Crítica

Férias com Freud

Sob o Sol da Toscânia, uma história de iniciação à vida adulta, com medos, descobertas e sentimentos ambivalentes

Corria o mês de Julho e faltava uma semana para o casamento do príncipe Carlos de Inglaterra com Diana Spencer. Lara, que comemorara o seu 17º aniversário havia três meses, estava de partida para Itália.

Iam ser as suas primeiras férias com o pai, que mal conhecia. Lambert Gold habitava sozinho um apartamento numa das áreas mais luxuosas de Londres. Era um historiador de renome e desde que a filha se lembrava, ele ocupava todo o seu tempo com a escrita de uma História de Inglaterra do século XX. Lara vivia com a mãe numa zona bastante modesta, localizada num subúrbio a norte de Londres - depois de ter passado um longo período da infância numa comunidade budista na Escócia - e por vezes o dinheiro não chegava para pagar a conta do telefone. Desta vez, Lambert aceitara, finalmente, um convite da sua velha amiga Caroline (cuja saúde não estava no seu melhor) para passar umas semanas na sua casa na Toscânia.

Com este resumo das páginas iniciais do livro, ajudado ainda pela capa e pelo título, o leitor poderá talvez ser levado a pensar que "Um Verão em Siena" é mais uma das muitas histórias de amores estivais, inócuas, lamechas e meio idiotas, que enchem as livrarias. Não é. O sexto romance da inglesa Esther Freud (n. 1963) - autora que no início da década de 90 a revista Granta incluiu na lista dos Melhores Jovens Romancistas Britânicos - é um mergulho (apesar de não muito profundo) nas emocionantes descobertas da adolescência, nos dolorosos rituais de passagem à idade adulta, no medo de crescer, na natureza da ambivalência do amor filial, nos segredos que os "crescidos" escondem e na sua complexa rede de relações. (Apesar de não haver no livro nenhuma personagem que figure o Complexo de Electra ou que sinta a "inveja do pénis", o seu bisavô Sigmund orgulhar-se-ia dela pela maneira velada e também bastante metafórica como alguns temas - sobretudo o sexo e a morte - são abordados. Esther é filha do pintor Lucien Freud, a quem por várias vezes serviu de modelo.)

O pai de Lara é um austríaco cujos pais enviaram para Inglaterra pouco antes da II Guerra, e que mudou o nome de Wolfgang Goldstein para Lambert Gold. Ela pouco ou nada sabe da vida do pai, e é durante a viagem e a estada italiana que alguns dos mistérios vão sendo aclarados. É curioso o jogo de significados e de significantes com que Esther Freud vai semeando a história. Na mudança de nome do pai, ele transforma o "Wolf" (lobo) em "Lamb" (cordeiro), o que mais tarde se entende, quando Lara descobre a sua apetência por relações com mulheres casadas - o historiador eremita transforma-se em predador. Ou então quase no final do livro, quando Caroline morre, Lara e Kip estão a ter relações sexuais na casa daquela, como se uma geração tivesse que morrer para dar o lugar à seguinte. Mas onde Esther Freud se mostra mesmo freudiana, é na descrição de um carreiro, o chamado "caminho de fuga", que liga a propriedade onde Lara passa férias a uma outra da família a que pertence Kip, o rapaz por quem ela se apaixonara: "Parecia uma pedra branca, mas quando se agachou, viu que se tratava de um par de seios, ali isolados, sem um corpo à vista. Os seios estavam maravilhosamente esculpidos (...).

Lara olhou para trás (...) e reparou noutras elevações que tinha julgado serem pedras delimitando o caminho. Fez o trajecto inverso, vagarosamente, inspeccionando cada um dos montículos, mais seios, algumas nádegas e um pénis que teria deixado Miguel Ângelo envergonhado."Ao sexto romance Esther Freud continua (como fez nos anteriores) a explorar os mistérios da adolescência e sobretudo das relações com um pai muitas vezes ausente (ou demitido) e com uma mãe adepta das modas "new age", carregando as histórias de inúmeras referências autobiográficas. Mas o que mais fascina nos livros de Freud, são as descrições sensuais dos vários ambientes, sejam eles em Siena ou em Londres, e ainda a sua capacidade de oferecer diferentes níveis de leitura a histórias que numa primeira abordagem parecem simples. Este romance é um bom exemplo.