Crítica

À escuta do som da escrita

A canção da obra pode surgir como metáfora que responde "à alegoria musical herbertiana"

De entre os universitários que fizeram as suas provas de doutoramento por volta da mais recente (e já longínqua) viragem do século, Gustavo Rubim é, muito provavelmente, um dos mais interessantes ensaístas que em Portugal têm por território essa arte minoritária e, segundo alguns indicadores e informantes, descuidadamente moribunda, da poesia. Interessante, disse, porque inteligente, informado, consciente dos desafios que escolhe e dos procedimentos com que lhes procura responder e imaginativamente rigoroso, ou seja, dotado dessa imaginação ao mesmo tempo produtiva (e não meramente reprodutiva) e rigorosa, necessária a quem se deseja um leitor e um ensaísta, mais do que um crítico.

Este seu livro exemplifica as qualidades do seu autor, desde logo na sua organização interna, que o prólogo e o texto da contracapa (de clara responsabilidade autoral) apresentam e relacionam com a sua concepção da leitura e do ensaísmo, que pratica, como "arte de sublinhar". Esse é, aliás, o título do seu anterior livro de ensaios, "A Arte de Sublinhar" (2003), e que neste se explicita, citando aquele: "Modo de ler dedicado a 'mexer' nos textos e a 'interferir' no ilusório sossego das linhas impressas." O livro organiza-se, então, "em dois conjuntos de quatro ensaios", numa ordem que se pretende não ser arbitrária. Em primeiro lugar, "leituras, quatro", depois, "Duas vezes secundário". O primeiro título, ao inverter a ordem normalizada das palavras, destaca ou sublinha o que de fundamental está em jogo: trata-se de leituras. O segundo joga com o epíteto "secundário" em expressões como "bibliografia secundária", indicando que são textos críticos, procedimentos e protocolos seus, que são aqui o seu objecto directo.

Nas "leituras", sublinhando um título, relacionando-o com outros e com os textos que intitulam, mexendo ou repondo em movimento uma figura da poesia num poema, Rubim procura escutar "a canção da obra", que dará o título ao livro, mas que enquanto título da primeira das quatro leituras diz a tentativa de ler o título de Herberto Helder (HH) "ou o poema contínuo" na sua relação com a obra completa.

Depois, interroga-se sobre "o animal poético" (sobre a figura do poema como organismo, sobre o animal como o recalcado do humano), na obra de Eugénio de Andrade e perturba a recepção dessa obra sob o signo da claridade solar, do angelismo e da pureza da linguagem. Lerá a seguir um poema de Ruy Belo, mostrando como ler é "reler" (ler não apenas outra vez, mas ler de outra maneira) através do sublinhar dos valores de sentido da correlação entre um homem singular e a morte que lhe está destinada. Finalmente, escutará as condições de possibilidade e as consequências (efeitos) de uma "poética do fonógrafo" que, num soneto de Camilo Pessanha, lhe permitem questionar a precedência da "phoné", ou da voz sobre a escrita ou a grafia.

O segundo conjunto de textos, "Fantasmas do Livro" e "O Livro Incerto", são ensaios que retomam o trabalho de Rubim à procura de Camilo Pessanha e do seu "livro", o que de várias formas o tem posto em movimento. "Áurea Crítica" lê "Século de Ouro", antologia da poesia portuguesa do séc. XX. "Elogio do Rodapé" é um exemplo concentrado do que pode ser o humor dum ensaísta.

Gustavo Rubim tem, de várias formas, insistido na noção de escrita e no modo como na modernidade ela vem tornar obsoletas, subordinar e desconstruir certas metáforas da voz. A "Canção da Obra" pareceria ser uma dessas metáforas e, no quadro da poesia de HH, transporta-nos involuntariamente, segundo o ensaísta, a "Ofício Cantante" (1967). Só que Rubim "mexe" na sua genealogia e provoca tais "interferências" que impedem as rotinas da leitura. A canção da obra pode assim surgir como metáfora que responde "à alegoria musical herbertiana", de uma música que vem por exemplo do jazz, em que "a voz se vê como instrumento e, por corolário, há canções onde nenhuma voz canta". O "Oficio Cantante" é sempre já escrita "porque, 'música' ou 'poema', a obra 'escreve-se'". Nova "interferência" e Rubim associa a afirmação "Não há prosa", de HH, a Mallarmé, onde o poema se podia figurar como "música" ou "sinfonia" em virtude da "transposição para o Livro", "da instrumentação" e "do conjunto das relações existentes em tudo". Entretanto, Rubim é claro: "Chamamos, porém, canção da obra a outra coisa diferente do 'ofício cantante'. A canção da obra traduz o efeito da obra como 'ou o poema contínuo', no ponto em que a obra, por sua vez, passa a traduzir o sentido do nome de HH exactamente no mesmo lance em que se designa a si mesma (18). [...] não só a assinatura assina a obra como a obra assina a assinatura" (19).

E a leitura não sossega, passará ainda pela interrogação daquilo que HH designa em "Photomaton & Vox", "impreterível 'razão' de autor" e que conduzirá Rubim ao "verídico" herbertiano. Ao chegar aí, encontra uma questão que é dupla: por um lado, a forma desafiadora como na obra de HH se afirma uma autoridade que se furta "a qualquer juízo crítico", por outro, a condição de "réplica" (resposta, fala de teatro, repetição) da leitura. Apanhado pela vibração expansiva da obra, tornado seu replicante, o leitor é então "um cúmplice ... adequado" (HH). E o último parágrafo do ensaio vale por uma gnoseologia e uma ética da leitura: "A diferença é que como leitor, e por força da companhia de fantasmas que me dão a ideia de que nunca na verdade estive só, me estaria sempre vedada, ainda que o dissesse pela primeira vez, a possibilidade de dizer isso com a certeza absoluta de que 'isso' não fosse apenas uma paráfrase" (32).

Quando este ensaio foi escrito, coexistiam "Herberto Helder Ou o poema contínuo. Súmula" (2003), que era uma espécie de antologia e Herberto Helder, "Ou o Poema Contínuo" (2004) que era o livro que reunia a obra poética do autor; que se chamara antes "Poesia Toda" e, antes ainda, "Ofício Cantante" (1967). Não é das coisas menores que se podem dizer da "Canção da Obra" (2006), o dizer que o seu percurso sinuoso e obstinado nos prepara para entendermos a "impreterível razão de autor" que se exprime quando Herberto Helder designa a sua "poesia completa", "Ofício cantante" (2009).