor do jogo, Trigorin, tem de viver a mentira. O destino é incerto. Sair do poço é difícil, sozinho é impossível.

O sentido de humor permite tratar os enlevos amorosos sem sentimentalismo. Os actores que sabem que as personagens também estão sempre a representar umas para as outras interpretam o seu papel com muito maior propriedade. Essa consciência faz do espectáculo um acto público de sentido crítico, que reafirma o teatro como um lugar de reflexão, mais do que entretenimento. A encenação apresenta um objecto cuja natureza pode ser usada para compreender ora a vaidade e o ciúme, ora o fingimento como divisa, ora as artes dramáticas na nação. Vídeo: Inculta TV