Crítica

Notícias do anjo poético

Uma das mais impressionantes autoras europeias escreve sobre a memória do horror, num livro de uma singular linguagem poética

Este romance intenso e vívido, de uma enorme profundidade existencial, foi publicado originalmente em 2009, poucos meses antes de a sua autora, Herta Müller (n. 1953), escritora romena nascida numa comunidade de língua alemã (e entretanto emigrada em 1987 para Berlim, onde ainda vive), ter sido distinguida com o Prémio Nobel da Literatura.

O passado da comunidade romena de língua alemã está contaminado: até ao Verão de 1944, a Roménia - com o seu ditador fascista, Antonescu - apoiou Hitler, e a comunidade alemã cultivou os ideais nacional-socialistas. Depois da ocupação por parte do Exército Vermelho, em Janeiro de 1945, Estaline ordenou que todos os romenos de língua alemã, homens e mulheres, com idades entre os 17 e os 45 anos (cerca de 80 mil), fossem deportados para campos de trabalhos forçados na União Soviética - entre eles, estava a mãe de Herta Müller. Durante décadas, e porque recordava esse passado fascista, o tema da deportação foi tabu, apenas abordado em conversas clandestinas, a medo e por meias palavras. Em 2001, intrigada com esses anos passados nos campos de trabalho, Müller começou a registar conversas com deportados da sua aldeia-natal (um pouco à maneira de W. G. Sebald, que assim trabalhou o trauma dos bombardeamentos sobre a população civil alemã). Contou as suas intenções ao amigo e grande poeta Oskar Pastior (1927-2006) - também ele romeno de língua alemã e antigo deportado -, que a quis ajudar narrando-lhe as suas vivências pessoais. Em 2004, visitaram juntos os antigos campos de trabalho na Ucrânia; o projecto passou então a ser o de um livro em conjunto, mas a morte repentina de Pastior, em 2006, deixou Herta Müller com "quatro cadernos cheios de anotações manuscritas" nas mãos; um ano depois, começou a escrever o romance.

"Tudo o que eu tenho trago comigo" é a autobiografia ficcional de um tal Leopold Auberg, que foi deportado para um campo na estepe ucraniana aos 17 anos de idade (à semelhança de Pastior), em Janeiro de 1945, e lá passou cinco anos. À parte esse tempo, há ainda uma história secundária que surge no início e no final do romance, a da homossexualidade de Leopold, e do seu medo de ser descoberto em "rendez-vous" na piscina e nos parques (antes e depois da deportação), actos que o regime comunista punia com a prisão e que, no contexto do campo, equivaliam a uma sentença de morte. Quando sabe que será levado pelos russos, vê a deportação como uma oportunidade de deixar a casa da família; "queria partir, fugir ao dedo molesto da cidade pequena, onde todas as pedras tinham olhos. Em vez de medo, sentia uma secreta impaciência" (p. 12). Mas o que se viria a passar no campo estava longe dos seus piores pesadelos. E é a lembrança da frase dita pela avó, "Eu sei que voltas" - escrita sempre em maiúsculas por Müller, como se fosse um refrão que não pode nunca ser esquecido -, que acaba por lhe dar forças para resistir, e o mantém na luta impiedosa pela sobrevivência diante do convívio com a morte que lhes aparece como única saída: "Quando removíamos os despojos, víamos o alívio nos rostos dos mortos, por finalmente lhes darem descanso" (p. 240).

À semelhança de outras obras de Herta Müller, também neste romance a acção é quase mínima, os cinco anos no campo quase resumidos ao frio, à fome, aos piolhos, aos percevejos e ao trabalho físico intenso, não obstante algum arremedo de laços afectivos que nunca chegam a cumprir-se. É a força da linguagem poética que faz este romance: uma linguagem que tem por magma o sofrimento, com palavras para o horror da fome, do frio e dos piolhos que são precisas até ao pormenor, de maneira a darem à escrita uma dimensão visual que facilmente não será esquecida pelo leitor. "No colcoz morria-se mais depressa, vivia-se em abrigos na terra, seis, sete degraus abaixo, o tecto de carqueja e ervas. Por cima infiltrava-se a chuva, por baixo subia a água subterrânea. Havia um litro de água por dia para beber e lavar. Não se morria de fome, ficava-se cheio de feridas purulentas de tétano, por causa do esterco e dos bichos" (p. 188). As frases mais simples, mesmo as da descrição de uma paisagem invernal ucraniana, acabam por atingir uma profundidade existencial inesperada e desesperante, pois os olmos são negros, os cães são negros, e há a noite e o carvão que se carrega, há a neve em que se enterram as roupas para que os piolhos se concentrem à superfície numa espécie de couve-flor escura, há o pão duro escondido debaixo da almofada onde os ratos fazem ninho.Para quem conhece a obra de Oskar Pastior, não é difícil encontrar as suas imagens ou metáforas, apesar de filtradas pela voz inconfundível de Herta Müller, com os seus silêncios e o gosto pela inversão como elemento estilístico, como nestas duas frases separadas por um ou dois parágrafos: "A neve no telhado da cantina é um pano de linho branco." "O pão está coberto com a neve branca do telhado" (p. 212)

As metáforas que fazem a linguagem da personagem são construções imagéticas que o ajudam a ordenar o horror - uma espécie de protecção poética contra esse sentimento que o rodeia - e que ao mesmo tempo tentam esconjurá-lo. "O anjo acompanha-me de fome escancarada até ao monte de lixo por detrás da cantina. (...) Sigo passo a passo os meus próprios pés, se não os seus. A fome é o meu norte, se não o seu. (...) A minha voracidade é crua, as minhas mãos são ferozes. As mãos são minhas. O anjo não mete as mãos no lixo. Enfio na boca restos de cascas de batata e fecho os dois olhos, assim sinto-os melhor" (p. 86).Por cá, e mais uma vez, a atribuição do Nobel a Müller deixou muita gente admirada, não faltando comentários que são resultado da ignorância e do facto de a edição portuguesa continuar propositadamente a recusar (muitos) grandes nomes da literatura europeia (compare-se com o que é editado em Espanha ou Itália, por exemplo). Se o prémio de Müller foi uma surpresa, isso deve-se apenas ao facto de a Academia Sueca ter distinguido em anos recentes dois nomes da literatura de língua alemã, Günter Grass e Elfriede Jelinek, e não ser expectável mais um. Não é preciso, mas se fosse este livro provaria a justeza da distinção.