Crítica

Pata Lenta

Pressente-se a tradição dos fingerpickers americanos, naquela forma de desencantar mantras das poeiras da folk

Impressiona a dinâmica desta música. A forma como se desenvolve organicamente, expandindo-se e contraindo-se ao sabor do dedilhar de Norberto Lobo. Cada tema de "Pata Lenta" é assim.


Começa como a própria capa do disco, outonal: um prenúncio de tempestade visto de lugar seguro - o dedilhar é lento, os harmónicos são lampejos de luminosidade. Quatro minutos depois, tudo mudou. A folk já ganhou ritmo e delicadeza, a folk há-de tornar-se coisa telúrica que baila em movimento sincopado, há-de ganhar sol em espaço aberto antes de se recolher novamente.

Na verdade, de "Mudar de Bina" para "Pata Lenta", pouco mudou. Uma guitarra acústica e nada mais. Mas porque haveria de mudar se, na realidade, nada se repete? Essa, de resto, é a grande virtude de Norberto Lobo. A capacidade de convocar os mesmos sentimentos, de mostrar o mesmo carinho pela ideia de melodia; a capacidade de fazer tudo isso sem que nos sintamos a repetir os mesmos passos. Onde antes havia uma versão de Paredes, "Mudar de vida", agora há "Unravel", de Björk. Onde antes havia a "Cantiga da ceifa", agora há a nostalgia crepuscular de "Sra do Monte".

Há momentos, como "Brisa biónica", em que se pressente a tradição dos fingerpickers americanos, naquela forma de desencantar mantras das poeiras da folk. Há momentos em que uma melodia, por vezes curta, de segundos, nos diz que quem fez esta música partilha connosco algo de imensamente familiar (a magnífica "Ayrton Senna"). Mas, depois, chegamos a algo como "Samantra" e não, não é nada disso. É música cheia, música de um navegar majestoso e, nela, cabem Índias e Américas e Portugais. Nela, cabe Norberto Lobo inteiro. Um Norberto que já conhecemos e que não mudou.

Mas, pelo que ouvimos em "Pata Lenta", ainda tem muito a dizer que não ouvimos antes.

"Ayrton Senna", Norberto Lobo