Brevemente, num palco perto de si

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Não se pensa nisso quando estamos sentados no nosso conforto de espectadores, mas se existe essa coisa a que chamamos "rentrée" é porque alguém andou a trabalhar em Agosto. Fomos espreitar o "work in progress" de criadores em residências artísticas, de Aveiro a Faro

1. Um solo (Italians do it better)

15 de Agosto, e tinha logo de ser sábado. Uma hora depois de Lisboa, as três faixas da A2 deslizam em primeira para sul. Carros com a casa às costas, pára-arranca, um sol de Satanás. Até quando parte de férias, o país faz fila. O plano é (era) chegar a Faro pelo meio-dia, mas quem é que estamos a tentar enganar.

Descontando as esplanadas dentro da cidade velha e dois casamentos, Faro é uma mansidão - está tudo na praia, ou está tudo à espera que o calor recue. À porta do xadrez multicolor que é o Centro de Artes Performativas do Algarve (CAPA) está um rosto de Lisboa, o actor Martim Pedroso, e pouco depois aparecem os outros, para fumar ou simplesmente ver a luz do dia: os italianos Stefano Mazzotta e Emanuele Sciannamea, e uma trança, Chiara Michelini, sorriso generoso, tímida no trato. O actor português e a companhia italiana Teatrofficina Zerogrammi estão em residência artística no CAPA - o Ípsilon apanhou-os sensivelmente a meio das suas duas semanas de estadia em Faro. Se existe essa coisa a que chamamos "rentrée" é porque alguém andou a trabalhar em Agosto. Agosto porque a criação, ao contrário das outras actividades, não tem 40 horas semanais e subsídio de férias; Agosto porque é quando as pessoas estão mais disponíveis para se juntarem; Agosto porque toda a gente foi de férias e a cidade está vazia; Agosto porque dependem da boa-vontade dos outros - estruturas como o CAPA, que fazem das residências artísticas a sua razão de ser.

É um trabalho quase invisível, mas alguém achou que tinha de o fazer: acolher artistas em fase de criação - acolhimento a sério, com todas as letras, no caso do CAPA: casa, cama e alimentação. Sem exigir grandes contrapartidas, e assumindo os custos do processo criativo de um espectáculo que se estreia quase sempre noutro sítio qualquer. Têm as portas abertas a artistas ou colectivos sem local próprio de produção, ou com local de produção mas outras exigências de espaço. E, salvo algumas excepções - o Centro de Residências Artísticas de Nodar, junto a S. Pedro do Sul, ou o Núcleo de Experimentação Coreográfica (NEC), no Porto -, estas estruturas com um calendário regular de criadores residentes não estão fechadas em Agosto. É porque há quem trabalhe que estamos a caminho do Algarve quando os outros vão de férias.

"Se tivesse de pedir uma residência ao CAPA, não pedia nesta altura do ano sabendo que podia dar um mergulho ali ao lado", ri-se José Laginha, ideólogo e director daquele espaço. Acrescentando de imediato que o regime de trabalho de quem ali chega é intenso. "Ninguém faz fins-de-semana. Os últimos que cá estiveram não tiraram um único dia para descanso." O CAPA tem a praia aqui tão perto, mas não é uma colónia de férias. "A questão de estarmos no Algarve... eu próprio não exploro isso, não há qualquer referência no 'site', diz José Laginha.

Mas os italianos e Martim Pedroso têm andado pela praia, e exibem as provas: fotografias tiradas na Ilha Deserta, ao largo de Faro, que são uma espécie de "storyboard" do vídeo que vai integrar o terceiro espectáculo da companhia Teatrofficina Zerogrammi, intitulado "Mappugghje". Quatro rapazes (faltava o dramaturgo Fabio Chiriatti, que entretanto desceu à "black box" do CAPA, onde nos encontramos) estão a trabalhar para que uma rapariga dance: "Mappugghje" é um solo de Chiara Michelini. O projecto inspira-se na "Odisseia", mas do ponto de vista de Penélope e da sua "espera de um homem que nunca mais chega", explica Martim, que colabora na construção da personagem.

O actor português está a trabalhar em Itália graças a uma bolsa do Ministério da Cultura - o programa Inov-Art, inaugurado este ano, que financia estágios internacionais na área das artes e da cultura -, e os Teatrofficina Zerogrammi vieram parar a Faro graças a um subsídio do Ministério da Cultura italiano ("Movin' Up") para promover a mobilidade internacional dos seus jovens artistas.

"Mappugghje" foi iniciado em Fevereiro. Antes de vir para Faro, o grupo tinha um solo de 15 minutos numa cadeira. Estamos a vê-lo agora: dança, teatro e mímica ligados como argamassa. A música é dolente, mas Penélope revela uma fisicalidade de desenho animado. Tiques nervosos, actos histéricos, uma mão que escorrega no joelho e leva o corpo atrás.

Nota de intenções desta companhia de Turim: "restituir à dança a sua leveza". Na base das suas coreografias está uma espécie de teatralidade das pequenas acções, banais e quotidianas: uma gota de água, uma folha que cai, a maneira de pegar numa chávena de café. O próprio título do espectáculo, "Mappugghje" (não experimentem pronunciar isto em casa) significa, no dialecto salentino (falado na região de Puglia, de onde Stefano e Emanuele provêm, no salto da bota que é Itália), coisas de pouco valor, sem importância.

O espectáculo entra agora na segunda fase de criação, no CAPA. A companhia procura expandir o solo, desenvolver a acção num espaço maior, além-cadeira. A vinda para Faro já teve consequências, contaminou o projecto. Tinham imaginado um "huis-clos", uma pequena casa de dois metros quadrados, como cenário do vídeo, mas não resistiram a dez quilómetros de praia deserta e ao fenómeno das marés na Ria Formosa - metáforas em potência para a história de Penélope. Amanhã é domingo, mas trabalha-se: a partir das cinco da manhã vão filmar na cidade velha.

"Mappugghje" tem ante-estreia marcada para Nápoles em Abril.

2. Um duo (são precisos dois para um solo)

A funcionar regularmente desde Novembro do ano passado, o PerFormas está situado no antigo Teatro Avenida, em Aveiro, um edifício dos anos 50 que foi uma sala de cinema até meados da década de 80. Um lugar histórico, palco da oposição anti-salazarista, como assinala a placa que não vimos à entrada e só vemos à saída. Hoje é ocupado por vários estabelecimentos comerciais - a porta do PerFormas surge entre um banco e uma loja de roupa. Entra-se num elevador que só pára no piso do PerFormas - parece deliberadamente idealizado para evitar qualquer ligação com o resto do edifício. Café-concerto e zona lounge refeitos da noite passada, é aqui que esperamos que Ludger Lumers e Jorge Gonçalves façam um intervalo.

Ana Rocha, produtora, vem à frente, explicar o essencial: Ludger e Jorge nunca tinham trabalhado juntos antes, e os dois coreógrafos e intérpretes estiveram três meses, entre Fevereiro e Maio, a preparar o projecto na Fábrica da Rua da Alegria, no Porto. Em Julho houve uma apresentação informal em Berlim, na Tanzfabrik. Já não é o espectáculo que estamos a ver porque em Berlim havia um violoncelista em palco. Agora são só os dois intérpretes dentro de uma oval, aparelhos analógicos (giradiscos com um resto da "Carmina Burana", aparelhagem para gravar e fazer "rewind", um mini-leitor de cassetes) e uma câmara a filmar em tempo real - em Aveiro começaram a experimentar com o vídeo. Ludger, alemão, integrou a companhia de Olga Roriz nos anos 90, Jorge Gonçalves tem uma história comum com o Balleteatro. Chamaram à sua colaboração "Antoine": se é suposto ser um dueto, eles dançam muito sozinhos (e vão muito ao chão), um sem o outro. Se é suposto ser um dueto, quem é "Antoine"? "Uma figura que não está lá. Mas pode ser um de nós", diz Jorge Gonçalves. "Conhecemo-nos e tivemos vontade de fazer qualquer coisa juntos. Nunca houve a intenção de fazer um dueto - queríamos criar qualquer coisa a par um do outro, não necessariamente um com o outro", explica Ludger Lumers. "No espectáculo, podemos ser uma pessoa como podemos não ser nenhuma. Se calhar, isto é um solo com duas pessoas."

Depois de Aveiro, a dupla vai estar em residência no CAPA. Ao contrário deste, o PerFormas não oferece alojamento aos artistas (Ludger e Jorge ficam em casa de amigos), mas apenas o espaço de trabalho - uma sala-estúdio equipada e com 120 lugares, onde também apresenta a sua programação. Como contrapartida, o espectáculo é depois ali apresentado. "Antoine" terá aqui a sua estreia, a 6 e 7 de Novembro. As residências têm como objectivo "proporcionar o encontro da população com as artes performativas contemporâneas", explica Filipe Pereira, director artístico. Que tem planos mais ambiciosos para as residências - interacção maior com a comunidade local, acções de formação, encontros informais com o público - mas "ainda é cedo". O PerFormas está só a começar.

3. Três trios (e um triângulo)

- Ora aqui está um rico trio.

Podíamos ser nós a dizê-lo, mas são eles, o trio. Uma actriz de teatro, uma actriz de cinema e um bailarino avançam para nós de olhar fixo, com movimentos de tai-chi e uma espécie de "plié". É intimidante, sobretudo porque somos a única assistência, e não necessariamente porque Elsa Aleluia foi buscar inspiração ao cinema de terror. Hoje ela tem uma t-shirt com uma teia de aranha. "Che Cosa" chama-se o espectáculo em desenvolvimento, que vive de "situações no limite do acontecimento", de lançar expectativas no espectador. O terror tinha de estar nisto - Elsa e os seus intérpretes, Ana Moreira ("Os Mutantes", "A Corte do Norte") e Miguel Ramos, viram "Repulsa", "Evil Dead", "The Grudge" - porque o terror alimenta-se da formação de uma suspeita. "E de repente passa o gato e já não é nada", diz Elsa Aleluia. "Che Cosa", que irá integrar o Festival Temps d'Images, será inteiramente criado em residências: Buenos Aires primeiro (só Elsa), Re.al e Eira, ambos em Lisboa, e PerFormas, onde irá estrear em Outubro. Mas uma residência em Lisboa - por exemplo no estúdio da Re.al, que o Ípsilon foi espreitar a 14 de Agosto - não é o mesmo que uma residência fora de Lisboa. "Há sempre o voltar o casa, não desligas totalmente do teu quotidiano", nota Elsa Aleluia. "E é importante criar pequenos distanciamentos." A mudança de cenário, o nomadismo das residências tem algum efeito sobre o acto criativo? "Aqui ajuda. Porque é um espectáculo que vive de um quase instalar-se e de fuga."

"Há momentos em que é importante tirar as pessoas do seu habitat normal para poderem estar completamente dedicadas ao trabalho", diz Maria Ramos, bailarina e coreógrafa. "Para alguns intérpretes pode ser claustrofóbico. No meu caso é óptimo. Há mais disponibilidade mental para o trabalho".

Desde os anos 80 que o primeiro andar do edifício dos vetustos Bombeiros Lisbonenses, junto ao Marquês de Pombal, em Lisboa, está entregue à dança contemporânea. Foi o estúdio da Companhia de Dança de Lisboa, fundada por Rui Horta, e desde 1997 é ocupado pela Eira, que tem um programa de residências.

É onde está Maria Ramos, e o seu trio de intérpretes femininas. Uma caixa branca, com um espelho barroco e portadas abertas para o ruído da rua. As três bailarinas estão dispostas como um triângulo - uma à frente, duas atrás, de cada lado - e executam movimentos mecanizados, ao ritmo das palavras que proferem. Três troncos estáticos, como se tivessem criado raízes. Maria Ramos explica que tentou concentrar todo o movimento na região do tronco, o que é uma ideia "quase anti-coreográfica": como é que elas dançam se estão paradas? A inspiração para "Nerves Like Nylon" veio do escultor Antony Gormley e do seu princípio paradoxal de que o estatismo pode expressar movimento. Maria está a tentar traduzir isso num contexto coreográfico, o que também já esteve na base do seu mestrado no ArtEZ Institute of Arts, na Holanda. Em "Nerves Like Nylon" há ainda Beckett, autor do texto verbalizado pelas intérpretes ("Not I"), e os Bauhaus, autores da canção "Nerves", de 1980 (uma espécie de "vampire rock", com sons industriais), que serve de banda sonora e de título à coreografia. No próximo dia 12, haverá uma apresentação informal na Eira, para que programadores e directores artísticos possam ver o espectáculo ao vivo. "Um DVD não chega", diz Maria Ramos. "Nerves Like Nylon" não tem ainda data ou local de estreia. A coreógrafa gostava de apresentá-lo em contexto de "black box" mas também numa galeria. No final deste mês, a residência prossegue na Holanda, só com Maria Ramos, o sonoplasta e o designer de luz do espectáculo, e no final de Outubro a equipa inteira reúne-se pela primeira vez no CAPA, em Faro, durante duas semanas.

É aí que se encontra outro trio, dois pisos acima dos italianos do Teatrofficina Zerogrammi. Era para ser um trio, mas não este trio: Marlene Freitas tinha pensado em três intérpretes masculinos, mas um deles não chegou a aparecer. Criar é resolver problemas. Entrou ela. Um livro de Brecht no chão de madeira luzidia, cadernos de apontamentos, uma garrafa de água e os três à volta. Marlene decidiu coreografar "Baal", obra de juventude de Brecht sobre um poeta bêbedo e fora-da-lei, mas, diz ela, não é assim tão importante saber que peça é. No entanto, os três puseram-se a memorizar o texto, como actores. Não para dizê-lo em cena, mas porque isso irá definir "o ritmo" do espectáculo. "Atribui ao texto a escolha em vez de sermos nós", justifica.

O trio começa a mover-se em círculo dentro de um espaço delimitado - uma baliza feita com fita adesiva preta da parede ao chão do estúdio. É um desfile algo trôpego, como se fossem brinquedos avariados: Luís Guerra robótico, Alex Jenkins esguio, Marlene tribal. Ela quer que a dança seja feita "dentro de uma caixa, à boca de cena, muito perto do público", daí a fita preta. O espectáculo vai chamar-se "A Seriedade dos Animais", expressão retirada de um texto de Brecht sobre "Baal", e vai ser mostrado num ensaio aberto no Estúdio Bomba Suicida, em Lisboa, no próximo dia 12. Ainda não é a estreia: essa é dia 26, na Box Nova do CCB. Em Março, irá a Vanves, nos arredores de Paris. Hoje é o último dia de uma residência de duas semanas no CAPA. "Também gosto de trabalhar em Lisboa, mas é diferente. Aqui o tempo passa mais devagar", diz Marlene. "E temos um tempo de convívio, para além do trabalho. Estávamos a falar disso: passámos 15 dias sempre juntos..."

Quarta-feira, 19 de Agosto - mas vamos fingir que é noite de S. João, porque é nessa noite que tudo acontece em "Menina Júlia", a versão de Strindberg da luta de classes e da guerra dos sexos. O interior do Negócio, sala  que pertence à Zé dos Bois, no Bairro Alto, em Lisboa, é completamente preto, com duas entradas de luz do lado direito, tão branca que quase cega, mas ainda é preciso acender luzes. Menina Júlia (Ana Brandão) põe o telemóvel a carregar antes que tudo comece. O som do eléctrico entra pelas janelas, rivalizando com a voz dos actores.

A estreia de "Menina Júlia" está marcada foi anteontem, o que "pressupunha ensaios em Agosto", explica o encenador, Bruno Bravo, do grupo de teatro Primeiros Sintomas. Há quem goste de ir para fora em residência e ele reconhece vantagens nisso: "Uma vez alugámos uma quinta no Norte. Passámos uma semana a dormir e a comer lá. Permitiu-nos estar muito focados na peça que estávamos a fazer. Quando voltámos, já tínhamos descoberto o tom do espectáculo, foi só ensaiá-lo. A vantagem é que não tens nada que te disperse." Mas Bruno Bravo prefere ensaiar no lugar onde o espectáculo vai ser apresentado, como é o caso agora. "Desde o início, ajustas-te ao espaço. Isso facilita muito." E ainda estamos a falar de uma residência? "É uma espécie de residência dentro do espaço onde vamos apresentar. A ZdB cede-nos o espaço, o equipamento, trata da divulgação. No fundo, é uma coprodução que não se traduz em dinheiro."

4. 4+1

"Smoking is only allowed in the cloisters", diz o aviso à porta de um dos estúdios do Espaço do Tempo, o centro de criação que o coreógrafo Rui Horta fundou num convento de monjas do século XVI em Montemor-o-Novo, num Alentejo a uma hora de Lisboa. Deve ser dos espaços mais bonitos em Portugal para residências artísticas. Um convento meio abandonado, meio restaurado, com vista desalmada sobre a cidade, laranjeiras no pátio, uma capela forrada a azulejo que já esteve entregue à passarada. No estúdio do celeiro, com janelas para um olival à míngua de água e trovoada ao fundo, António Pedro Lopes, que já dançou com Jérôme Bel em "The Show Must Go On", está a voltar a um momento que tinha ficado, como ele diz, "fechado numa gaveta". Uma peça do passado, "Desculpa não ter dito nada antes e não dizer nada agora", apresentada em 2006 no Porto e em Guimarães, mas que estava por concluir.

Na base do projecto está a experiência de perda num espaço familiar, e António diz que, originalmente, criou uma peça "com falta de ar". "Passaram quatro anos e eu não sou a mesma pessoa", explica. Diz que hoje existem nele "uma ironia crónica" e "uma esperança enorme" e  isso faz toda a diferença neste "exercício de reescrita". Continua a ser uma peça de corpos na redoma da sua solidão, mas o autor diz que quer trabalhar "uma temática tão abstracta como é a esperança": as quatro figuras iniciais vão ser perturbadas pela chegada de um novo elemento, "uma espécie de Godot ou D. Sebastião", "quase como se caísse um raio".

O tempo começa a mudar: a trovoada está mais perto, as janelas batem, o vento entra e muda as coisas de lugar. Uma nota de cinco dólares solta-se da agenda de António Pedro Lopes, esvoaça como uma borboleta. António Pedro Lopes está no Espaço do Tempo pela terceira vez, a primeira como criador. Faz das residências artísticas um modo de vida: só este ano, já passou por Paris, pela Re.al, pelo Balleteatro e o Primeiro Andar, no Porto, pelo Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, Los Angeles, e Oaxaca, no México. Diz que as residências são "casas emprestadas". "Não é a tua casa, mas é a tua casa durante duas semanas." Há uma "mistura" de tempos, o do trabalho e o pessoal. "Sobes as escadas e está ali a tua cama, está ali a tua t-shirt limpa. Aqui mistura-se tudo. Há uma intensidade, um condensar de uma experiência que não existe num espaço de trabalho normal."

Se não fossem as residências, talvez não houvesse uma montadora de "Os Sopranos" no estúdio. António conheceu Monica Gillette - CV dividido entre a dança e Hollywood, o que pode impressionar, mas para esta americana o paraíso é o sistema europeu de residências artísticas, inexistente nos EUA - há dois anos em França e desde então têm colaborado juntos em projectos alheios ou próprios. "Desculpa não ter dito nada antes (...)" só deverá estar terminado no próximo ano, mas, num dos últimos sábados de Agosto, António Pedro Lopes decidiu fazer uma apresentação informal do trabalho em progresso no Espaço do Tempo. É uma forma de obter "feedback", ou de ter potenciais programadores a assistir. "Há criadores muito privados, ficam frágeis, não conseguem mostrar o trabalho antes" de estar concluído, diz Rui Horta. "Mas há outros que necessitam do confronto, precisam de ouvir." O coreógrafo chama-lhes "espectáculos no fio da navalha". Podem ter imperfeições, mas "é uma coisa mágica", garante. Em Aveiro, a produtora Ana Rocha dizia-nos: "Tudo o que está dentro do começar e acabar [um espectáculo] é o mais interessante".

Nós, espectadores, andamos a perder alguma coisa.