Cavaco duro como nunca para Governo e empresários

Foto
Cavaco Silva não poupou nas palavras Paulo Pimenta (arquivo)

Na abertura do 4.º Congresso da Associação Cristã de Empresários e Gestores, o chefe de Estado apontou directamente o dedo ao Governo avisando que “seria um erro muito grave, verdadeiramente intolerável” que, “na ânsia de obter estatísticas económicas mais favoráveis e ocultar a realidade, se optasse por estratégias de combate à crise que ajudassem a perpetuar os desequilíbrios sociais já existentes”.

Perante uma plateia repleta de empresário e em que estava também presente o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, Cavaco Silva, tendo sempre presente a actual crise económica e financeira, afirmou também que “faltou vontade política e económica para questionar o caminho que estava a ser seguido e que há muito suscitava reservas”.

Num longo discurso, o Presidente da República referiu ainda que “num cenário de dificuldades, e sob a pressão da necessidade urgente de agir, as decisões nem sempre são ponderadas devidamente, acabando por abrir espaço para o desperdício de recursos públicos” ou “para a concentração desses recursos nas mãos de uns poucos, precisamente aqueles que detêm já maior influência junto dos decisores”.

“Este é um período em que se pede ao Estado um maior activismo”, acrescentou, lembrando que “esta não é altura para intervencionismos populistas” ou “voluntarismos sem sentido”. “Os recursos do país são escassos e é muito o que há ainda por fazer. É preciso garantir o máximo de transparência na utilização dos dinheiros públicos. Desde logo, por uma questão de respeito para com os contribuintes”, referiu.

Já falando directamente para os empresários, Cavaco Silva disse que “é hoje seguro afirmar que, na génese da crise financeira e económica que o mundo enfrenta, muito pesaram a violação de normas éticas” e “a adopção de comportamentos de risco cujo impacto sobre o sistema financeiro e o bem-estar das populações não foi devidamente ponderado”.

"Ambiente de exuberância objectivamente desligado da realidade"

“Para além da imprudência e, mesmo, da incompetência reveladas na avaliação e tomada de riscos, muitos foram os gestores financeiros que, simplesmente, perderam o sentido da decência, como afirmou recentemente o Presidente da República da Alemanha”, acrescentou Cavaco Silva. Para o chefe de Estado, “criou-se um ambiente de exuberância objectivamente desligado da realidade e incapaz de antecipar os custos sociais de um eventual colapso do sistema”. E lembrou que “por detrás das estatísticas e dos gráficos que identificam a crise estão trabalhadores que perderam o emprego” e “investidores que perderam as poupanças de uma vida e cujos projectos e ambições foram destruídos num ápice”.

Para o Presidente, “muitos dos agentes que beneficiaram do status quo – e que tiveram um papel activo nesta crise financeira – continuam a ser capazes de condicionar as políticas públicas, quer pela sua dimensão económica quer pela sua proximidade ao poder político.”

O Presidente salientou que é “preciso ter coragem de, em vários domínios, começar de novo.” “É urgente que os decisores reajustem as prioridades e corrijam as injustiças e os erros que a crise desmascarou”; “é urgente colocar no topo da agenda, ao lado da liberdade, a responsabilidade, a solidariedade e a coesão sociais”. E, como já fez outras ocasiões, alertou para a importância “que a verdade, a transparência e os princípios éticos têm no bom funcionamento de uma economia e no desenvolvimento de uma sociedade”.

"Governar para os números"

Cavaco Silva afirma ainda que “não se trata de governar para os números, nem para as estatísticas”. “Estão em causa problemas concretos de natureza social, que geram situações de desespero e afectam com especial gravidade os mais desprotegidos. Problemas cuja resolução é uma responsabilidade política e, mais do que isso, uma condição necessária para a estabilidade da nossa democracia”.

Para Cavaco Silva “não se pode desperdiçar recursos em respostas que mais não fazem do que deixar tudo na mesma ou tornar ainda mais apertado o caminho do nosso desenvolvimento futuro”. “É crucial que a intervenção pública seja ponderada e rigorosa, visando claramente a resolução de problemas concretos e a preparação dos desafios futuros.”

Considerou ainda que “seria inaceitável que as respostas à crise levassem ao agravamento dos problemas estruturais que Portugal enfrenta”. E disse quais: “Excessivo endividamento externo, finanças públicas deficitárias, baixa produtividade, debilidade face à concorrência externa e divergência persistente face à média europeia.”

“O pior que poderia acontecer”, prosseguiu, “era a crise acentuar a tendência, bem nociva para o país, de algumas empresas procurarem a protecção ou o favor do Estado para a realização dos seus negócios.”

“Empresários e gestores submissos em relação ao poder político não são, geralmente, empresários e gestores com fibra competitiva e com espírito inovador. Preferem acantonar-se em áreas de negócio protegidas da concorrência, com resultado garantido”, referiu. Cavaco diz ter confiança nos empresários, mas deixou um aviso quanto ao futuro – “Não nos enganemos a nós próprios: os meses que aí vêm serão difíceis e o ano de 2010 não será fácil. Não ignoro que Portugal pode vir a enfrentar um período de contracção ou estagnação económica e de aumento do desemprego mais prolongado do que muitos pensariam no início da crise. Esta é uma possibilidade para a qual devemos estar preparados e que exige uma atenção por parte dos empresários, gestores e responsáveis públicos que deve ir muito além do mero desempenho empresarial ou pessoal”.