Crítica

Novos olhares sobre António Fragoso

Um notável avanço sobre o conhecimento da obra e da época de um pianista e compositor de culto.

Falecido em 1918 com apenas 21 anos, na sequência da epidemia de gripe pneumónica, o compositor e pianista António Fragoso converteu-se ao longo do último século numa "figura de culto da música portuguesa", conforme o musicólogo Paulo Ferreira de Castro assinala no livro "António Fragoso e o seu tempo", recentemente publicado pelo CESEM (Centro de Estudos de Estética e Sociologia da Música da Universidade Nova de Lisboa) e pela Associação António Fragoso. É natural que assim tivesse sucedido, pois, apesar da sua curta vida, este jovem músico nascido na aldeia da Pocariça (próximo de Cantanhede) em 1897 demonstrou um inegável talento criativo e uma intensa curiosidade pelas correntes estéticas europeias do seu tempo, sobretudo de influência francesa. O fascínio que as poucas obras musicais que nos deixou despertam no ouvinte e no intérprete, associado à história do seu trágico e prematuro desaparecimento, contribuíram para alimentar o mito.

Fragoso foi autor de páginas pianísticas admiráveis como a "Petite Suite", de refinadíssimas canções (com destaque para as "Canções do Sol Poente" e para o os "Poèmes Saturniens", a partir de Paul Verlaine), e de interessantes obras de câmara. Infelizmente, não teve tempo de amadurecer a sua linguagem, o que intensificou a nostalgia (ou melhor, a típica "saudade" portuguesa) de um suposto génio que poderia ter dado novos rumos à linguagem musical. "Se para alguns a música de Fragoso se identifica com o Romantismo que não chegáramos a ter (tornando-a por isso mesmo vulnerável à suspeita de um relativo anacronismo), outros haveriam de reivindicar a sua obra como emblema de uma ânsia de actualização das referências técnicas e estéticas no domínio da composição no limiar do século XX" (p. 82), escreve Paulo Ferreira de Castro, coordenador da obra e do colóquio interdisciplinar que lhe deu origem e que teve lugar em 2008, na Culturgest.

Um dos aspectos mais relevantes do encontro e do livro que este suscitou prende-se com a sua luta declarada contra a "especulação ociosa do que poderia ter sido" através de uma reflexão mais distanciada sobre a figura e a obra de Fragoso, obtida através de estudos detalhados, devidamente contextualizados, e do recurso a uma considerável quantidade de documentação inédita. Alguns dos lugares comuns e das análises superficiais que subsistiam deram assim lugar, na opinião de Ferreira de Castro, a uma visão mais complexa sobre uma "uma personalidade dividida entre dicotomias múltiplas e pulsões contraditórias - nacionalismo e cosmopolitismo, melancolia e modernidade, culto platónico do absoluto musical e consciência da historicidade da arte -, mas também a de um espírito ávido de cultura e particularmente inclinado à reflexão, pouco vulgar entre os músicos portugueses da sua geração e sugestivo de uma precoce maturidade intelectual" (p. 84).

Sendo esta a primeira publicação sobre Fragoso depois da monografia pioneira de Leonardo Jorge (1968), "António Fragoso e o seu tempo" destaca-se pela qualidade da maior parte dos estudos, cujo alcance se estende à vida musical, artística e cultural da I República Portuguesa. O conteúdo é heterogéneo nas temáticas e na abordagem, combinando perspectivas mais especializadas (incluindo análise técnico-musical) com outras susceptíveis de interessar a um público mais alargado. No seu conjunto, permite um avanço notável em relação ao conhecimento anterior e lança novas pistas de pesquisa. Questiona ideias feitas como as influências de Fauré e Debussy na produção do compositor, às quais Carlo Caballero adiciona outras referências pertinentes (César Franck, Ravel e outros), e mergulha a fundo na linguagem harmónica e melódica das suas obras (através do trabalho de Christopher Bochmann), na música para piano (Ana Telles) ou num iluminador estudo inter-artes que evidencia a relação íntima da música com a poesia de Verlaine (Barbara Aniello).

A obra contempla ainda uma cronologia detalhada, recordações de família (por Eduardo Fragoso Martins Soares e José Campos), o impacto sócio-cultual da gripe pneumónica de 1918-19, que tirou a vida a mais de 40 milhões de pessoas (Daniel Melo), o percurso académico-musical de Fragoso (Joaquim Rosa), a sua vertente de intérprete (Miguel Henriques), a relação com a música portuguesa (José Maria Pedrosa Cardoso), a reflexão sobre as aptidões musicais e o talento (Helena Rodrigues), a recepção dos concertos sinfónicos em Lisboa (Sílvia Sequeira) e a crítica musical da época (Maria José Artiaga). A música de câmara e grande parte da obra para canto e piano são apenas abordadas por via indirecta, pelo que estas são temáticas a merecer maior atenção no futuro.

O livro é acompanhado pelo DVD "António Fragoso - Uma Antologia" (coordenado pela jornalista Manuela Paraíso), permitindo assim o acesso a uma selecção de obras musicais e a depoimentos de intérpretes, nomeadamente dos pianistas Miguel Henriques, João Paulo Santos e Paulo Pacheco e do maestro Martin André. Na interpretação das peças participam ainda a soprano Ana Ester Neves, a violinista Ana Pereira, o violoncelista Marco Pereira e a Orquestra da Escola Superior de Música de Lisboa. Estabelece-se assim uma frutuosa ponte entre a reflexão, a pesquisa e a divulgação da obra musical propriamente dita deste fascinante compositor que, nos poucos anos em que viveu, não fazia mais do que "estudar música, falar de música, comer música, dormir música e pensar em música" (carta de António Fragoso à irmã, datada de 27 de Janeiro de 1915).