Ciclismo

Joaquim Agostinho: há 25 anos morreu o "emigrante da bicicleta"

A maior lenda do ciclismo nacional morreu há 25 anos
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A maior lenda do ciclismo nacional morreu há 25 anos DR

Duas rodas bastaram ao humilde lavrador Joaquim Francisco Agostinho, natural de Brejenjas, Torres Vedras, para ser imortalizado num busto, em plena subida ao cume do Alpe d'Huez, França, após uma carreira de 17 anos de "emigrante da bicicleta".

A partida fulgurante para a profissão de corredor deu-se com tardios 25 anos, já depois do serviço militar cumprido na então Lourenço Marques, mas qualquer obstáculo parecia transponível ao quarto de seis irmãos de uma família de parcos recursos.

"Era um obstinado. Ele dizia-se mesmo um emigrante do Desporto. Ia para o estrangeiro fazer o seu trabalho, pelo qual era pago. Media a quantia que ia ganhar e era suficiente para manter a sua família, que ele preservava e defendia. Nunca teve aquela ânsia furiosa da vitória", definiu à Agência Lusa o presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo, Artur Lopes.

O dirigente, responsável pelo ciclismo do Sporting, foi um dos médicos que recebeu Agostinho em Lisboa, quando "o melhor corredor português de todos os tempos" sofreu a queda fatal, há 25 anos.

O nome "Quim Cambalhotas", devido aos tombos, deixou tudo espantado

Na primeira época como profissional, o "Quim Cambalhotas", como era tratado devido aos constantes tombos, espantou vários pelotões, com o segundo lugar na Volta a Portugal1968, o 16.º nos Mundiais de Imola e a vitória na Volta a São Paulo, cativando o francês e "patrão" de equipas Jean de Gribaldy, que contratou "Tinô".

Em 13 participações na "Grande Boucle", Agostinho alcançou oito classificações entre os 10 primeiros, incluindo dois terceiros lugares e cinco vitórias em etapas, nomeadamente no emblemático Alpe d'Huez, a 17.ª tirada da corrida em 1979.

Na 14ª das "empinadas" curvas até ao topo daquela montanha alpina, uma das metas mais árduas de alcançar da Volta a França, figura desde 2006 uma escultura em bronze do português, executada por Salter Cid, enquanto a 17.ª das 21 viragens ao longo dos 14 quilómetros de subida foi baptizada com o seu nome.

"Tivesse nascido em França e tinha ganho mais que um Tour"

"Se tivesse nascido em França, tinha ganho mais que um 'Tour'. Era um diamante em bruto. Não teve oportunidades de ter escola. O que aprendeu foi na estrada e sofreu várias quedas por falhas técnicas", analisou Alves Barbosa, que participou em quatro "Tours" e venceu a Volta a Portugal em 1951, 1956 e 1958, reconhecendo tratar-se do "ciclista mais importante de Portugal".

Após estrear-se nas estradas gaulesas, em 1969, Agostinho venceu a primeira "Portuguesa", mas seria a sua primeira de duas desclassificações por doping, o mesmo sucedendo em 1973, devido à "maldita" ritalina, um estimulante tolerado em França, num tempo em que os controlos antidoping ainda não eram padronizados.

As vitórias legítimas na Volta a Portugal aconteceram em 1970, 1971 e 1972, sempre com a camisola do Sporting e treinador Manuel Graça, que desvalorizou o recurso a substâncias em declarações à Lusa: "Ele tinha era que tomar coisas para andar menos".

"Não era ele que carregava nos pedais, eram os pedais que o empurravam", contou Graça, referindo-se à energia de Agostinho e lembrando outra piada habitual: "As curvas à Agostinho, feitas a direito, ribanceira abaixo", devido à falta de técnica inicial.

Em 1972, Agostinho sofreu uma grave queda e uma primeira fractura do crânio em plena Volta a Espanha, cujo segundo lugar de 1974, a escassos 11 segundos do espanhol Fuente, é o seu melhor resultado em cinco presenças.

Aguadeiro de Ocaña, ajudou-o a ganhar meio Tour em 1973

Outro corredor espanhol, Luis Ocaña, atrasado para o funeral de Agostinho, em 1984, recorreu a uma das bicicletas do seu antigo "aguadeiro" porque não podia faltar à última homenagem ao homem que lhe deu "metade do Tour ganho em 1973", com a camisola patrocinada por uma conhecida marca de esferográficas e isqueiros.

Apesar de o amarelo ser a cor dos triunfos na modalidade, Agostinho era cristalino e rejeitava a "escrita fina". Foi assim que, em 1979, já com 36 anos e depois de outro terrível acidente, conquistou Huez, deixando o francês Bernard Hinault e o holandês Joe Zoetmelk a mais de três minutos de distância.

O conhecido director-desportivo francês Raphael Geminiani comentou: "Pegas no Agostinho e mandas dar-lhe uma demão de tinta pela carroçaria, que o motor está como novo".

A idade e Ana Maria, mulher e mãe dos dois filhos (Miguel e Ana Sofia) de Agostinho, forçaram-no a uma retirada em 1982, para pôr fim às perigosas quedas e Agostinho pôde gozar finalmente o autêntico "jardim zoológico" construído na vivenda de Ponte do Rol.

Porém, algumas dificuldades financeiras recolocaram-no na estrada, onde, com 41 anos, caiu uma última vez, por causa de um cão, com a camisola amarela da Volta ao Algarve, na manhã de 30 de Abril de 1984, vindo a morrer 10 dias depois, em Lisboa.

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