Crítica

Todas essas mulheres

É este o convite de "Shirin": espectadores de cinema, venham ver outros espectadores de cinema

Que é feito de nós, espectadores de cinema? E lembramo-nos do que dizia Serge Daney, que vamos ao cinema para que o filme nos veja? Em primeiro lugar, "Shirin" é isto: um olhar - apetece dizer: "elegíaco" - sobre essa espécie que todos os relatórios dão como estando em vias de extinção, o espectador de cinema; e um filme que se põe no lugar do filme, como um plano subjectivo do próprio ecrã, no momento em que olha para os seus espectadores. Por outras palavras, é este o convite de "Shirin": espectadores de cinema, venham ver outros espectadores de cinema. É um resumo muito simples do filme? É. Mas é importante preservar essa simplicidade, porque também é dela que Kiarostami está à procura.

Olhos nos olhos, ou quase; questão de ângulos, a câmara deambula perante a plateia, em movimentos laterais, mas é raro que apanhe alguém a olhar directamente para ela, antes um pouco mais para o lado ou um pouco mais para cima, para o lugar do suposto écrã, onde está ser exibido um suposto filme baseado numa velha lenda persa sobre um amor de perdição (é a heroína dessa lenda, Shirin, que dá nome ao filme). O efeito especular não é, em rigor, total, mas a sua sugestão é fortíssima - e é por isso que a sua dinâmica conceptual pede que o filme seja visto em sala de cinema, em situação "clássica", pesem embora todas as vezes em que já lemos essa mesma dinâmica conceptual de "Shirin" ser comparada a uma "instalação", assim menorizando o sentido que o filme faz em condições tradicionais de recepção (sentido que, parece-nos, só nestas condições é pleno).

Isto é o geral, passemos aos pormenores, sobretudo a este, fundamental: a plateia é composta essencialmente por mulheres, cento e tal actrizes iranianas de todas as idades, no meio das quais Kiarostami sentou ainda a bem conhecida Juliette Binoche - e o efeito de reconhecimento de cada vez que ela aparece em campo é estranho, quase uma interrupção da "suspension of disbelief" ou coisa parecida, mas nada nos garante que Kiarostami não a convidou justamente em busca desse efeito. No seu segmento para o "A Cada um o seu Cinema" (o filme de conjunto promovido pelo Festival de Cannes) Kiarostami já ensaiara o caminho de "Shirin", e há uma sequência parecida com este dispositivo (usando, no caso, uma representação de teatro Nô) no "Pont des Arts" do tão vilipendiado Eugène Green. Não é, evidentemente, a "originalidade" que é importante, mas a sua transformação numa experiência contemplativa de fundo, que progressivamente converte a sua simplicidade poética numa crescente ambiguidade - "Shirin" é um filme sobre o rosto feminino, feito numa sociedade islâmica teocrática - e num novelo artificioso que no fundo é o mesmo de todos os filmes de Kiarostami. Contrariamente às evidências, as mulheres não estão a ver filme nenhum, nem é seguro que estejam a ouvir o que nós ouvimos (o som e os diálogos do suposto filme): olhamos para elas sem saber o que é "reacção" e o que é "representação", o que é "espontâneo" e o que é "encenação". Razão para suspeitar, ou mais do que isso, para afirmar, que "Shirin" é a mais sofisticada "mise-en-scène" do olhar que alguma vez alguém fez. Seguramente, a mais bela.