Crítica

São os Xutos de sempre e isso é bom

Não são os Xutos como sempre. São os Xutos de sempre. Há uma diferença.

Os Xutos & Pontapés cumprem 30 anos de carreira e passarão 2009 a comemorar país fora o aniversário. Celebram 30 anos e olham para trás: há por aqui uma "Classe de 79", devidamente festiva, que passa pelas "guitarras velhas, garotas novas", pelos concertos na Cruz Vermelha e pela constatação que, lá em 1979, "os Xutos tocavam sempre em primeiro" - de certa forma, é o "It's only rock'n'roll (but I like it)" da banda de "Gritos Mudos". Esse, contudo, não é o tom do homónimo novo álbum.

Começa com uma guitarra wah-wah e um groove à Isaac Hayes e, durante os cinco segundos que dura a coisa, pensamos que vem aí grande surpresa nos 55 minutos que se seguirão. E sim, é uma surpresa, mas não aquilo que prevíamos. Porque depois sai de cena o groove funk e entram os Xutos, sax planando ameaçador e guitarra fazendo-se ouvir à distância recomendada: "Há por aqui quem queira lutar? / Sou eu! / Alguém que queira realmente mudar? / Estou cá!". Isto é "Estado de dúvida", a primeira canção do álbum, e tem aspecto de manifesto.

Repare-se: este é mais um álbum dos Xutos, com os riffs de Zé Pedro e os solos de patente registada por João Cabeleira, com os refrães para levantamento comunal de Tim e Gui a dar "swing" ao peso rock das canções. Contudo, há nestas canções uma convicção e um entusiasmo que, há uns meses, referindo-se ao andamento das gravações, Zé Pedro resumiu muito adequadamente: "parecemos uns putos em estúdio". É isso mesmo.

Esqueçam as baladas que são o segundo single, "Perfeito vazio", ou essoutra intitulada "O Falcão" - Xutos "by numbers". O que interessa aqui são os Xutos, sem floreados e directos ao assunto, a fazer aquilo que melhor fazem: canções rock resgatadas ao pulsar das ruas, a uma ideia de classe trabalhadora, jovem e descontente, que vagueia por aí nestes tempos em que a palavra "crise" terá ultrapassado "sexo" como palavra mais googlada em Portugal. Ouça-se o ataque punk de "Sem eira nem beira" - "eu quero acreditar qu'esta merda vai mudar" -, ouça-se a aspereza de "Tetris anónimus" ou a viagem sobre uma Lisboa angustiante, cortesia de PacMan, em "O sangue da cidade".

Tudo isso não são os Xutos como sempre. São os Xutos de sempre. Há uma diferença e este álbum demonstra-o da melhor forma possível.