A festa brava de Madalena Victorino

Foto

Madalena Victorino percorre Lisboa e o Vale do Tejo com uma peça que, mais do que retratar, quer fazer-se a uma região a meio caminho entre a província e o subúrbio, como o toureiro se faz ao touro. Amanhã e depois está em Torres Vedras.

O ritual repete-se todas as semanas. À quarta-feira, a coreógrafa Madalena Victorino chega com os seus sete bailarinos e seis músicos a um dos 18 teatros da região de Lisboa e Vale do Tejo que integram a Artemrede para apresentar um espectáculo que se chama, simplesmente, "Vale". Seguem-se dois dias e meio de preparação e três espectáculos. Todas as semanas, de quarta a domingo, de concelho em concelho. Amanhã e depois é em Torres Vedras, no Teatro-Cine.

Ao protocolo habitual de montagem de um espectáculo acrescenta-se, agora, o contacto com a população local, escolhida um mês antes. Chegam de todo o lado e têm em comum a vontade de participar num espectáculo - "popular e experimental", nas palavras da coreógrafa - sobre uma comunidade e um território. E que se constrói justamente a partir dessa comunidade e desse território, integrando-os. No centro disto está uma região dispersa, em que a sensação de cidade de província convive com lógicas e paisagens suburbanas; pelo meio, a imensidão dos campos

Coproduzido pelos teatros de Santarém, Alcanena, Sobral do Monte Agraço e Montijo, "Vale" é, genericamente falando, um projecto de arte comunitária. Teve estreia a 4 de Dezembro e a sua carreira prolonga-se até Março, sempre em itinerância. Até lá vai somando teatros como se fossem pontos de um mapa que está longe de ser homogéneo mas é, sobretudo, reconhecível. "A dança é um bom exercício sobre isso, e tenho uma oportunidade de ensinar sobre a dança", diz a coreógrafa.

A dança proposta por Madalena Victorino tem por hábito sentir-se melhor fora dos palcos. "Caruma", o espectáculo que fez a convite da Companhia Instável, foi considerada a peça do ano em 2007 pelos críticos deste jornal e percorreu o país juntando gentes de diferentes idades e corpos, num caleidoscópio imagético e sensorial apoiado na partilha de memórias. "Contra-bando", criado na Primavera passada para a companhia Comédias do Minho, percorreu cinco concelhos do Vale do Minho, invadindo as casas e os quotidianos das pessoas. Antes disso, peças como "Projecto Tojeira" (1989), "Torrefacção" (1990) ou "O Terceiro Quarto" (1991) tinham trazido, numa altura em que a dança contemporânea se estava a afirmar em Portugal, uma outra concepção da relação entre o corpo e o espaço e, por consequência, entre  o intérprete e o espectador. "O palco também me mete medo", diz-nos em conversa.

Será esse medo, e esse fascínio, que explora nesta peça passada no palco por escolha da Artemrede, mas que começou nos campos, foi às ganadarias, andou a saltar rios, viu a terra ser revolvida por tractores, dançou nas festas e esteve numa tourada. "Quis falar dos animais, da morte, da festa, das noivas e da cabra, dos moinhos de água, dos forcados, dos curtumes, das ganadarias, dos cavalos e dos touros, dos tractores, dos toureiros, dos velhos agricultores, das mulheres dos aficionados, dos machos latinos que vêem as mulheres como objectos sexuais...", enumera.

A festa como abismo

O teatro como se fosse uma região inteira, e por inteiro, que convida as pessoas a entrar mas não as usa como personagens, portanto. "Uma das coisas mais bonitas desta peça é que não faz uma ilustração nem uma representação literal dos elementos mais clichés desta região, mas utiliza-os para levar as pessoas a sentirem-se atraídas pelo que estão a ver", sublinha Madalena Victorino. Não faz, de facto. Mas faz uma outra coisa: eleva a parada ao estabelecer propósitos coreográficos muito claros, em que o corpo usa a imagem para criar algo que não é apenas uma metáfora mas uma forma de explorar essa imagem, de a prolongar, estender e questionar. A distância que vai entre a imagem reconhecível e a outra proposta pelo corpo é percorrida pelo espectador, participante ou não, da região ou não, que se vê convocado para um ritual de descoberta e desapego. "Mais do que um ponto de vista, é um ponto de encontro, e isso eu faço muito bem", assume sem modéstia.

"Não tive a pretensão de ser capaz de retratar as pessoas da região", diz a coreógrafa. "Sou uma pessoa da dança, é essa a minha área, sou uma pessoa normalíssima, sem um talento especial, e acredito que a linguagem artística ajuda no desenvolvimento das pessoas. Gosto muito dessa aproximação vertiginosa, e aproximo-me sempre com muito respeito", continua. Esse respeito de que fala faz de "Vale" mais do que um espectáculo, acredita. "A peça é mais do que um objecto de que se pode gostar mais ou menos, é o que emana dele, do contacto com as pessoas.". E dá o exemplo das touradas, imagem de marca desta região: "Não me interessava de todo o tema dos touros e das touradas, mas eu gosto de desafios e trabalho para descobrir como é que agarro num tema destes sem me trair a mim própria".

Com as semanas passadas na região, Madalena Vitorino e os seus bailarinos, aos quais se juntariam os músicos - esses sim locais, escolhidos por Carlos Bica em audição -, aprenderam que "os ribatejanos são pessoas muito intensas, muito fortes": "As festa têm de ter perigo. Sem o perigo, sem o abismo da morte, são festas frouxas, não é uma festa. É essa a relação que têm com o touro, criado uma vida inteira para aquela meia hora antes de entrar na arena". "A peça é esse abismo", descreve. "E nós trazemos o espectáculo à luz".

Há reflexos dessa luz nos figurinos, por exemplo, escolhidos pela sua capacidade de servirem de material para projecção de ideias (e de imagens), dada a crueza de algumas cores e a aridez de alguns cortes. Há-os também nas sequências que envolvem os participantes locais, "sempre sem um número fixo", que mais do que preencherem uma paisagem de fundo complementam o trabalho de quem vem de fora, num gesto de legitimação concertado. É um espectáculo "que vacila, que respira" por causa destas entradas e saídas permanentes entre cada novo teatro. "Dedicar-me às pessoas é uma prioridade", diz Madalena, e a cada nova apresentação, efectivamente um novo espectáculo porque com feito com novas pessoas, trabalha-se "a coesão da peça, o ritmo e a dinâmica da sua estrutura", fazendo jogar a favor do conjunto esta ideia de mobilidade.

"Os participantes vão-se apaixonando muito rapidamente", e alguns voltam para outra peça, numa outra localidade, onde "ensinam aos outros que entram pela primeira vez", conta uma coreógrafa que enquanto vai falando das várias sequencias as reproduz à nossa frente. E então vemos os gestos que na peça representam cavalos mas que também querem mostrar o movimento do corpo dos homens que, de tronco nu, no verão de Alcanena, trabalham as peles. Ou duas mulheres que se pegam e que tanto podem ser dois touros, duas mulheres suburbanas ou duas ciganas como as que viram à porta do teatro do Montijo.

Há em "Vale" esta permanente mutação dos corpos e dos sentidos. Onde "o corpo gordo, velho e cansado é também o do rapaz novo, de quem as raparigas gostam", e onde os gestos de cada intérprete - e de cada espectador -, vão desenhando o mapa de uma região que Madalena Victorino quis guardar e trabalhar sem nunca deixar de abrir espaços para que cada teatro, a cada semana, se pudesse também chamar casa.