Soares Franco: “O Sporting está tecnicamente falido”

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"A SAD tem até dia 30 de Junho para fechar as contas e, se não vender jogadores, não apresentará resultados positivos" Nuno Ferreira Santos (Arquivo)
Por que optou por não convocar uma assembleia geral para votar o plano de reestruturação financeira antes das eleições?

Por duas razões fundamentais. Primeiro: já não tinha nem força, nem resistência para ter outra AG com dois mil sócios, onde iriam haver muitos a querer intervir, porque a minoria não queria aprovar o plano de reestruturação. Iria ser uma AG que iria demorar oito, nove ou dez horas, uma AG de resistência. E eu já não tinha essa resistência e não estava disposto a ter de enfretar uma AG dessas, depois das inúmeras explicações que dei aos sportinguistas sobre este projecto. Não haveria ninguém que fosse a essa AG que já não soubesse qual era o plano, que não tivesse devidamente esclarecido e até já explanado qual era a sua posição, tanto em AG anteriores quer na comunicação social. Por isso, deveria ser uma AG só para votar, mas não era isso que iria acontecer. Acrescenta-se a este ponto o facto de estarmos a pouco mais de um mês do acto eleitoral, eu tive de chutar a bola para os próximos órgãos sociais, que irão analisar e ver se este plano é bom ou não ou se terá de ser alterado.


Uma das críticas a este plano de reestruturação financeira refere-se ao facto de o mesmo ter ido a votos em AG, sem antes a direcção apresentar as contas consolidadas do Grupo Sporting e que isso tornava impossível um voto em consciência…

Todos os candidatos ao próximo acto eleitoral têm as contas consolidadas dos últimos anos. Fui eu quem as entregou.


Mas por que não foram apresentadas antes da votação do plano de reestruturação?

Os estatutos do clube não obrigam a que se apresente contas consolidadas. Já foram apresentados três ou quatro planos de reestruturação sem terem sido apresentadas contas consolidadas, o último dos quais em 2005.


Mas isso é compreensível?

Não me pergunte porquê. Mas eu apresentei as contas consolidadas em Junho do ano passado e expliquei-as. Agora, eu tenho o dever, como presidente, de cumprir com os estatutos do Sporting.


Mas eles não dizem que não pode apresentar as contas consolidadas.

Dizem mais. Dizem aquilo que temos de apresentar e é o que temos de apresentar que temos de respeitar. O Sporting, ao longo de cinco anos, e até eu chegar nunca mostrou a fotografia da sua realidade…


Surpreendeu-o assim tanto a realidade do clube quando assumiu a presidência?

Não me surpreendeu a mim, mas as pessoas ficaram surpreendidas com as notícias que eu lhes dei. Isso prende-se com o facto de durante cinco anos se ter passado uma mensagem que o Sporting estava equilibrado.


Isso chocou muito os sócios que tinham uma ideia contrária…

Mas, pelo menos, ficaram a saber a verdade, nomeadamente que o endividamento bancário era de 280 milhões de euros em 2005. E este era o passivo que interessava. Esta história de dizer que o passivo hoje em dia é de 340 milhões de euros é fácil. Deste valor tem de abater-se 75 milhões, referentes a proveitos diferidos, que são o direito de superfície do estádio, os Lugares de Leão [lugar especial nas bancadas] ou os camarotes dos fundadores. São todas estas receitas que foram antecipadas para a construção do novo estádio que agora, todos os anos, têm de ser contabilizadas como proveitos. Não é uma dívida porque ninguém a tem de pagar, é um proveito diferido que tem de estar registado no passivo, porque foi antecipado. Assim, dos 340 já estamos aproximadamente nos 270 milhões de euros. E desta verba, há coisas que são normais, como os prémios de assinatura dos jogadores que temos de pagar e que estão lá todos registados ou os prémios dos jogadores, por exemplo. É preciso desmistificar estas coisas e quem quiser encarar e analisar isto de uma forma séria, chega à conclusão que o Sporting tem, ou tinha em Junho do ano passado, 235 milhões de euros de dívida bancária, tendo sido abatida uma parte entretanto, porque já recebemos uma parte das verbas previstas da MDC [empresa que comprou os terrenos do antigo estádio]. Temos depois uma dívida a fornecedores: mas como nós vendemos, por ano, 60 milhões de euros.


Não teme que daqui a alguns meses seja feita uma radiografia negativa ao Sporting pelos novos responsáveis como aquela que fez quando assumiu o mandato?

Não tenho problema absolutamente nenhum. Uma coisa eu garanto: eu vou entregar ao meu sucessor um Sporting muito melhor do que aquele que herdei do meu antecessor. Sobre isso não tenho dúvida absolutamente nenhuma.


Mas o seu projecto de reestruturação financeira não passou e o Sporting, como dizia há algum tempo, continua a ser ingovernável com o actual endividamento…

Não existe insustentabilidade. O Sporting hoje em dia reduziu drástica e significativamente os seus custos, aumentou substancialmente as suas receitas, quer as provenientes do êxito desportivo, quer as provenientes das receitas comerciais. É, portanto, um clube governável e pode ser sustentável. Agora, ainda tem um endividamento grande e é por isso que este projecto de reestruturação queria abater 55 milhões de euros a esse passivo. A grande virtude das tais obrigações que são convertíveis [as VMOCS, previstas no plano de reestruturação financeira] era abater esse valor, sem ser preciso pagar essa quantia. E o Sporting precisa de tudo menos pagar esses 55 milhões.


Essas VMOCS seriam depois convertidas em acções da SAD [Sociedade Anónima Desportiva]. E como permaneceria o clube como accionista maioritário?

Está tudo explicado no projecto de reestruturação financeira.


Acha mesmo importante o Sporting ter a maioria das acções da SAD?

Não considero nada importante, até porque com 40 por cento de acções de uma empresa cotada em bolsa tem-se sempre o domínio completo de uma assembleia geral e não conheço nenhum exemplo contrário. Além disso, através das acções da Classe A, o Sporting tem direito de veto sobre temas fundamentais. O que é importante é o futebol ser competitivo, porque o êxito desportivo garante a valorização das acções neste tipo de negócio.


Existe a ideia de que o Sporting foi governado nos últimos 13 anos por uma mesma nomenclatura de notáveis. Elementos com larga experiência empresarial que prometiam revolucionar a gestão clubística e ser um exemplo para futebol português. O que se passou?

Primeiro: o projecto do dr. José Roquette foi um projecto extraordinariamente inovador e teve obviamente algum insucesso porque na altura em que foi implementado estava em voga o fenómeno da Nova Economia, que acabou por falhar e falir. O projecto para o clube ficou condicionado ao êxito na Nova Economia e teve de ser revisto. Isso também fez com que o Sporting, à luz desse projecto, tenha feito substanciais maus investimentos na área do desporto, nomeadamente na contratação de jogadores, o que custou muito dinheiro ao Sporting. Criou-se assim passivo, que não foi devidamente rentabilizado, porque demorou tempo para se concretizar esta aposta na formação. A ideia e a génese do projecto do dr. Roquette era sólida e estava muito bem concebida.


Foi então boa ideia contrair uma dívida bancária tão elevada para construir um novo estádio?

Sabemos explicar muito bem a dívida. Até 2000, o Sporting tinha perdido 70 milhões de euros; de 2000 a 2005 perdeu outros 70 milhões e o estádio custou 70 milhões [Soares Franco colocou estes números sob reserva, por estar a recorrer apenas à memória]. Aqui estão contabilizados 210 milhões. Mas em tempos anteriores ao dr. Roquette, até 2000, já tinha uma dívida de 70 milhões de euros. Hoje em dia, o passivo estável, que não tem a ver com os financiamentos de curto prazo, está situado nos 210 ou 220 milhões de euros. Com a amortização da verba que a Câmara Municipal de Lisboa deve, segundo foi decidido pelo tribunal arbitral, deverá ficar entre os 190 e os 200 milhões, fora alguns financiamentos pontuais de tesouraria que o clube poderá necessitar ao longo do ano. Mas a conta de exploração do Sporting ainda só é rentável se, de dois em dois anos, no mínimo, for vendido um jogador.


Quer dizer que no final desta temporada terá de ser vendido, pelo menos, o passe um jogador?

Esta temporada o Sporting deve vender activos. A SAD tem até dia 30 de Junho para fechar as suas contas e, se não vender jogadores, não apresentará resultados positivos.


Já conhece o projecto financeiro alternativo ao seu apresentado pela candidatura de Paulo Pereira Cristóvão?

Não precisei de o estudar muito, porque não consigo perceber três coisas. O projecto assenta num primeiro pilar, segundo o qual o Sporting está tecnicamente falido. Admitamos que sim.


O Sporting está tecnicamente falido?

Está. As contas consolidadas do Sporting revelam que tem capitais próprios negativos e, portanto, está tecnicamente falido.


É verdade que o clube perde, em média, 17 milhões de euros por ano?

Isso também não. Não vale a pena exagerar. Se fizerem a média dos últimos três anos, não se chega, nem de perto nem de longe, a esse valor. Neste período, o Sporting não deve ter perdido em consolidado, sem vender jogadores no último ano (se o tivesse feito, teria apresentado resultados positivos), deve ter apresentado um défice médio de três ou quatro milhões de euros. No ano passado perdeu dez milhões, no anterior tinha ganho seis [ano da transferência de Nani para o Manchester United, por 25 milhões de euros] e antes terá perdido outros dez milhões. É fazer a conta e dividir por três. Mas, se for ver os últimos dez anos, se calhar dá. Chegámos a perder 31, 30 e 29 milhões de euros, mas agora não perdemos montantes semelhantes e a situação reequilibrou-se. Mas, partamos do princípio de que estamos em falência técnica, não temos capacidade para fazer crescer o endividamento, antes pelo contrário. Sendo assim, o plano alternativo é ir fazer um pavilhão [como propõe a candidatura de Paulo Pereira Cristóvão] e onde está o financiamento para tal.


Existe a possibilidade de o clube vir a obter mais-valias com a valorização dos terrenos da Academia em Alcochete, com a construção do novo aeroporto de Lisboa?

É falacioso dizer que a Academia vale mais. Ainda ninguém sabe se o PDM [Plano Director Municipal] irá ser alterado em relação àquela zona. Hoje em dia, todos aqueles terrenos que estão à volta do aeroporto estão protegidos para impedir a especulação imobiliária. Não se pode sustentar um projecto financeiro no “poderá”. Não temos garantia nenhuma que os terrenos da Academia possam ser valorizados e quando. O aeroporto é para 2017 e eles [a candidatura de Paulo Pereira Cristóvão] querem construir o pavilhão no próximo ano e ainda querem rebaixar o estádio.