Crítica

Monumentos, recordações e outras ruínas

Dezasseis artistas interrogam os despojos da história pessoal ou social

Entramos no espaço, uma ruína num dos pavilhões do antigo Hospital Júlio de Matos, que já serviu de lugar para outras exposições. Desta vez, o tema é o vestígio, sobre o qual 16 jovens pela casa dos 30 anos resolveram trabalhar. Não houve propriamente um trabalho de comissariado da parte dos organizadores, Carlos Noronha Feio e Romeu Gonçalves. A escolha, o convite, fez-se segundo a proximidade geracional e as afinidades entre os respectivos trabalhos.

E o resultado é surpreendente, tanto ao nível da qualidade como da exigência conceptual que quase todos demonstram possuir. Sem excluir a ironia: logo à entrada, Gabriel Abrantes acolhe-nos com um texto pintado sobre feltro onde conta uma história mirabolante sobre as manicures e os implantes de silicone de Tyra Banks e Pamela Anderson. Mais que o conteúdo, interessa a capacidade de ficcionalizar as personagens construídas pela sociedade planetária contemporânea, e a apresentação desse processo como resíduo, ou mesmo lixo.

O espaço decrépito, todo ele compartimentado em pequenas divisões que se repartem dos dois lados de um grande corredor central, propicia esta abordagem narrativa a partir das memórias de diferente origem - afinal, um processo que está na base da história pessoal que todos construímos para nós próprios.

Um dos trabalhos sobre os vestígios da história é o da dupla Ângelo Ferreira de Sousa e Carla Cruz, com a recriação de um mural da JCP da época do 25 de Abril, pintado directamente sobre a parede. Outro, o de Carlos Noronha Feio, consiste numa instalação que integra um dirigível vazio feito de retalhos de tecido estampado com pintura; e uma terceira, a de Ana Fonseca, consiste num monumento construído a partir de cartão de embalagem e cacos de porcelana chinesa, entre outros objectos. Com uma orientação mais dirigida para o vestígio da arte, quer se trate da própria obra ou da história da arte, são os trabalhos de Maria Condado (uma pintura deixada no escuro e a sua projecção em filme), Samuel Rama (o resultado da reconstrução de uma parede já existente, por meio da técnica da taipa, com fotografias de um outro trabalho), Paulo Brighenti (pintura de citação do Romantismo), Michael Larsson (escultura através de tubos de iluminação, numa citação também do trabalho de Dan Flavin). Marta Moura combina o pensamento sobre o destino da pintura com uma reflexão social sobre o consumismo. Cecília Costa apresenta um espelho com orifícios ao nível dos olhos, ou seja, um aparelho que permite vários modos de visão simultâneos. João Leonardo, Mara Castilho, Valter Barros, Carlos Correia e Romeu Gonçalves escolheram expor obras mais heterogéneas, mas sempre tendo em conta tanto o espaço como o tema que lhes foi pedido para trabalhar.

É esta diferença entre todos que constitui a riqueza dos projectos que têm vindo a decorrer neste pavilhão, a que se deseja continuidade.