Direcção-Geral da Saúde vai avaliar comparticipação de vacina contra Rotavírus

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O director-geral da Saúde conheceu hoje os resultados do primeiro estudo multicêntrico nacional sobre esta patologia Pedro Cunha (arquivo)

Mais de um quarto das crianças atendidas nos serviços de urgência de dez hospitais portugueses com sintomas de gastrenterite apresentavam uma infecção por rotavírus. Esta é uma das principais conclusões do estudo apresentado ontem pela Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP), que decorreu entre Outubro de 2008 e Setembro de 2009. O trabalho envolveu 1886 crianças e quis avaliar a prevalência de Gastrenterite Aguda (GEA) por Rotavírus em crianças com idade menor de 5 anos. As duas vacinas actualmente disponíveis no mercado contra este vírus não são comparticipadas e envolvem custos que variam entre os 80 e 60 euros por dose, estando prevista duas ou três doses para garantir mais eficácia da imunização.

O resultado do estudo reforça a recomendação da Sociedade Portuguesa de Pediatria que em Fevereiro do ano passado já pediu formalmente que fosse considerada a comparticipação das vacinas para o Rotavírus licenciadas para uso na Europa. O presidente da SPP, Luís Januário, reafirma o apoio nesta recomendação, acrescentando apenas que defende a "vacinação universal" e que a sociedade "não fará lobby de vacinas". À saída do encontro de especialistas, que se realizou no Porto, o director-geral de Saúde reconheceu que os dados novos divulgados ontem serão apreciados pela Comissão Técnica de Vacinação da DGS. "Serão equacionados num quadro de reflexão. Vamos trabalhar e analisar. Não são questões de emergência, não temos aqui uma luta contra o tempo", referiu. Reconhecendo a importância desta patologia, Francisco George sublinhou que "em termos de mortalidade não é um problema em Portugal", ao contrário do que se verifica noutros países.

Os especialistas que elaboraram o estudo notam que a diarreia (um dos sintomas da GEA) é uma segunda principal causa das idas de crianças às urgências [a primeira causa será a constipação] e que a vacina é capaz de garantir uma protecção próxima dos 100 por cento para as manifestações mais graves desta patologia. O estudo confirma ainda o carácter "sazonal" desta infecção, demonstrando que a GEA por rotavírus foi mais frequente entre Janeiro e Abril, registando-se o pico em Abril com 48,5 por cento dos casos concentrados neste mês. Nota-se ainda que as mais novas são mais vulneráveis, verificando-se que 74 por cento das situações de gastrenterite por rotavírus foram diagnosticadas em crianças com menos de dois anos.

Por outro lado, Fernanda Rodrigues, uma das autoras do estudo e especialista no Hospital Pediátrico de Coimbra, revela ainda que a GEA assume maior gravidade quando é provocada pelo rotavírus, encontrando-se mais frequentemente febre, vómitos, perda de peso e sinais de desidratação. No que se refere à necessidade de internamento, o estudo realça que 23,5 por cento das crianças infectadas pelo rotavírus foram internadas. Nos casos de uma gastrenterite sem infecção deste vírus, apenas 11,9 por cento das crianças tiveram necessidade de internamento.

Os autores do estudo, que foi organizado também pela Sociedade de Infecciologia Pediátrica e Secção de Gastrenterologia e Nutrição Pediátrica, sublinham a necessidade de criar um sistema de vigilância epidemiológica desta patologia com a realização de mais estudos no futuro. "É obrigatório vigiar", avisa Luís Januário.

O rotavírus é uma causa frequente de diarreia aguda e vómitos em bebés e crianças pequenas. Não existe nenhum tratamento para esta infecção, recorrendo-se apenas a estratégias de controlo dos sintomas e das suas consequências. A mais importante medida é garantir a hidratação.