Lula Pena

Depois de "Phados" (1998), o álbum que a revelou, e até agora o seu único, pensou em desistir várias vezes. Ainda bem que não o fez. Lula Pena é daquelas raras autoras capazes de aproximar a música do silêncio, traduzindo a complexidade das emoções de forma simples. Não são necessários grandes artifícios. Basta uma voz grave, distinta, de grande entrega emocional, mas enxuta, sem ser histriónica.

Uma guitarra acústica ondulando, que tal como a voz é concisa, respirando de forma subtil. E em redor silêncio. E em redor do silêncio, uma linha de imprecisa melancolia, repescada ao fado português, à bossa brasileira, à morna de Cabo Verde, ao flamenco espanhol, ao tango argentino ou à "chanson" francesa. Pelo meio existem citações, alusões, pontos de vista partilhados (Chico Buarque, Dolores Duran, António Cícero, Otto), forma de Lula Pena ocupar um espaço seu, onde não se sente por um só momento uma necessidade de interrogar o que quer que seja. Simplesmente, é. Por isso, "Troubadour", transpira liberdade. É o disco de alguém que não está preocupada em fintar ascendências. Faz do mundo a sua casa. Incorpora tudo para transmitir o prazer que lhe vai na alma em ser ela própria, mesmo quando todas as canções evoquem uma vontade de transmutação, como ela canta às tantas. Na última canção, ou no último acto, em "Rosa" há sugestões a "Nature boy" de Éden Ahbez ou "Pollen" de Mirah. Acaba assim: "meu amor?" "Sim, diz" "Já disse."