Crítica

Gangster Americano

No cinema americano é, definitivamente, tempo de olhar para os anos 70. "Gangster Americano" é mais uma "period piece", mais um filme de época onde a reconstituição dos "seventies" os investe de um atributo simbólico especial - uma charneira, o fim de um tempo e o princípio de outro, e o breve e ligeiramente caótico "mundo de possibilidades" que os medeia.

Podemos supôr que isto seja um produto da época política, e que talvez Hollywood tenha saudades do breve reinado "liberal" nos anos 70; ou então, simplesmente, alguém olhou para trás e reparou como são hoje diferentes as cidades americanas (em "Gangster Americano" vê-se que deve dar uma certa trabalheira filmar a Nova Iorque de hoje e fazê-la passar pela de 70).

Seja lá como fôr, essa breve desordem é aqui representada pela história de Frank Lucas, "gangster" do Harlem, negro, que por uma mistura de inteligência, violência e sentido de oportunidade (neste aspecto era um clássico, são as três qualidades básicas do mafioso bem-sucedido) revolucionou o tráfico de droga nas ruas de Nova Iorque, dando cabo do negócio aos seus tradicionais praticantes (os padrinhos italianos).

Qualquer coisa de novo e revolucionário: por várias vezes no filme se ouve gente a dizer que era "impossível" um negro tornar-se no mais poderoso mafioso da cidade. Em paralelo com a história de Lucas (interpretado por Denzel Washington em registo "bigger than life" forçadíssimo, cabotino como até aqui nunca foi), "Gangster Americano" segue a história do polícia que lhe dá caça, Russell Crowe, indivíduo ele próprio "desordenado" (tem a vida pessoal em fanicos) que como dificuldade suplementar na sua missão encontra ainda a profunda desordem instalada na polícia nova-iorquina - meter Lucas na prisão será também uma maneira de limpar a corrupção na polícia (a acreditar nas legendas finais, uma impressionante percentagem de polícias estava "feita" com os mais diversos bandidos).

Esta espreitadela histórica, com muita informação e (algum) ambiente, é quase tudo o que é interessante em "Gangster Americano". A fama de Ridley Scott, que tem carradas de péssimos filmes no currículo, é um dos mistérios do cinema contemporâneo - e "Gangster Americano" é, como nos melhores filmes de Ridley Scott, um filme do "art director" e do montador.

Ideias zero para além dos "clichés" - pela milésima vez a história do mafioso que constrói um império a partir do nada é filmada como reflexo (nem por isso muito distorcido) do inevitável "sonho americano", acompanhadas (uma série de referências a Martin Luther King metidas um bocado a martelo) por uma integração da saga de Lucas no impulso gerado pela espécie de libertação social dos negros nos anos 60. São as ideias do argumento (onde colaboraram Steven Zaillian e Terry George). Scott não acrescenta nada - até perde as personagens: Denzel é um boneco, Crowe nem boneco é, não existe para lá da função utilitária da personagem (que patéticas são as menções ao seu caos pessoal, como se adiantassem ou atrasassem alguma coisa). Acabamos por achar mais interessantes (mais rápidas e mais sintéticas) algumas das personagens secundárias: o mafioso amigo de infância de Crowe, ou um inacreditavelmente oleoso polícia corrupto.

O que é que mantém isto de pé? A eficácia da reconstituição histórica, uma Nova Iorque suja e pré-giulianesca; e uma montagem, certamente cega e um pouco trituradora (certas cenas parecem sufocadas) que sacrifica a respiração ao ritmo mas que o faz com coerência (embora não salve os dez minutos finais de parecerem um apêndice só para "arrumar" a história). De certa forma, "Gangster Americano" é um filme muito parecido com o "Estranha em Mim" de Neil Jordan: eficácia industrial, e um certa inteligência funcional - mas total deserto de ideias estilistico ou conceptual.

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