Uma mulher chamada vulcão

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Valdete tem uma jóia de marido que se transforma num exterminador implacável. Já vimos isto em qualquer lado (tipo as manchetes dos últimos dias), mas este espectáculo não é só sobre violência doméstica

O monólogo "Vulcão", de Abel Neves, encenado por João Grosso, estreou-se na Sala Estúdio do Dona Maria II a 26 de Novembro - um dia depois do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, data que serve para lembrar, anualmente, que uma em cada três mulheres é espancada, coagida a fazer sexo ou submetida a algum outro tipo de abuso durante a vida. Nem o encenador nem a actriz Custódia Gallego, que interpreta Valdete, associam a peça a esta causa, mas a coincidência reforça a pertinência do texto (tragicamente, desde a estreia, este é um tema que tem feito demasiadas manchetes em Portugal).

Valdete é uma mulher de meia-idade. Tem com o cabelo desgrenhado, os olhos esbugalhados e as mãos vermelhas de tanto as esfregar. Fala num fôlego só, como se o mundo fosse acabar naquele momento e ela não tivesse tempo de contar a sua história. Casou-se com uma "jóia" de marido, tiveram um filho, cego. Desde então, o marido Samuel transformou-se num monstro obcecado em exterminar a "diferença", num nazi. Começou pelos cães. Recolhia-os nas ruas e atirava-os ainda vivos para um poço, onde os deixava, sem comida, até morrerem. Valdete, que "quase sempre dizia sim", vive a amargura dos seus dias alimentando-se da esperança de reencontrar o filho, até descobrir que o marido o vendeu à uma máfia de tráfico de órgãos.

Mais do que sobre a violência contra as mulheres, João Grosso diz que "Vulcão" é uma peça sobre a violência. Afinal Samuel não só violenta a mulher, mas também o filho, os animais e tudo que lhe parece defeituoso e diferente. Esta peça é "um monólogo, mas ao mesmo tempo uma narrativa" em dois tempos, afirma o encenador. Ora ouvimos Valdete, no presente, a falar do passado, ora a vemos, no passado presentificado, a ser amarrada, estrangulada, a tentar fazer do caos uma família feliz. João Grosso optou por vincar esta oscilação de forma a evitar um melodrama. "É uma peça com um leque de emoções muito fortes. Tivemos de nos distanciar, para não vermos Valdete como uma coitada", explica. Custódia Gallego acha de resto inviável vê-la com piedade, porque a personagem não sente pena de si própria.

Para proporcionar este distanciamento também aos espectadores, João Grosso situou a história numa cenografia sem tempo nem espaço, embora haja elementos domésticos. Valdete move-se sobre uma estrutura similar a um gigante e fino colchão de plástico branco. O encenador chama-lhe espaço flutuante, uma analogia à memória branca, onde tudo está e não está. É também uma metáfora do equilíbrio precário da vida de Valdete, sempre a tentar segurar-se perante o perigo iminente de queda. Num certo momento da peça, a personagem sublinha a coerência do cenário: "Não sinto o chão".

Quando olha para a protagonista, o encenador vê " uma sombra, [uma mulher que] vive como fora da vida, como se não existisse". A imagem veio à mente de João Grosso por influência das telas de Mark Rothko (1903-1970), o expressionista abstracto de origem letã. "Foi um ponto de inspiração para a construção do espectáculo. Esta zona em que não é uma cor, não é outra, em que não há uma passagem definida", explica.

No fim, esta mulher "sombra" revela-se um "vulcão". A violência exercida sobre ela, em vez de ser rejeitada, é absorvida por Valdete. Samuel, o seu marido, fica cego, assim como o filho que antes exterminou. Num falso golpe de misericórdia, a mulher leva-o a ver o poço onde ele metia os cães famintos para os obrigar a morrer.