Crítica

Entre os Dedos

Quem esperava, depois de "Coisa Ruim", um filme de género, uma reviravolta estilística no cinema português recente, ou ainda surpresas de argumento, desengane-se: "Entre os Dedos" opta por um realismo acabrunhado, usando o preto e branco como manifestação de indistinta tristeza, numa revisita, quase em tom de reportagem, ao quotidiano urbano do subúrbio de uma cidade.

Tudo aparece simples e rarefeito, numa solidão narrativa que confunde, mas que também comove. Esta realidade sem saída ou perspectivas confere aos mecanismos da ficção uma desesperada surdina, como se as personagens não respirassem, nem vivessem, de facto, os seus pesadelos de sobrevivência. De tanto querer ser realista, acaba por tornar-se abstracto.