Crítica

Alcatifa estilo Weimar

"Best of" de um blogue que se tornou um fenómeno de culto

O autor avisa logo de início que "Pastoral Portuguesa" é uma colectânea de textos sobre "os temas fundamentais do nosso tempo".

Embora não dedique uma palavra ao aquecimento global e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, Casanova faz referências à CMVM, a Vera Roquete, a V. S. Pritchett, aos "sans-cullotes" e à "alcatifa estilo Weimar". É pois um "best of" do blogue que se tornou um fenómeno de culto e que levou Casanova, muito justamente, à imprensa escrita.

Casanova é um anglófilo impenitente, mas um anglófilo que diz "exemplar" e não "cópia", demonstrando que também conhece a língua de chegada. A primeira parte do livro é constituída por pequenos ensaios e notas acerca de escritores anglo-americanos. Com evidente destaque para Thomas Pynchon: "Pynchon sempre dedicou uma atenção especial aos espaços em branco no espectro oficial da Verdade, aos vácuos nas cronologias, às convulsões invisíveis que sacodem as mudanças de paradigma, e onde costumam florescer os mitos urbanos e as teorias da conspiração; não há muita obsessão subterrânea que não lhe tenha merecido algum tempo de antena, desde a colónia de crocodilos nos esgotos de Nova Iorque, à supressão de uma lâmpada perpétua pela Philips, passando por genocídios secretos e serviços postais alternativos" (pág. 22). Se Pynchon é o escritor favorito, o crítico de eleição é James Wood ("The New Yorker"), que tem no entanto o grave "defeito" de não ser um entusiasta pynchoniano. Casanova lida com esse embaraço explicando a Wood, como se ele lesse, que Pynchon não faz "realismo psicológico" mas que nunca abdicou de testar os limites do termo "realismo". E que nesse sentido é ainda um realista, ainda que talvez um pouco histérico.

O convívio directo com os textos sobre os quais Casanova escreve é incomum, e isso justifica as subtilezas e as graças. Subtilezas como quando diz que as personagens de Henry James atribuem um valor exagerado à suspeitas das intenções alheias. Graças como quando refere a importância da contracção do esfíncter na ficção de John Updike, burguês obcecado com o detalhe javardo. Casanova também consegue resumir em poucas linhas porque é que Philip Roth tem "uma voz" e não "um estilo" ou, mais difícil ainda, porque é que Don DeLillo se assemelha menos a Baudrillard do que a Herman José.

Casanova viveu em Inglaterra, e é bem visível a leitura compulsiva da imprensa e da edição anglo-americanas. Dos estudos culturais aos sketches parlamentares, das biografias aos comediantes, tudo é estrangeirado, mas não desdenhoso. O estilo, nada altivo, ajuda. Não há muitos críticos que escrevam numa página a palavra "berlaitada" e numa outra se refiram à "magnificação apofénica". Por mais elaborado que seja o tema, o discurso é quase sempre humorístico, misturando registos e analisando as minúcias da linguagem. É o caso de um texto sobre o candente tema do ponto e vírgula (a "semicolonoscopia"), que segundo Casanova é menos um tema linguístico do que diplomático (ele explica). E da magnífica "flash interview" a James Joyce, que cruza futebol e ousadias modernistas: "A gramática e a semântica estão em grande forma e causaram-nos alguns problemas, mas no final acabou por ganhar o mais forte". (pág. 97).

Alardeando o seu muito tempo disponível, Casanova passa mais tempo em frente da televisão do que qualquer outro português que leia livros. A televisão é o único modo de conjugar curiosidade sociológica e preguiça doméstica, e no meio dos seus amados Maltesers, o crítico Casanova engole programas de Artur Albarran, entrevistas, variedades, debates políticos, séries históricas, épicos bíblicos que se parecem com videoclips dos Soft Cell, filmes sobre filhos de Satanás, noites dos Óscares, reveillons, documentários de Richard Dawkins e "a festa dos touros" (descrita por uma espécie de marciano). É a televisão como "guilty pleasure" e sintoma cultural. Baseado apenas na descrição fria ou estrambólica, ou nos adjectivos e repetições, Casanova arrasa, quase com carinho, o telelixo que é hoje quase toda a televisão. Ele nunca se indigna, nunca se choca, nunca tem o discurso cansativo da inveja e do ressentimento. A televisão é a comédia humana com entrega ao domicílio, e Casanova diverte-se com isso, utilizando em estilo o seu truque favorito: o cruzamento entre a cultura erudita e a popular. Pouca gente chamaria a um apresentador "um jovem saído de um conto de Bernard Malamud", e Casanova não se importa nem um bocadinho com o restritíssimo auditório que apanha a piada. No seu mundo mental, tudo se cruza, ele é o intelectual integrado por excelência, um homem para quem o caos da cultura moderna é um divertimento e não um apocalipse. Há mesmo uma espécie de continuidade entre todas as manifestações culturais, uma espécie de unidade antropológica das nossas emoções e manias. É por isso que a tourada não difere muito de um Rivette, que uma citação apócrifa de George Steiner o põe a falar como uma adolescente de Birmingham e que se diz, como bons motivos, que Mário Viegas entrou em "The Big Lebowski".

Rogério Casanova é sportinguista, e os sportinguistas são conhecidos pelo seu existencialismo torturado. Daí que várias páginas sejam dedicadas a uma análise leonina que é quase um diagnóstico cultural. Vamos do espantosamente intitulado "O 18 do Brumário de Rodrigo Tiuí" às razões pelas quais Miguel Veloso é um utilitarista benthamiano: "Miguel Veloso levantou a cabeça, viu Abel e Izmailov teoricamente 'desmarcados' e, leitor atento de Bentham que é, tomou a opção utilitarista (as consequências de acto sendo mais importante do que a sua natureza intrínseca, etc.): endossou-a ao adversário que considerou menos capaz de iniciar um contra-ataque perigoso (...). Ao minuto sessenta da final da Taça da Liga, em pleno lance de ataque do Sporting, a melhor hipótese de maximizar a felicidade geral da sua equipa era ceder a bola ao adversário menos talentoso (pág. 239)". Ao melhor estilo David Foster Wallace, Casanova também comenta com brio estratégico e dromológico um torneio de ténis ou uma corrida de cavalos, até porque em geral aposta nos resultados. Um patusco hábito inglês que faz todo o sentido nesta espécie de inglês que vê tudo como um jogo. E que, diabos o levem, ganha sempre.