A História nas histórias dos Óscares

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Houve discursos de aceitação dos Óscares que são já iconografia da Academia. O que eles disseram contava também histórias da América. É isso o que contamos, numa selecção de "Oscar speeches", entre 1954 e 2003, entre Audrey Hepburn e Michael Moore.

Audrey Hepburn

Melhor actriz: "Férias em Roma", 1954

É a prova de que o espírito inventivo dos Óscares não nasceu ontem. Em 1954, a transmissão televisiva dos Óscares estava apenas no seu segundo ano - e a emissão via satélite só seria uma realidade muito depois - mas já fazia experiências com comunicações exteriores. Donald O'Connor, apresentador, introduz Gary Cooper, alegadamente "a filmar no México". A cena seguinte revela um cenário exterior, com Cooper dirigindo-se à câmara, vestido como a personagem que interpreta no "western" "Vera Cruz". O actor lê as nomeações para o Óscar de melhor actriz, enquanto o elenco do filme espera. E a vencedora foi: Audrey Hepburn, pelo seu papel de princesa foragida em "Férias em Roma", de William Wyler. Foi o primeiro papel da actriz britânica no cinema americano; até então, só tinha feito filmes europeus, e uma produção de "Gigi" na Broadway. O Óscar converteu-a numa estrela.

Entre 1953 e 1957, decorreram cerimónias simultâneas em Nova Iorque e Los Angeles. É por isso que Hepburn recebe o prémio em Nova Iorque.

Marlon Brando

Melhor actor: "Há Lodo no Cais", 1955

Marlon Brando enfrenta de novo Humphrey Bogart ("Os Revoltados do Caine"), para quem perdera o Óscar em 1952, quando fora nomeado por "Um Eléctrico Chamado Desejo". Durante quatro anos consecutivos é nomeado para os Óscares, mas só em 1955, ao reencontrar o realizador de "Um Eléctrico Chamado Desejo", Elia Kazan, é que a Academia o distingue. Brando sobrepõe força bruta e a vulnerabilidade de um animal abatido (conflito que quase podia servir como síntese do "Brando touch") em "Há Lodo no Cais", filme onde diz a famosa frase: "I coulda been a contender".

Ao receber o Óscar, o actor fala como se tivesse dificuldade em respirar, como quem tenta recuperar da surpresa. Segundo "Brando Unzipped", o actor teve dúvidas em estar presente na cerimónia por não acreditar em prémios de representação. Verdade ou não, o seu discurso foi cortês e grato.

Jane Fonda

Melhor actriz: "Klute", 1972

Antes de conquistar o seu primeiro Óscar, Jane Fonda costumava dizer: "Não quero saber dos Óscares para nada. Faço filmes para defender as causas em que acredito, não para obter distinções." Também podia ser o desapontamento a falar: Fonda ficou de mãos vazias quando foi nomeada pela primeira vez, por "Os Cavalos Também se Abatem". Segundo algumas opiniões, a sua radicalização política arruinara a oportunidade - a actriz era uma notória activista contra a Guerra do Vietname e apoiante dos Panteras Negras.

Dois anos mais tarde, em 1972, quando recebeu a segunda nomeação, por "Klute", especulou-se que iria renunciar ao prémio ou aproveitar a ocasião para promover as suas causas políticas. Mas, contrariamente à expectativa generalizada, aceitou o Óscar, serena e sorridente, e declarou: "Obrigada àqueles que aplaudiram. Haveria muitas coisas a dizer, mas não vou dizê-las esta noite." Meses depois, partia para o Vietname do Norte, onde veio a condenar publicamente a actuação do exército americano. Tornou-se "persona non grata" e durante alguns anos deixou de trabalhar nos Estados Unidos.

Charles Chaplin

Óscar honorário em 1972  

Charles Chaplin foi outro caso notório de vitimização política. Ficou conotado como um simpatizante de esquerda por ter defendido, durante a II Guerra, a abertura de uma segunda frente na Europa (tal como pedia Estaline) para aliviar a pressão da ofensiva alemã sobre a URSS. A seguir, no período da "caça às bruxas", foi um dos "suspeitos" investigados pelas suas pretensas actividades políticas. Quando, em 1952, o realizador britânico parte para Londres, para a estreia de "Luzes da Ribalta", o visto americano é-lhe retirado e Chaplin declara que nunca mais voltará aos EUA. Entre todas as suas obras, só "O Grande Ditador" recebeu uma nomeação para melhor filme, em 1941. Chaplin foi nomeado apenas duas vezes como actor, por "O Circo" (1928) e "O Grande Ditador", mas o saldo de Óscares foi igual a zero.

Em 1972, 20 anos depois de ter deixado a América, a Academia de Hollywood decidiu atribuir-lhe um Óscar honorário pelo "incalculável efeito que teve em tornar o cinema a arte deste século". O cineasta, então com 82 anos, suspendeu o longo exílio e foi recebido com uma ovação esmagadora.

No ano seguinte, obteve o seu único Óscar num contexto competitivo, o de melhor banda sonora original, por "Luzes da Ribalta", um filme feito 20 anos antes e que esperara todo esse tempo até ser exibido em Los Angeles.

Marlon Brando

Melhor actor: "O Padrinho", 1973

George C. Scott tinha recusado o Óscar dois anos antes, por "Patton" (e avisou com antecedência), mas Marlon Brando enviou uma índia Apache em sua representação para renunciar ao prémio de melhor actor, atribuída pelo seu papel de patriarca da máfia em "O Padrinho". Sacheen Littlefeather recusou a estatueta e, empunhando um papel com um discurso escrito pelo actor - "que eu não posso partilhar convosco por razões de tempo, mas que terei todo o prazer em partilhar com a imprensa a seguir", disse - explicou, entre vaias e aplausos, que o gesto de Brando era um protesto contra o tratamento dos índios pela indústria do cinema americano. É o mais célebre "escândalo" na história da cerimónia dos Óscares, que foi prontamente criticado por alguns dos apresentadores nessa mesma noite. Raquel Welch, depois de anunciar as nomeações para melhor actriz, ironiza: "Espero que elas não tenham uma causa".

Tatum O'Neal

Melhor actriz secundária: "Lua de Papel", 1974

Filha do actor Ryan O' Neal, com quem contracena em "Lua de Papel", em 1974 Tatum O'Neal tornou-se, aos 10 anos, a mais jovem vencedora de um Óscar, título que continua a deter até hoje. (A número dois, Anna Paquin, tinha 11 anos quando foi eleita melhor actriz secundária por "O Piano", em 1993). Tatum O'Neal também faz parte dos "happy few" que conseguiram um Óscar com a sua primeira experiência de representação. Continua a ser o papel mais notável da actriz, que teve uma carreira errática e foi casada com o tenista John McEnroe.

Única aparição de Katharine Hepburn na cerimónia dos Óscares, 1974

A actriz que mais Óscares recebeu de melhor interpretação feminina - quatro - só apareceu uma vez na cerimónia, e não foi para receber, foi para entregar um Óscar especial ao produtor Laurence Weingarten, um amigo. Diz-se que tinha sentimentos ambivalentes em relação ao Óscar e que, por isso, se recusava a estar presente nas cerimónias. Em 1968, fez uma gravação prévia para a cerimónia que assinalou o 40º aniversário dos Óscares, mas só em 1974 aceitou dar um ar da sua graça, ao vivo. Ao apresentar o Óscar especial, começou por brincar: "Estou muito feliz por não ter ouvido ninguém gritar: ‘Até que enfim!' . Sou a prova viva de que uma pessoa pode esperar 41 anos até deixar de ser egoísta."

Homem nu invade o palco, 1974

E se, apesar de tudo, o episódio mais memorável de 1974 (secção "fait-divers") for um homem nu a correr no palco? É pouco provável que Robert Opel, fotógrafo e galerista, tivesse hoje uma página na Wikipédia se não fosse por isso. Conseguiu aceder aos bastidores da cerimónia identificando-se como jornalista, e, a dada altura, correu nu pelo palco, fazendo o sinal V com os dedos (sinónimo de paz, nos EUA). O apresentador de serviço, o actor britânico David Niven, não podia ter reagido com maior graciosidade: "Não é fascinante pensar que a única gargalhada que o homem alguma vez conseguirá na vida implica despir-se e... mostrar as suas imperfeições?!"

Francis Ford Coppola

Melhor filme: "O Padrinho II", 1975

Coppola contra Coppola: estava duplamente nomeado para o Óscar de melhor filme em 1975, com "The Conversation/ O Vigilante" e "O Padrinho II". Mas essa posição invejável podia revelar-se uma desvantagem, dividir o voto. O passado não ajudava: dois anos antes, quando estivera nomeado pela realização de "O Padrinho", perdera para Bob Fosse ("Cabaret"). Além disso, Coppola achava que "Padrinho II", com a sua narrativa fracturada, em "flashback", talvez fosse demasiado inovador para o Óscar de melhor filme. Mas este foi um caso em que a sequela suplantou o original e consolidou o épico. Habitualmente apontada como a obra máxima do realizador, "O Padrinho II" é a versão cinematográfica do "great American novel" (essa busca do Santo Graal da literatura americana), com a suprema ironia de adaptar um romance "pulp", barato, de Mario Puzo. A sequela conquistou seis Óscares (incluindo o Óscar de melhor actor secundário para Robert De Niro), mais três que o original.

Francis Ford, só por si, ganhou três Óscares, de melhor filme, realizador e argumento adaptado.

Jack Nicholson

Melhor actor: "Voando Sobre Um Ninho de Cucos", 1976

Foi o primeiro Óscar de um dos actores mais premiados pela Academia de Hollywood (12 nomeações, três Óscares). Um Óscar nas mãos de Jack Nicholson é sempre garantia de um "one-man show". "Isto prova que existem tantos doidos na Academia como em qualquer outro lado", disse, ao ganhar o Óscar pelo seu papel em "Voando Sobre Um Ninho de Cucos", como líder exuberante de um bando de pacientes de um hospital psiquiátrico na revolta contra um sistema repressivo. O conflito central do filme - e do livro homónimo que lhe serviu de base, escrito por Ken Kesey nos anos 60 - é uma alegoria do clima social e político da altura, ilustrando a emergência do individualismo e as guerras culturais que estavam a abalar o conservadorismo (num momento em que a "nova Hollywood" queria tomar o lugar da "velha Hollywood"). A cerimónia de 1976 representou o triunfo de "Voando Sobre Um Ninho de Cucos" (e um triunfo pessoal para um realizador checo, recém-chegado, Milos Forman) que conquistou os cinco principais Óscares - filme, realizador, actor, actriz e argumento -, um dos poucos a conseguir fazê-lo na história dos prémios da Academia de Hollywood. Além disso, tornou-se um dos maiores sucessos comerciais do seu tempo.

"Rocky"

Melhor filme, 1977

"Rocky" parecia o mais fraco dos candidatos ao Óscar de melhor filme em 1977 - ainda que não fosse, bastaria murmurar um peso-pesado: "Taxi Driver" -, mas acabou por destronar a concorrência. Os outros - "Os Homens do Presidente", de Alan J. Pakula, "Escândalo na TV", de Sidney Lumet, e "Caminho da Glória", de Hal Ashby, e "Táxi Driver" - eram filmes com o ar dos tempos (e com os sinais reconhecíveis do dito "cinema americano dos anos 70"), mas o vencedor foi o projecto pessoal de um actor principiante chamado Sylvester Stallone. Foi ele que escreveu o argumento e andou atrás dos estúdios para produzirem "Rocky". História sobre o triunfo, ou a oportunidade dourada, de um pugilista zé-ninguém, era o mais optimista dos candidatos ao Óscar em 1977, e o mais apropriado numa altura em que a nação celebrava o seu bicentenário. Além disso, estava sintonizado com o momento político, ecoando a ascensão improvável de Jimmy Carter nas eleições presidenciais de 1976, cuja candidatura parecera pouco auspiciosa.

A meio caminho entre o filme de boxe (quase um género em si mesmo) e a "love story" ­(um pugilista de terceira categoria e uma empregada de loja enjeitada formam um par), "Rocky" antecipou um filão de dramas familiares, com "gente vulgar" (como o título do filme de Robert Redford), numa altura em que a família praticamente tinha desaparecido do cinema americano. Os anos 80 estavam a chegar - e com eles, o seu maior "action hero", Sylvester Stallone. E tudo começou aqui.

Diane Keaton

Melhor actriz: "Annie Hall", 1978

É Diane Keaton que sobe ao palco para receber o Óscar, ou é Annie Hall? As roupas (o "look" que mistura elementos femininos e masculinos) eram as mesmas, a ligeireza "clownesca" também (como se Katharine Hepburn se encontrasse com Chaplin...), o apelido idem (o nome de baptismo da actriz é Diane Hall; só adoptou Keaton porque já havia uma Diane Hall inscrita no Actors Guild). Sim, Annie Hall é mesmo ela. Só faltou a actriz dizer, no seu discurso de agradecimento: "la-di-da". Keaton foi o molde da personagem e, consequentemente, da típica heroína do cinema de Allen: da mesma maneira que o realizador contratou por vezes actores para serem o seu alter-ego (para interpretarem Woody no lugar de Woody), ocasionalmente também chamou actrizes para papéis que tinham em Annie Hall (ou Diane Keaton...) a sua matriz original.

A "screwball comedy" extinguira-se com o cinema clássico, mas Woody Allen reinventa a turbulência dos sexos em "Annie Hall", filme sobre as aventuras e desventuras amorosas de Annie, mulher independente, deliciosamente neurótica, franco-atiradora verbal e do judeu Alvy Singer (Woody Allen). Foi o grande vencedor de 1977: quatro Óscares, incluindo melhor filme e realizador.

Robert De Niro

Melhor actor: "Touro Enraivecido", 1981

A impressionante transformação física de Robert De Niro para "Touro Enraivecido" estabeleceu um novo paradigma na entrega de um actor a um papel (da mesma maneira que Martin Scorsese "patenteou" aqui a forma de filmar cenas de boxe). De Niro engordou mais de 20 quilos para interpretar Jake LaMotta neste "biopic" que percorre 23 anos, entre a ascensão e a queda do ex-campeão de boxe. Foi o actor quem levou a autobiografia de LaMotta ao produtor Irwin Winkler, que concordou financiar se convencesse Scorsese a realizá-lo. Os produtores queriam um novo "Rocky", mas "Touro Enraivecido" é o anti-"Rocky": filme visceral e sombrio, um tratado sobre a bestialidade humana, tabloidesco e lírico. De Niro ganhou o Óscar, Scorsese ficou a ver navios: os prémios de melhor realizador e filme foram parar a Robert Redford e ao seu "Gente Vulgar", coroando o género de drama familiar que estava em voga na época. "Touro Enraivecido" é hoje apontado como uma das obras-primas de Scorsese e do cinema americano daquele período, mas ficou aquém das expectativas no "box-office" - os espectadores voltavam cada vez mais as costas ao que consideravam ser "filmes difíceis". A Academia, pelos vistos, não foi diferente.

Federico Fellini - Óscar honorário em 1993

Um Óscar honorário para Fellini, que haveria de morrer sete meses depois. Não foi um gesto de reparação do passado, como é frequente nestes casos: o mestre italiano recebera um total de 12 nomeações, quatro na categoria de melhor realizador, oito como argumentista, e ganhara quatro Óscares de melhor filme estrangeiro, por "A Estrada" (1956), "As Noites de Cabíria" (1957), "Oito e Meio" (1963) e "Amarcord" (1974), recorde que só partilha com outro italiano, Vittorio De Sica. O segundo cineasta europeu mais premiado nessa categoria é o sueco Ingmar Bergman, com três Óscares. Sinal de outros tempos: o único realizador europeu actual (não anglo-saxónico, entenda-se) cuja carreira parece ser seguida com interesse e regularidade pela Academia de Hollywood é o espanhol Pedro Almodóvar. O agradecimento cândido de Fellini em 1993 pode ser visto como um antecedente de Roberto Benigni (que é a versão desenfreada disso).
"Por favor, sentem-se, deixem-se ficar confortáveis", pediu o cineasta à plateia que o aplaudia de pé. "Se alguém aqui tem direito a sentir-se um pouco desconfortável, sou eu."

  

"A Lista de Schindler", de Steven Spielberg

Melhor filme e realizador, 1994

"Uau, este é o melhor copo de água depois da maior seca da minha vida!", reagiu Spielberg, ao receber o Óscar de melhor filme e melhor realizador em 1994. Ele sabia o que era isso de ser nomeado, mas não sabia o que era isso de ganhar. "Encontros Imediatos do Terceiro Grau", "Os Salteadores da Arca Perdida", "E.T." e "A Cor Púrpura": todos tinham chegado às nomeações em anos anteriores, nenhum tinha chegado para a Academia legitimar Spielberg com Óscares. Afinal, ele era um realizador de êxitos colossais, filmes de alguém que tardava em crescer (que parecia ter ficado preso na infância). Faltava-lhe a obra adulta, de credenciais sérias. "A Cor Púrpura" esteve perto, mas "A Lista de Schindler" acrescentava a tudo isso a caução pessoal (Spielberg invocou o seu judaísmo para filmar a história verídica de um industrial alemão que salvou milhares de vidas da exterminação nazi) e a solenidade intocável de um tema como o Holocausto. E foi a coroação de Spielberg... Pode dizer-se que há um antes e um depois de "Schindler" na sua carreira, em termos de consagração crítica. Imediatamente antes, e no mesmo ano de "Schindler", o realizador fez "Parque Jurássico", que foi o filme mais rentável de sempre durante um período. Spielberg voltaria a receber o Óscar de melhor realizador em 1999, por "O Resgate do Soldado Ryan".

Tom Hanks

Melhor actor: "Filadélfia", 1994

Era a primeira vez que Hollywood abordava a questão da sida, mais de uma década depois da epidemia ter sido identificada e iniciar a sua devastação. Até então, ela só tinha sido tema de telefilmes ("And the Band Played On", estreado poucos meses antes) ou produções "low-budget" ("Longtime Companion", de 1990). É nesse contexto que surge "Filadélfia", filme com desejo de grande público (elenco de estrelas e uma autoridade na realização, Jonathan Demme, já consagrado nos Óscares por "O Silêncio dos Inocentes") que explora os preconceitos sociais associados à doença e abre caminho a uma representação mais realista (ou menos estigmatizada) dos homossexuais no cinema americano. Tom Hanks conquistou aqui o seu primeiro Óscar de melhor actor, no papel de um advogado que é despedido da firma onde trabalha quando esta descobre que ele tem sida. Nunca saberemos se a Academia premiou a interpretação, ou se foi, acima de tudo, sensível ao tema.

  

Ben Affleck e Matt Damon

Melhor argumento original: "O Bom Rebelde", 1998

Rapazes serão sempre rapazes ("boys will be boys"): em 1998, dois "miúdos" de Boston vieram com as respectivas mães aos Óscares e acabaram a noite, histéricos , com estatuetas na mão. Foi a iniciação meteórica em Hollywood de dois amigos, Ben Affleck e Matt Damon, actores com currículos irrelevantes que se fartaram de ser recusados em audições e, um dia, puseram-se a escrever um argumento, desenvolvendo uma história que Damon tinha esboçado quando estudara em Harvard. Diz a lenda que Harvey Weinstein, um dos patrões da Miramax, comprou o guião no dia em que o leu. Além de argumentistas, Damon e Affleck são actores no filme realizado por Gus Van Sant: Damon interpreta a personagem principal, um prodígio da matemática que trabalha como vigilante no MIT. O filme e, em particular, os Óscares, lançaram as carreiras dos dois rapazes de Boston.

"Titanic", de James Cameron

Melhor filme e realizador:, 1998

E tudo o "blockbuster" levou: "Titanic" foi o segundo filme a arrecadar 11 Óscares, depois de... "Ben-Hur", em 1960. O épico de James Cameron também igualou o recorde de nomeações (14) estabelecido por "Eva", de Joseph L. Mankiewicz, em 1951. E não foi menos esmagador nas bilheteiras: mantém ainda o título de filme mais rentável de sempre, marco que nenhum "Harry Potter" nem "Senhor dos Anéis" conseguiram destronar.

Cameron não olhou a despesas, e "Titanic" ultrapassou o orçamento original, que já era multimilionário. E quando a estreia do filme, prevista para o Verão (época alta do "box-office" americano) de 1997, passou para o Natal, os oráculos em Hollywood prenunciaram um fiasco monumental. Mas "Titanic" fintou todas as expectativas, incluindo o "cliché" de que a Academia de Hollywood costuma torcer o nariz a filmes populares. E a forma como varreu os Óscares em 1998 foi uma vitória pessoal para o seu realizador, um estreante nas nomeações da Academia que fizera nome no cinema de acção, "musculado" ("Aliens", "Exterminador"...). Não foi assim há tanto tempo, mas foi há algum tempo - e ainda estamos sob o efeito de "Titanic".

  

Roberto Benigni

Melhor actor e filme estrangeiro: "A Vida É Bela", 1999

E o vencedor da reacção mais destrambelhada ao Óscar é... Roberto Benigni, que nunca foi um exemplo de contenção e subtileza. É um daqueles casos em que nem sequer precisamos da ajuda do YouTube para nos recordarmos: Benigni a equilibrar-se nas cadeiras quando o seu nome é anunciado, o "show" histriónico, o agradecimento orgástico, dizendo que queria "beijar e fazer amor com toda a gente" e "mergulhar neste oceano de generosidade". De facto, a Academia de Hollywood exibiu uma empatia rara para com um filme estrangeiro: Benigni ganhou o Óscar de melhor actor e de melhor filme estrangeiro por "A Vida é Bela", fábula de veia chaplinesca que decorre num campo de concentração nazi. Benigni recebeu uma das estatuetas das mãos de Sophia Loren, que já tinha dado o Óscar honorário a Fellini em 1993, e foi a única intérprete num filme estrangeiro a conquistar um Óscar de melhor actriz (em 1962, por "As Duas Mulheres", de Vittorio De Sica).

Elia Kazan

Óscar honorário em 1999

O momento mais controverso da cerimónia de 1999 não teve nada a ver com favoritismos na corrida pelos prémios. Foi, como previsto, a atribuição de um Óscar honorário ao realizador Elia Kazan. Enquanto decorriam protestos na rua contra a anunciada homenagem, no interior do auditório a aparição em palco do cineasta de 89 anos dividiu a plateia entre aplausos entusiastas e o protesto sisudo de actores como Ed Harris ou Nick Nolte, que permaneceram sentados. O incómodo relativamente ao autor de "Um Eléctrico Chamado Desejo", "A Leste do Paraíso" e "Esplendor na Relva", remontava a 1952, quando Kazan colaborou activamente na "caça às bruxas" do Comité de Actividades Anti-Americanas, denunciando oito colegas e repudiando o seu próprio passado comunista. "Há Lodo no Cais", feito pouco depois, em 1954, foi mesmo interpretado como um filme da era McCarthy, que legitima a denúncia. O prémio honorário em 1999 veio reacender a memória traumática das purgas que se sucederam nesse período, e que fez as suas vítimas entre a comunidade cinematográfica; muitas não voltaram a trabalhar, outras abandonaram o país, algumas cometeram suicídio. Kazan agradeceu a "coragem e a generosidade" da Academia e despediu-se com um evanescente "acho que já posso desaparecer".

Julia Roberts

Melhor actriz: "Erin Brockovich", 2001

O Óscar ajudou Julia Roberts a livrar-se de uma vez por todas do título de "namoradinha da América". É um autêntico "case-study" sobre o impacto de um prémio da Academia (ou de um papel?) na reorganização da carreira e da imagem pública de uma actriz. Digamos que antes de "Erin Brockovich" Roberts era uma das estrelas mais populares de Hollywood pelas piores razões (escrutínio da vida amorosa pela imprensa, uma filmografia comercial mas inconsequente...); depois de "Erin Brockovich": novo escalão. Steven Soderbergh deve ser directamente responsabilizado: não se limitou a realizar "Erin Brockovich"; apagou as marcas de "glamour" da vedeta para revelar uma heroína do proletariado. No seu discurso de agradecimento, Roberts ordenou ao chefe de orquestra que "ignorasse o limite de tempo: "O senhor está a fazer um excelente trabalho, mas é tão rápido com essa batuta, por que não se senta?" E fez o discurso mais longo da noite.

Halle Berry

Melhor actriz: "Monster's Ball - Depois do Ódio", 2002

Pela primeira vez, dois actores negros conquistaram os Óscares nas duas principais categorias de interpretação: Halle Berry por "Monster's Ball"e Denzel Washington por "Dia de Treino". Berry foi mesmo a primeira afro-americana a ganhar o Óscar de melhor actriz, impondo-se sobre concorrentes de peso como Judi Dench e Nicole Kidman. Mostrou o potencial dramático que tardava em aparecer numa carreira de filmes pouco exigentes e isso teve o efeito de "revelação". Em "Monster's Ball", Berry interpreta a mulher de um recluso negro que se envolve sentimentalmente com um guarda branco (Billy Bob Thornton), papel que, além do mais, implicou a exposição física da actriz numa notória cena de sexo. Berry irrompeu em lágrimas quando o seu nome foi anunciado e encheu o momento de significado histórico. A atribuição de um Óscar honorário a Sidney Poitier, melhor actor de 1964, foi a cereja no topo do bolo numa noite de emancipação política para os afro-americanos de Hollywood. "A porta foi aberta", disse Halle Berry.

Michael Moore

Melhor documentário: "Bowling for Columbine", 2003

O protesto anti-Bush, e anti-Guerra do Iraque, era uma actividade muito mais perigosa em 2003 (menos de dois anos após o 11 de Setembro) do que é hoje. Mas Michael Moore nunca se importou de ser o provocador de serviço, sobretudo se uma câmara estiver a filmar. Com "Bowling For Columbine", irrompeu com a subtileza de um elefante na ordem do dia (e à escala planetária), trazendo notoriedade pública e sucesso comercial a um género pouco habituado a isso, o documentário. Filme de guerrilha sobre a obsessão americana pelas armas, "Columbine" conquistou Cannes primeiro (prémio especial do júri em 2002, numa altura em que a América e boa parte da Europa estavam de costas voltadas por causa do Iraque) e o Óscar de melhor documentário mais tarde. Apesar de Hollywood representar uma elite liberal no contexto americano, o panfletário Moore não se livrou das vaias quando transformou a ocasião num púlpito político, e viu o seu discurso ser abruptamente cortado pela orquestra. "Shame on you, Mr. Bush!", gritou. E, no ano seguinte, foi atrás do presidente americano com "Fahrenheit 9/11".