Acções do movimento no 25 de Abril

Fundadores da FLAMA asseguram que o ressuscitar do movimento separatista só interessa a Jardim

Alberto João Jardim discorda da investigação que está a ser conduzida pela PJ sobre a colocação de bandeiras flamistas na madrugada de 25 de Abril passado em várias zonas da Madeira
Foto
Alberto João Jardim discorda da investigação que está a ser conduzida pela PJ sobre a colocação de bandeiras flamistas na madrugada de 25 de Abril passado em várias zonas da Madeira Pedro Cunha (arquivo)

Passados mais de 30 anos sobre a extinção da denominada Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira (Flama), dois sobreviventes do directório fundador saíram da clandestinidade para se demarcarem das recentes actividades atribuídas a este movimento separatista, nunca julgado pela autoria de mais de 70 atentados bombistas perpetrados entre 1975 e 1978 no arquipélago.

“A Flama desfez-se. Hoje é um conjunto de cadáveres que jaz no Cemitério de São Martinho”, sintetiza João Costa Miranda, um dos três sobreviventes do directório constituído por 16 membros. “Ressuscitar a Flama nesta altura é uma palhaçada, um disparate sem justificação possível. A frente nasceu num contexto, quando Portugal caminhava para uma ditadura comunista, mas agora não tem razão de ser, está extinta. Hoje levantar o espantalho da independência só interessa a quem quer colher dividendos da guerra com Lisboa”, diz Miranda. Mais directo foi Daniel Drumond, outro membro do directório, ao apontar o dedo à Quinta Vigia, sede da presidência do Governo regional. O terceiro elemento ainda vivo, que é fundador do movimento, está no estrangeiro.

Alberto João Jardim discorda da investigação que está a ser conduzida pela PJ sobre a colocação de bandeiras flamistas na madrugada de 25 de Abril passado em várias zonas da Madeira. Com esta acção, “para já de forma pacífica”, era atribuído ao movimento o propósito de reiniciar “a sua luta”. “Acho um atentado às liberdades, direitos e garantias andar a perseguir seja quem for por ideias políticas”, justificou Jardim. “Nós estamos num país livre e as pessoas são livres de se manifestarem”, acrescentou o go-

vernante e membro do Conselho de Estado que tem usado a ameaça independentista em momentos de maior aflição financeira da região ou quando negoceia reforços financeiros com Lisboa.

Jardim diz ter “achado piada” na ac-

ção da semana passada atribuída à Fla-

ma, que incluiu o hastear da bandeira separatista no mastro do Palácio de São Lourenço. É a segunda vez que tal bandeira é hasteada neste monumento nacional, sede da representação da República, mas cuja posse é reivindicada pelo Governo regional.

Na madrugada de 20 de Julho de 1975, em vésperas de uma grande manifestação do PPD que abriu uma cruzada contra o “colonialismo de Lisboa”, o Funchal também amanheceu ornamentado com bandeiras do movimento a que foi atribuída a autoria de mais de 70 atentados bombistas con-

tra bens do Estado (avião da Força Aérea, comando militar, Emissora Nacional e PJ) e viaturas de madeirenses conotadas com a esquerda. Os bombistas, disse-o Jardim no Parlamento da Madeira, “não são dignos de castigo, mas de recompensa”, uma vez que são “defensores da pátria e da democracia”.

Em Fevereiro do ano passado, quando o Presidente da República visitou a Madeira, os sociais-democratas exigiram que a bandeira da região fosse hasteada no Palácio de São Lourenço.

Ao colocar agora a bandeira no palácio, os seus autores declararam que não querem “pertencer a um país governado por um corrupto que deveria estar preso”. Miranda, que se assumiu como antigo responsável editorial do movimento, negou também qualquer ligação da Flama ao comunicado divulgado com o seu símbolo na semana passada. “Não tem qualquer semelhança com os nossos comunicados, nem no estilo, nem na ortografia e gramática. É um plágio tosco, rude e grosseiro”, frisou.

Acusado pelo líder regional do PS de ter responsabilidade na Fla-ma, Jardim elegeu Sócrates como “o maior inimigo da Madeira desde o 25 de Abril” e único alvo a abater nas próximas eleições. E admitiu relançar, depois do próximo ciclo eleitoral, a ideia da independência a um ano do fim do mandato que, mais uma vez, promete ser o último. “Vamos aguentar até 2010” e “não terei qualquer receio em defendê-la [a independência] se vir” que “o Estado central autoritário abusa de poder sobre o povo madeirense”.