Restauro feito pelo neto do fabricante do mecanismo

Relógio da Rua Augusta volta a dar horas

O mecanismo que ontem voltou a funcionar tem manutenção garantida apenas durante um ano
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O mecanismo que ontem voltou a funcionar tem manutenção garantida apenas durante um ano Rui Gaudêncio/PÚBLICO

O Terreiro do Paço vai voltar a ser pontual. O relógio do Arco da Rua Augusta fez-se ouvir 148 dias, 3552 horas ou 213.120 minutos depois do início dos trabalhos de restauro. Ao meio-dia em ponto soaram as doze badaladas do tradicional sino de bronze, situado no topo do arco, que se repetem às horas certas e a cada meia-hora.

São mais de 80 os degraus, de pedra fria e escura em caracol, que conduzem a uma sala onde o tiquetaque ritmado do pêndulo do relógio fica abafado pelo eco das vozes. O brilho das peças de bronze, de aço vazado e de ferro fundido, juntamente com a tinta fresca verde e vermelha são o reflexo das obras de recuperação, levadas a cabo por Luís Manuel Cousinha, neto do fabricante do mecanismo e seguidor dos passos do avô e do pai.

O relógio data de 1941, altura em que ainda não tinha corda automática, pelo que necessitava de funcionários que, algumas vezes por semana, lhe dessem corda e o acertassem. Mais tarde, Manuel Francisco Cousinha, um “engenhocas”, segundo o neto, inventou um mecanismo de corda automática que tinha por base o mercúrio. Mesmo assim, por questões climáticas, como a humidade e, também, a falta de verbas para manutenção, o relógio foi-se degradando e, além de parar constantemente, atrasava-se ou adiantava-se.

Pedro Torres, da relojoeira Torres, um dos mecenas do projecto, explica: “Trabalho desde sempre na Baixa e a experiência ensinou-me a nunca confiar nas suas indicações. Por isso, prometi a mim mesmo que havia de restaurar o relógio e de o tornar num ex-libris”. Porque afinal, como fez questão de dizer ontem Fernando Correia de Oliveira, jornalista e estudioso de relojoaria, “não há nada mais absurdo que um relógio público parado”.

“Foi preciso maquinar a maior roda, que tem 120 dentes, ou seja, 30 centímetros de diâmetro. O relógio estava em muito pior estado do que pensei e sofreu alguns erros de reparação, como terem-lhe mudado o sistema de transmissão aos ponteiros”, afirmou Luís Manuel Cousinha sobre a reparação do maquinismo do Arco da Rua Augusta. Ou seja: foi preciso mandar a roda para uma fundição especializada, para ser refeita. O mestre relojoeiro — que curiosamente não usa relógio de pulso há vários anos — lamenta o estado a que chegaram muitas “obras-primas da relojoaria nacional, a apodrecer país fora dentro de barracões e pardieiros”. Cerca de 12 mil euros foi quanto custou este arranjo, resultado de uma parceria entre o Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar), a empresa Torres Distribuição e a relojoeira Jaeger-leCoultre. Nos próximos três anos mais três relógios públicos avariados voltarão a fazer tiquetaque, de acordo com outro protocolo assinado ontem. Quais, ainda está por decidir.

Quanto ao antigo Arco da Rua Augusta, uma casa velha para o "novo" inquilino, o Ministério da Cultura garante que a sua recuperação é prioritária, ainda que não esteja calendarizada. Depois disso poderá abrir ao público, quem sabe se com uma plataforma elevatória que permita aos visitantes chegar lá acima sem ter de penar pelos mais de 80 íngremes degraus acima. Nessa altura poderá também ser visto o primeiro mecanismo de medir o tempo que habitou o local — um relógio do séc. XIX que está a ser limpo neste momento.

O mecanismo que ontem voltou a funcionar tem manutenção garantida apenas durante um ano, despesa que será paga com parte dos 25 mil euros doados pela Jaeger-leCoultre, e que resulta da venda de uma edição especial de 32 relógios de pulso dedicados ao arco, pelo preço de 15 mil euros cada um.