Maria Dulce: a pequena Maria de Noronha foi actriz até ao fim

DR
Foto
DR

Aos 13 anos, o país descobriu-a em Frei Luís de Sousa; depois, tornou-se estrela no teatro e presença habitual na televisão; morreu terça-feira, aos 73 anos

"Esperai! Que Deus é esse que está nesse altar e quer roubar o pai e a mãe a sua filha?" Era uma criança que o dizia. Criança expressiva, criança actriz. A cena final de Frei Luís de Sousa, adaptação cinematográfica da peça de Almeida Garrett realizada por António Lopes Ribeiro em 1950, foi um dos grandes momentos da carreira de Maria Dulce, que morreu terça-feira, aos 73 anos, na casa que habitava em Bucelas.

Aquela foi a primeira vez que o público viu uma actriz, então com 13 anos (nasceu em Lisboa a 11 de Outubro de 1936), que depois de interpretar D. Maria de Noronha se dividiria pelo teatro, cinema e televisão.

Ainda nos anos 1950, teve uma bem sucedida e pouco documentada carreira em Espanha, tanto em palco como em tela, participando em seis filmes, entre os quais La Señora de Fatima, de Rafael Gil, onde interpretou Jacinta. Na década de 1970, foi figura no teatro de revista, em produções como Que Medo, Senhor Alfredo ou Força, Força Camarada Zé, e, em 1976, uma das fundadoras da Cooperativa de Teatro Popular, ao lado de José Viana, Rogério Paulo, Dora Leal e António Machado.

Em declarações à Lusa, Filipe La Féria destacou-a como "uma primeira figura do teatro português", de grande versatilidade - "fez desde teatro de revista ao teatro clássico". Era, descreveu, "uma mulher lindíssima, com uns olhos verdes fascinantes e uma voz que prendia o público".

O encenador Carlos Avillez fala ao PÚBLICO de "uma mulher de força e de coragem". Destaca "uma carreira brilhantíssima", que será recordada principalmente "pelo cinema e pela televisão", mas que lamenta "tenha ficado um pouco esquecida." Ao recordar Maria Dulce recua ao início de tudo, a Frei Luís de Sousa. "Foi um momento marcante. Para nós foi um impulso ver alguém da nossa idade naquele papel. Ainda hoje, ao olhar para ela, via-a tal como estava no Frei Luís de Sousa", confessa. No cinema vimo-la depois em A Luz Vem do Alto (1959), de Henrique Campos, ou em Amor de Perdição (1979), de Manoel de Oliveira

Memórias mais recentes ligam-na à televisão. Em 1994, interpretou a matriarca de uma típica família portuense em Os Andrades, série de culto exibida na RTP. Paralelamente, foi integrando o elenco de várias telenovelas, desde Chuva na Areia, em 1984, a Dei-te Quase Tudo, de 2006, a última em que participou.

A actriz Emília Silvestre, que com ela trabalhou na série Os Andrades, recorda a energia que punha no trabalho e o seu "grande sentido de comédia". A diferença geracional leva-a a afirmar: "Sobre a carreira, não posso não dizer nada além de generalidades." Tem porém uma certeza: "Era evidente que estávamos perante uma grande actriz."

À data da sua morte, Maria Dulce trabalhava na peça Sabina Freire, de Manuel Teixeira Gomes, que o encenador Celso Cleto estreará a 5 de Outubro no auditório Eunice Muñoz, em Oeiras.

Não lhe foram encontrados familiares e o funeral será suportado pela Casa do Artista. À hora do fecho desta edição, não eram ainda conhecidas as causas da morte. O corpo estará hoje em câmara ardente na Basílica da Estrela, em Lisboa. O funeral realiza-se amanhã, em horário a anunciar.