Crítica

A "americana" de Rita Redshoes

Rita Redshoes continua em busca de sonhos pop. Ou melhor, a viver as suas canções como fantasia para tela. Mas dois anos depois de "Golden Era", o seu álbum de estreia, algo mudou. Uma canção como "Bad Lila", com banjo a marcar o andamento e guitarra slide a pontuar a história da rapariga que "procura beleza em todos os homens", não seria possível antes. Porque há dois anos, o seu imaginário conjugava o colorido de fantasia de "Feiticeiro de Oz" com o romantismo de "Lonesome town", o clássico de Ricky Nelson que lhe ouvíamos nos concertos.

Em "Lights & Darks" desapareceram as orquestrações, surgem banjos, balanço havaiano, órgão Hammond e um sopro forte da América vintage. Não se trata tanto da proverbial conversa do amadurecimento: as canções de Rita Redshoes continuam a surgir perante nós como pedaços de um musical imaginário, acontece que este "filme" de "Lights & Darks" é mais interessante e menos frágil que a "Golden Era" anterior.

Mais que anteriormente, Rita Redshoes mostra-se hábil na construção de cenários musicais. Em "Hearted man", imagina Joni Mitchell em produção "wall of sound" de Phil Spector, em "Which one is the witch?" transforma fantasmas country de Morricone num belo pedaço de pop, em "It's a honey moon" dança como dançava a América sonhadora e ingénua da década de 1950 (é como se apontasse às Caraíbas numa varanda de Miami).

Declaradamente filiado na clássica tradição musical americana, mas abrindo espaço a coisas boas como a marcha "shoegaze" de "One cold day", e menos boas como "I'm the road to happiness", balada com um pé na soul, mas demasiado previsível, "Lights & Darks" mostra-nos uma Rita Redshoes diferente da que conhecíamos.

"Lights & Darks" é um bom álbum pop insuflado de "americana". De certo modo, é como se, agora sim, Rita Redshoes tivesse chegado à "Golden Era" a que apontava a estreia.