Que se foda o amor...

"Íntimos"é talvez o melhor romance de Inês Pedrosa, e é um bom romance. Com algumas falhas, julgo, passos menos conseguidos (ressalto o primeiro capítulo, que poderia ensombrar o todo). Globalmente bem escrito e bem construído, lê-se de uma assentada, pelo menos pelos representantes de uma geração urbana entre os 40 e os 50 que se move em Lisboa. Geração contemporânea à descolonização, com memória da ditadura. Geração cuja entrada na vida, leia-se sexualidade, é anterior à era da sida, e que aqui é representada com os seus sonhos, desajustes e devaneios, sobretudo amorosos. Mas não só.

Um halo, algo descorçoado, algo deceptivo, embebe subrepticimente as vozes, a meia idade destas vidas, que mesmo assim firmam uma positividade inabalável - a da amizade que as reúne. E a temática da amizade foi sempre cara à autora. Vozes no masculino, por contraste com "Nas tuas Mãos", ficção anterior escrita do ponto de vista de protagonistas femininas. Uma das primeiras coisas a notar, começando pelo título, é a distinção certeira que vai sendo tecida entre a natureza da intimidade no feminino e no masculino: "- Hoje não estás cá, Afonso. Ouviste o que eu te perguntei? - Não, Pedro, desculpa. Os homens não se ofendem com o alheamento dos amigos. Não fazem perguntas íntimas. Sabem aceitar"; e ainda: "Uma cumplicidade funda, sem fusão. Temos princípios (...) jamais nos ocorreria falar das mulheres que, de algum modo, acabamos por partilhar".Mensalmente, cinco amigos jantam numa tasca, igual a tantas outras, onde se comenta, entre pilhérias e muitas mais vozes cruzadas, o desafio de futebol; nesse dia que é o tempo do romance, ganhava o Porto. O Afonso pedirá mais uma cerveja, e dirá de si para si: "o barulho das vozes dos amigos sossega-me. Não o que eles dizem. Às vezes nem os ouço. Não é para nos ouvirmos que nos encontramos - apenas para estarmos juntos. Cada um de nós é uma trave mestra da casa que somos todos juntos" - Augusto, Guilherme, Filipe, Pedro e eu". Eu, aqui, como se disse, "calhou" ser Afonso. É a voz de cada um que alternadamente ouvimos em monólogos retrospectivos, diálogos virtuais que, mesmo em silêncio, envolvem os presentes; vozes que ora arrastam pontos de vista e acontecimentos da memória pessoal mediando casos alheios e assim fazendo evoluir a narrativa; vozes que vão devolvendo ao leitor o clima desse dia particular igual a tantos outros, e transpondo com graça muitos dos traços que se reconhecem em tascas como aquela, "abafada e com cheiro a fritos" e que fazem sorrir o leitor: desde a toalha de papel em que se assenta qualquer coisa "urgente", às conversas da mesa mesmo ao lado, passando pelos ditos familiares entre clientes do costume e a bela "Celinha".

O livro é dividido em capítulos relativamente curtos. Cada um tem por título o nome próprio de um dos amigos, isto é, de uma voz que nele à vez enuncia. De vez em quando uma voz cede ou empresta umas tantas páginas a outra voz, de vez em quando irrompe uma interpelação directa a quem lê. Quem está por trás desta manipulação, deste agenciamento de vozes em cena? A autora? Uma das personagens, talvez o Pedro? Nem sempre a mesma? Ficamos sem saber ao exactamente.Como é de prever, todos tiveram uma vida sentimental conturbada. Clássico de geração. Menos Filipe, o mais frustrado, artista acumulando ressentimentos, que insiste em ser um "monogâmico obsessivo".

Afonso é oncologista. A mãe da filha, Leonor, morreu às suas mãos, cancro na mama. Vive culpado por ter enviado aquela de férias à Escócia, a seguir à morte da mãe. Casado com Joana, mulher previsível que o acalma, apesar de "enervante, castradora e egocêntrica", ou por isso mesmo, é amante de Ana Lúcia. Pedro quis ser actor, mas a bebida impediu-o de decorar os papéis no Conservatório. Tornou-se técnico de informática. É um teórico da feminilidade, vive com a mãe. Augusto veio de Angola, tornou-se administrador de uma empresa discográfica e é capaz de defender os méritos da música manhosa. Namora Margarida, que já tinha namorado Afonso. Guilherme cresceu num colégio militar, "um mundo de uniformes, sem mulheres. Mal saiu, empregou-se na farmacêutica. Não soube aprofundar a relação com Clarisse, que poderia ter sido uma "torrente de cor na sua vida".

Sendo a arquitectura deste romance cuidada, nem sempre se percebe a necessidade de intrometer nele assinaturas exteriores à sua mecânica. Parece um recurso forçado, um facilitismo que o edifício dispensava, e que em vez de lhe ser entrelaçado, e deste modo pulverizado, reforça a apreciação axiológica em que a autora por vezes cai. Refiro-me a duas estórias entaladas dentro da estória. Em primeiro lugar, o "Manuscrito de Bárbara". Traz a assinatura de Pedro, a partir de um cruzamento intenso do seu olhar com o de uma mulher que logo constataria estar numa cadeira de rodas. Desses olhos que se tocaram, terá nascido um conto erótico entre um homem casado e uma mulher deficiente, erotizando-se a deficiência (pela deficiência? A disparidade entre a força do olhar e o corpo paraplégico?). O outro caso é o de "Músculo Involuntário. Um conto de Orlanda Cohen". Aqui convoca-se o nazismo. Seria indispensável? Assim posto, não tem antes o sabor do "ethos" moral, de excrescência extra-diagética? Ao invés da "Carta de Ana Lúcia", plenamente justificado pelo encadeamento narrativo. Não posso terminar sem referir um ponto ultimamente bastante observado nas letras portuguesas: a literatura e a (sua) sexualidade. Ao contrario da doxa, parece-me que os gostos se discutem. Um exemplo: nada me parece mais perturbador do que o avolumar da tensão, até um ponto já sem retorno, entre Lalinha e o sogro em "Buriti" ("Noites do Sertão", Guimarães Rosa). E julgo que não é por dizer bunda em vez de rabo que a literatura brasileira é mais sensual. Bom gosto: "Está molhada por causa da chuva de prazer dele, e diz-lhe isso mesmo. - "mentirosa, mentirosa (...) é o murmúrio enquanto se desfaz de novo em chuva dentro dela" .

À parte estas observações, e contra elas, estamos perante um romance cheio de humor e perspicácia, estilisticamente amadurecido.