Crítica

O silêncio intacto

Um livro imenso. O relato da perseguição dos judeus, que persiste nas memórias de vítimas e carrascos

Há um homem de olhos abertos. Um passado que se mistura com o presente. Memórias apagadas pela doença ou pela necessidade de esconder um crime, o mais inexprimível de todos. Tudo se torna difuso, tudo se confunde, sob a luz forte dos dias, nesse tempo ofuscado pelo sol. Volta-se ao local de cada morte: a solução final. Não é possível esquecer a perseguição: cada tiro, cada rajada de metralhadora, cada nudez enterrada na vala comum, seja nas dunas de Liepaja, seja na ravina de Mizoc, seja na floresta de Rumbula, onde foram assassinados vinte e sete mil e oitocentos judeus do gueto de Riga, a 30 de Novembro e a 8 de Dezembro de 1941. A ordem veio de Himmler. Apenas três pessoas sobreviveram ao massacre.

"O homem não descansa, sobe duna após duna, inclinado numa pressa oscilante. As moscas acompanham-no. // Vai.// Pelo mesmo.// O mesmo.// O mesmo" (pág. 12). O último livro de Rui Nunes (Lisboa, 1947) diz-nos a história de um crime, um imenso crime, que não cessa de repetir-se enquanto a memória dos testemunhos perdurar: a perseguição dos judeus durante a II Guerra Mundial. É por isso um texto que repete as palavras, os nomes, os lugares: é necessário não esquecer, mesmo que os olhos já não vejam. Há um homem que faz uma viagem, regressa a Riga, às inconfessadas lembranças: "merda de cidade, toca de ratazanas, enquanto vai, de quarto em quarto, de sótão em sótão, de cave em cave, a vasculhar: procura um silêncio vivo, no silêncio morto das casas, procura o medo, a ínfima vibração do medo que a sua pele, instrumento sensível tão bem conhece." (pág.15)

Há Andreas, aquele que tinha "a paciência dos torturadores" (pág. 32). E as duas Gretas, mãe e filha, que agora cruzam as suas vidas num asilo para idosos: a filha faz perguntas, "não percebo o que diz, mãe," (assim a negrito), a mãe dá continuidade ao texto, em monólogo interior, porque não é necessária qualquer resposta; o calar, o calar-se, é a única vontade: "quem é esta mulher que está sempre a falar comigo? a chamar-me mãe? as suas palavras entram-me nos ouvidos, são bichos estranhos, tumores, vociferações, tumultos, há uma guerra, uma guerra tão grande na minha cabeça, não aguento este corpo a explodir, é preciso que o dia acabe para eu poder morrer, talvez se fechar os olhos o dia acabe, vou fechar os olhos, mãe, adormeceu?, vou fingir que estou morta, responda-me, não lhe quero responder, há palavras que Deus me foi tirando, uma a uma (...)" (página 18).

A história de um homem, de uma viagem de ida e volta a Riga, um trajecto de encontro às memórias vindas do passado, cruza-se, coincide, com a de Andreas, e a deste com a das duas Gretas. Nomes que se escondem uns dos outros, por culpa, trauma ou medo. Tudo se mistura, em imagens perpétuas, repetidas vezes sem conta, para dizer o terror, aquilo que não se pode esquecer. Os acontecimentos produzem-se a partir de um centro, de uns olhos: "Os olhos de quem?", pergunta-se logo na página 11 - uma das muitas questões que atravessam o texto. O livro toca também o tema da visão, da sua perda, por doença, velhice ou pela decisão de alguém nunca mais voltar a olhar para trás, embora o passado continue sempre a aflorar à retina: "A morte do gesso é a cor dos olhos de Himmler que contaminaram tantos olhos, até os meus. Quando me vejo ao espelho, não são os meus olhos que vejo, mas os de Himmler, uns olhos que começaram a ser os de Himmler, depois de os ter visto pela primeira vez. Ele semeava, semeava-os por tudo o que olhava: outros olhos" (pág. 96).

"Os olhos de quem?". Os olhos de Himmler, que são também os de Andreas. E também os de Viktors Arajs, o "assassino de judeus", os de Herberts Cukurs, "o carniceiro de Riga", encontrado morto, em 1965, na mala de um carro, em Montevideu, os do SS Friedrich Jeckeln, que na capital da Letónia, através de um sistema por si concebido, materializou uma das primeiras experiências de extermínio sistemático dos judeus europeus - o livro "Latvia in World War II", de Valdis O. Lumans é um testemunho essencial para o esclarecimento dos acontecimentos do mais negro período da história desse país báltico.

O livro de Rui Nunes inclui passagens baseadas em documentos que testemunham os crimes perpetrados contra civis durante a II Guerra Mundial. Entre eles pode citar-se o caso de uma fotografia tirada na localidade ucraniana de Ivangorod, na qual se observa um soldado das Einsatzgruppen - grupo paramilitar das SS -, de pé, a apontar a sua carabina à cabeça de uma mulher que, a um metro de distância e de costas para o executor, segura uma criança no seu colo. O escritor descreve uma situação em tudo semelhante a esta: "O dedo indicador, no frio polido do gatilho, tem o tempo todo para disparar. Mas o homem apressa-se. E carrega. O dedo porém resvala pela superfície curva, ele sente-lhe o peso como uma teimosia, e puxa-o ligeiramente para cima, abriga-o na curva suave do metal. A explosão. Ei-lo no interior de uma fúria a expandir-se. A cabeça da mulher inclina-se mais para a frente. E para baixo, enquanto as pernas se dobram. A criança chora. O choro é o silêncio do bosque dos abetos. E a mulher cai de borco. E o choro da criança desaparece sob o corpo estendido. O silêncio intacto" (págs. 89/90).

É um livro imenso, este. Um texto que cruza, por vezes misturando-os, vários tempos, o passado e o presente. Os crimes de Heinrich Himmler - a 4 de Outubro de 1943, o comandante das SS proferiu o discurso de Posen, onde aborda directamente o extermínio dos judeus europeus -, participados por Andreas, que se prolongam na violência contemporânea: " - olha. Olha o gajo, // e o bando volta-se, têm blusões de couro, kispos, botas cardadas, o dedo indicador apontado para ele. E riem." (pág. 73). A narrativa termina num capítulo intitulado "Thalassa Thalassa" ("O mar! o mar!") - segundo o relato de Xenofontes, esta terá sido a interjeição de alegria que se ouviu quando, em 401 A.C., os "dez mil", mercenários gregos contratados por Ciro, o jovem, após a derrota infligida pelo rei persa Artaxerxes II, chegaram a um monte, o Theches, a partir do qual se avistava o Mar Negro, uma geografia onde o exército podia antever uma relativa segurança após as múltiplas peripécias descritas em "Anábase".

Num asilo para idosos situado na Áustria, país onde Rui Nunes vive parte do ano, acabam por se cruzar novamente as vidas de Greta e de Andreas. Ali, junto ao rio Traisen, se cumprirá o destino. Os tempos colidem. O homem acaba por sucumbir. Já não pode fugir, gritar, bater sequer. Os olhos fecham-se e ele cai: "E a velha diz: monte de lixo. E cospe. E, depois, leva as mãos às rodas da cadeira e empurra. Dobrada para a frente, empurra. Com a tenacidade dos sobreviventes" (pág. 116).