Crítica

Baile pop reclamando o presente

Uma convicção e uma urgência impossíveis de ignorar

Quanda a banda canta pela primeira vez, fá-lo para dizer isto: "Ensina o canto, o canto / Intocável e antigo / Arrancado à terra, à maternidade." Ou seja, aqui não há espaço para a inocência. Neste sentido: todo este "Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco", começando pelo título e pela capa, foi pensado e criado como um manifesto - a primeira proclamação. Isso foi o que os Golpes elaboraram, com um atentíssimo cuidado pop que se revela nos pormenores.

A primeira música, "Cruz vermelha", é um instrumental - sobem as cortinas, arranca o baile. A "trilogia" "Tarde livre" surge no alinhamento como polaroids da adolescência, que dão corpos ao manifesto e ilustram o quadro iconográfico. Dançamos e ouvimos, canção a canção, até à despedida - que se chama "Sobre fundo branco" e é novo instrumental (descem as cortinas, passa o genérico final).

Obviamente que esta ambição podia facilmente soçobrar sob o seu próprio peso. Acontece que Os Golpes têm canções que dão forma a tudo isto e gravaram-nas com uma convicção e uma urgência impossíveis de ignorar.

Saltitam entre largos de vila e ruas repletas de montras na cidade e, no movimento, afirmam pertencer a uma e à outra. Mostram inegável apreço pela pop portuguesa de 1980 (Heróis do Mar à cabeça), mas não pretendem recriar um som, antes recuperar uma atitude criativa, uma certa sensação de euforia. De resto, apontam para várias coordenadas: a precisão new-wave da secção rítmica, a guitarra, ora entregue a bailados "Verlainescos" ou desenhando linhas "Strokeanas", ora conduzindo a tumulto rock'n'roll devidamente controlado.

Isso e a noção, algures em "Tarde livre, parte III", que neste mundo também se ouvem os Vampire Weekend, e a certeza, pela luminosidade que irradia d' "O arraial", que algo do Verão eterno dos escoceses Orange Juice (os de "You Can't Hide Your Love Forever") passou para os Golpes de Lisboa. Tais referências, contudo, atestam apenas a melomania da banda.

Quando eles dizem, na supracitada (e magnífica) "O arraial", "isto é folclore / disfarçado de rock'n'roll", balançamos com o ritmo gingão e não há forma de os desmentir. Quando a guitarra ataca a "Marcha dos Golpes", e quando, depois, a voz de Manuel Fúria se faz ouvir, lançada em tom confiante e congregador, não perdemos tempo a pensar em genealogias do rock.

Os Golpes podem querer fazer de "Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco" um manifesto tremendamente ambicioso - basicamente, uma refundação da pop portuguesa em português -, mas sabem que ele seria palavra vazia sem esta capacidade de fazer música que é festa popular e história "indie", que é um baile pop, tremendamente lúdico, reclamando o presente. São as canções, agora, já (do "manifesto" logo se verá o que trará o futuro).