Crítica

Malik the Knife

Filme de prisão, filme de máfia, filme sobre a paisagem social francesa contemporânea, mas antes disto um filme sobre a aprendizagem

"A ideia é sair daqui um bocado mais esperto", ouve Malik da boca da sua primeira vítima, segundos antes de lhe rasgar o pescoço. Malik, o herói (ou se preferirem, anti-herói) de "Um Profeta", é certamente um "visionário", capaz de projectar o seu futuro a longo prazo, e capaz de antever o perigo imediato, como na cena com um acidente de automóvel em que lhe perguntam "quem és tu, um profeta"?


Mas se calhar quem lhe deu a luz a ver, quem foi "o profeta do profeta", foi o seu primeiro sacrificado, Reyeb, que lhe falou dos livros e de tudo o que podia aprender na prisão para sair dali "um bocado mais esperto". E Reyeb, nas cenas em que Jacques Audiard mais faz vacilar o seu tão elogiado "realismo", torna-se uma "presença" constante junto de Malik, uma parte dele (ou da sua consciência), um "enviado" sabe-se lá de onde (do inferno, provavelmente). Filme de prisão, certo, filme de máfia, certo, filme sobre a paisagem social francesa contemporânea, ainda certíssimo: mas antes disto, ou através disto, "Um Profeta" é um filme sobre a educação e a aprendizagem.

Grande Prémio do Júri no último Festival de Cannes, "Um Profeta" sucede, na filmografia de Audiard, a "De Tanto Bater o Meu Coração Parou" (2005). A tradição realista francesa, que já viu dias melhores e dias piores mas é talvez a mais antiga "persistência" do cinema francês, tem em Audiard, actualmente, um dos mais talentosos cultores. E se o realismo, nestes termos, é muito mais uma questão de intensidade (das acções e das emoções, dos actores e dos lugares) do que de fidelidade sociológica, não impede que uma coisa e outra se encontrem - e talvez por isso este seja o filme de Audiard mais ecos tem provocado internacionalmente. "Um Profeta", com a sua história à volta dum miúdo árabe analfabeto que na prisão é "adoptado" pelo chefe de uma associação mafiosa corsa, num universo (sempre "comunicante" para além da prisão) povoado por magrebinos, bascos, marselheses, grupos e clãs de identidades muito marcadas e - para todos os efeitos, com figura de estilo ou sem ela - "marginais", tem tudo para fazer multiplicar o seu impacto realista. Mesmo se - ainda a "educação" - Malik tem a inteligência (o cinismo) de, justamente, não se deixar aprisionar numa lógica de grupo, sejam a lógica e o grupo os que forem. "Só nos queres usar", dizem-lhe a certa altura parceiros de ocasião; "e então?", responde ele. E então?, se este "uso" (e usufruto) é a alma do negócio.

E também, de certa maneira, a alma do melodrama que corre em fundo, a história da relação paternal entre o velho corso e Malik: acaba mal, porque Malik percebe que o poder "oferecido" não é bem poder, ou não é poder nenhum ao pé do poder "conquistado", porque só este garante alguma forma de independência. Se é um "filme de género", como se tem dito, o "género" de "Um Profeta" é menos o do "filme de prisão" do que o do "filme de máfia" à americana - concretamente o "Padrinho", que também é uma história de educação e, à sua maneira, de predestinação. E já agora, a propósito de predestinações, se Bresson e Audiard, diferentes como a água e o vinho, tiverem algum gene em comum isso seria espantoso, mas Audiard parece lidar aqui com assuntos que também foram de Bresson - "o vento sopra onde quer" - e que ele também tratou em "filmes de prisões" (vários). Será forçar um pouco a nota, mas enfim, as notas existem para serem forçadas. De qualquer modo, acabamos "Um Profeta" remetidos ao "vazio" de Malik, à ilegibilidade do seu rosto, naqueles planos que Audiard faz acompanhar, na banda de som, por uma versão de "Mack the Knife", a canção Brecht/Weill oriunda de uma célebre opereta sobre o submundo e os seus códigos. Se Audiard quis acabar em ambiguidade, acabou em beleza.

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