A natureza do desejo

Será possível terem sido escritos bons romances no século XX como se não tivessem existido "grandes escritores" durante as décadas precedentes? Como se as influências dos nomes "incontornáveis" pudessem ser despiciendas em alguma da boa literatura produzida em finais do século XX? Serão essas obras uma espécie de romances anacrónicos? Talvez. (Mas isso interessa muito?)

A resposta às duas primeiras questões parece ser "sim", e a inglesa Penelope Fitzgerald (1916-2000) - quatro vezes finalista do Booker Prize e uma delas vencedora (com "Offshore", 1979) - arriscou escrever um que o prova, e de que maneira. "A Flor Azul" foi publicado originalmente em 1995 - e três anos depois distinguido com o American National Book Critics Award - e bem poderia ter sido escrito no século XIX, mas não vem nenhum mal ao mundo literário ter aparecido cem anos depois.

Em "A Flor Azul", Penelope Fitzgerald (que escreveu o primeiro dos seus nove romances aos 60 anos) narra-nos, em jeito de biografia romanceada, os anos do começo da idade adulta do barão Friedrich von Hardenberg (1772-1801), que ficou para a história da literatura com o pseudónimo Novalis, um dos mais importantes poetas do Romantismo Alemão do século XVIII. O romance abrange os anos da formação intelectual do poeta e filósofo Novalis, a sua passagem pelas universidades de Iena, Leipzig e de Wittenberg, e os seus encontros com os pensadores que o marcaram intelectualmente, J. Gottlieb Fichte e Friedrich von Schlegel, isto para além de Goethe, cujo espírito romântico tutela o romance apesar de ter apenas uma aparição fugidia como personagem. Mas "A Flor Azul" é sobretudo a história de um amor estranho e trágico, o de Novalis por Sophie von Kühn (a quem ele chama a "humana perfeição e graça moral" e por causa de quem escreveu a sua obra mais famosa, "Hinos à Noite"), que à época em que ambos se conheceram tinha apenas 12 anos de idade (e, ao que parece, uma inteligência igualmente reduzida), tendo por isso que esperar que ela festejasse os 14 para que as promessas de casamento fossem oficializadas com o cumprimento dos tradicionais rituais pelas respectivas famílias (à época, Novalis tinha 23 anos).Fitzgerald conta a história numa prosa extraordinariamente delicada e elegante, em capítulos curtos, por vezes cada um deles dedicado apenas a uma personagem (ou melhor, à maneira como ela pensa a história do seu "ponto de vista") ou a um acontecimento. Tudo decorre entre dois ou três lugares perdidos nas terras da aristocracia da Saxónia do século XVIII, no exacto ambiente histórico e espírito da época, tudo cuidado pela autora ao pormenor, incluindo as subtis referências literárias românticas que iluminam a história do amor de Novalis por Sophie, como a referência profética feita (como se Fitzgerald fosse uma sibila) à personagem Mignon, de "Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister", de Goethe: "Ela é apenas uma criança, ou melhor, um espírito, ou uma vidente. Ela morre porque o mundo não é suficientemente puro para a acolher."

É sobretudo na errância de alguns pensamentos quase impenetráveis de Novalis que muitos dos capítulos se centram, na espiritualidade do poeta-filósofo, na sua eterna tentativa de descobrir a natureza das coisas, e na génese da "flor azul" - que se tornaria num dos símbolos mais fortes do movimento romântico, e sobre a qual Novalis escreveria o romance (que deixaria incompleto) "Heinrich d'Ofterdingen" (o tradutor usa, e bem, a edição portuguesa do romance, tradução de Luiza Neto Jorge, "Tertúlia do Livro"): "estou longe de sentir a mínima cupidez; mas quanto à Flor Azul, essa sim, anseio por descobri-la! Não me sai da cabeça, não consigo pensar ou imaginar outra coisa além dela. Nunca nada me impressionou desta maneira: (...) tão insólita paixão por uma flor única."A natureza trágica deste amor de Novalis parece já anunciada na sua vida, em variadas situações, mesmo antes de ele conhecer Sophie; é nessa espécie de jogo de adivinhação, de iluminar o caminho para um destino igualmente trágico, que o talento de Penelope Fitzgerald mostra a sua exuberância transformando uma história que poderia ser lamechas numa obra-prima.

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