O homem que levava o teatro às pessoas

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Ao longo dos anos, e apesar da presença assídua na televisão, é o seu percurso enquanto figura do teatro que se destaca

O "pâncreas da treta", como lhe chamou este ano na gala dos Globos de Ouro da SIC, acabou por vencer o homem que todos destacam como alguém que enfrentou a doença como viveu o seu trabalho: "Fazermos o melhor que sabemos com os meios que temos, com limitações que muitas vezes nos são impostas." Palavras suas retiradas do discurso proferido a 27 de Março no Museu dos Coches, quando recebeu das mãos do Presidente da República a comenda da Ordem do Infante D. Henrique.

Diagnosticado com um cancro em Março do ano passado, António Feio trabalhava agora numa peça com estreia marcada para 19 de Outubro no Casino de Lisboa, Apanhados na Rede. Seria um regresso, novamente com José Pedro Gomes, a um espectáculo de 2006, Dois Amores, continuando um percurso que desde O Que Diz Molero, a adaptação premiada da obra homónima de Diniz Machado, o destacou no contexto nacional.

Nascido em 1954 em Lourenço Marques, actual Maputo, António Feio começou a representar no Teatro Experimental de Cascais, tinha ainda 12 anos. Apesar de ter feito cinema, televisão, rádio e publicidade - "porque a vida está difícil", disse-o, no Museu dos Coches -, é no teatro que o actor desenvolve uma personalidade e um olhar sobre o poder do teatro "enquanto meio de comunicação", nas palavras do encenador Ricardo Pais, que em 1998 o dirigiu em Noite de Reis, "onde ele foi arrasador". Sobretudo a partir da segunda metade dos anos 90, António Feio vai construindo um percurso que ambicionaria "trazer as pessoas ao teatro". Quem o diz é José Pedro Gomes, seu companheiro de palco com quem começou a trabalhar no fim dos anos 80, num programa de televisão de Joaquim Letria, Clubíssimo. É aí que Herman José os vê. "Foi por causa dele e do José Pedro Gomes que fui buscar o Nuno Artur Silva, em 1989, para me fazer os textos e, nesse momento, nasceram as Produções Fictícias", recorda. 

Mas é no teatro, e sobretudo a partir de O Que Diz Molero, que se começa a desenhar a ideia de um teatro que chegasse às pessoas "facilitando o acesso mas sem descomplexificar", como descreve José Pedro Gomes. 

"O que nos uniu, antes mesmo de nos tornarmos amigos, ou íntimos, chamemos-lhe assim, foram as conversas sobre o que achávamos do teatro, o que lhe faltava e o que queríamos fazer", diz-nos o actor para quem António Feio foi, para além de amigo, diversas vezes encenador. Para Herman José, tinham uma "mágica quando se juntavam. Havia ali uma explosão". "Mas trabalho é trabalho e conhaque é conhaque", diz-nos José Pedro Gomes a rir.

O Que Diz Molero - "uma pequena obra-prima" - é, por sugestão de Ricardo Pais, então à frente do Teatro Nacional S. João, no Porto, transferida para a sala principal do D. Maria II, então dirigido por Carlos Avillez, que tinha encenado Feio na sua primeira peça, O Mar, a partir de Miguel Torga. O actor e encenador será, em 1996, um dos rostos do projecto Intercidades, que envolve o S. João e o CCB, na apresentação "de um tipo de peças e de teatro que não estava preenchido do ponto de vista mental e intelectual", como lembra Ricardo Pais. O ciclo Intercidades integrava três peças - Edmond, de David Mamet, Perdidos em Yonkers, de Neil Simon, e Duas Semanas com o Presidente, de Mary Morris -, e uma equipa que incluía Adriano Luz, Virgílio Castelo e Cláudia Cadima. 

O ano das experiências

Essa versatilidade de António Feio leva a que Ricardo Pais o convide para o elenco de Noite de Reis, que encenaria em 1998. "O António era um espantoso leitor de textos e um homem muito dado como encenador e como actor. Foi uma grande perda para nós, não necessariamente com a morte dele, mas, sobretudo, que ao longo da sua carreira não tenha sido frequente a sua participação em grande textos." O encenador recorda que a interpretação de Maliovo foi "elogiadíssima por todos". 

Ainda em 1998, Arte, de Yasmine Reza, foi "um momento de viragem na história do teatro de mercado", como lhe chama Ricardo Pais, e onde aquela que é a característica mais identificável do teatro defendido por António Feio toma forma. "Nós fomos acusados de estar a fazer teatro comercial", conta José Pedro Gomes. "Levámos pancada de todo o lado", diz. "O António tinha esta vontade de levar o teatro às pessoas, de as fazer dialogar com o que se estava a mostrar." 

"Era uma pessoa simples que estava interessada em trabalhar para toda a gente. O modo como ele enfrentou a doença é também a forma como ele sempre viveu e trabalhou", conta Paulo Dias, produtor da UAU, responsável pelos projectos da dupla António Feio-José Pedro Gomes. "Fazer teatro em Portugal é extremamente difícil, e é uma grande batalha, e o que ele fez com o tal "bicho no pâncreas", como lhe chamava, foi o equivalente ao modo como ele trabalhava. E transportou essa força para combater a doença."

José Pedro Gomes fala também de uma resistência ao preconceito: "O olhar das pessoas sobre o que fizemos era muito mais aberto do que se imaginava." "Grande público", comenta, "foram os 160 mil que viram o Arte."

Formar espectadores

Na memória de muitos está o momento em que, durante os Globos de Ouro de 2009, o actor Nuno Lopes decidiu entregar o prémio que tinha recebido na categoria de cinema "à pessoa sem a qual não teria chegado ali". O actor recordava assim a sua passagem pelo grupo de teatro que António Feio dirigiu em Benfica e onde Nuno Lopes chegou, por acaso, quando tinha 13 anos. Do grupo fizeram parte outros actores, como Duarte Guimarães, que ali entrou aos 16 anos. Hoje são ambos colaboradores regulares do Teatro da Cornucópia. "O António não formou actores, formou espectadores", conta Nuno Lopes. "Muitas das pessoas que ali estavam não vieram a ser actores, mas ele permitiu que descobrissem o que queriam ser. Ele explorava as nossas capacidades e, com total liberdade e respeito por cada um, mudou a vida de muitos", reforça o actor, agora com 32 anos.

Duarte Guimarães, também com 32 anos, lembra-se da forma como António Feio "forçava" as apresentações no fim do ano, salientando sempre o "lado bom do que fazíamos". Ricardo Pais recorda também esta qualidade de Feio: "Havia uma tendência paternalista, de uma imensa candura para com aquelas pessoas. A sua generosidade como formador era imensa." "Nós sentíamos essa protecção", lembra Duarte Guimarães. "Havia uma crítica às coisas, sim, mas era sobretudo um espaço onde podíamos improvisar e aprender", espaço esse que o actor voltou a encontrar quando trabalhou com António Feio no Teatro Nacional na peça infantil As Aventuras de Ulisses (2002).

Essa variedade de registos, que incluiu encenações de musicais como Portugal, uma Comédia Musical (2004) ou Sexta-feira 13 (a partir da vida dos Xutos e Pontapés, em 2006), prende-se com aquilo que Paulo Dias, o produtor da UAU, chama "o prazer de ter o público à sua frente". "Houve quem, a dada altura, dissesse que ele fazia coisas muito comerciais", recorda. "A resposta do António era que não eram comerciais mas feitas para o público, porque o público precisa delas e nós precisamos do público." 

Pais diz que essa ideia de "eficácia plena" está relacionada com a "sensibilidade e inteligência", características que o encenador reconhece em António Feio. Para Paulo Dias, Feio fazia parte de "um grupo que faz coisas para as pessoas, pelo prazer de as ouvir rir e de se sentir que se é amado. E ele era uma pessoa altamente acarinhada".

Acredita Ricardo Pais que isso era "indicador do tipo de abrangência e qualidade que tinham a cultura e o trabalho" de Feio.

No trailer de apresentação do filme Contraluz, de Fernando Fragata, António Feio resumiu o que tinha aprendido com esta doença, ideia que, segundo os que o conheceram, transportava para o dia-a-dia: "Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem e agradeçam cada momento. Não deixem nada por dizer, nem nada por fazer."