Crítica

O apuro da forma

Este disco respira a confiança de um músico ciente do que já fez até aqui.

Logo ao segundo disco, "Twice the Humbling Sun", tornou-se óbvio que "April", a feliz estreia de Old Jerusalem em 2003, não era obra do acaso.

Estávamos perante um escritor de canções de pleno direito, com influências assumidas da country alternativa e da folk inscrita no meio "indie" que despontaram na década anterior.

Ao quarto álbum, reconhecemos o som Old Jerusalem: já não se esperam revoluções dele - nem ele as procura - mas assiste-se a uma progressiva e discreta transformação, patente no apuro da forma e da ligação entre música e palavras (ou seja, a matéria de que fazem os melhores escritores de canções). "Arduinna and the science boy" é exemplo disso, com guitarra "lap steel" a levantar poeira preguiçosa, migalhas de piano quase indetectável e canto suave, mas também "The guilt albatross", com a voz cheia de reverberação e guitarra primaveril.

Não sendo um trabalho de banda, há momentos que denunciam a maior liberdade que Francisco Silva, o senhor Old Jerusalem, deu aos músicos participantes. É assim nos solos de guitarra eléctrica de "Ominous prayer", em "Restless choose leaving", que desagua numa pequena "jam" "jazzística" de uma descontracção que não associaríamos a Old Jerusalem, em "The gene genie", semi-pastiche assumido dos Calexico, ou ainda em "Pale mirror of you", que põe o piano a dialogar com a guitarra acústica, ainda e sempre o instrumento central de Francisco Silva. Sem revoluções, "Two Birds Blessing" respira a confiança de um músico ciente das suas capacidades e do que já fez até aqui.