Crítica

Elogio de John McClane

O primeiro "Die Hard", que em Portugal se chamou "Assalto ao Arranha-Céus", foi uma brisa fresca que alguém fez correr sobre o filme de acção. Foi em 1988 que o filme se estreou, fim de década portanto. O mesmo ano em que, na América, Ronald Reagan chegava ao termo do segundo mandato e cedia a Casa Branca a George Bush pai, enquanto a leste a "perestroika" gorbatchoviana parecia imparável, mesmo que ninguém imaginasse que o muro de Berlim iria cair já no ano seguinte. Respirava-se um clima de distensão nas relações internacionais, a Guerra Fria, de um momento para o outro, tornava-se coisa fora de moda. E o fim da Guerra Fria foi dramático para alguns dos mais populares heróis de acção. 007 entrou em crise, Timothy Dalton não durou muito tempo na pele de James Bond e o princípio da década de 90 veria mesmo o maior interregno de sempre entre dois filmes da série.

Mas se 007 é rijo e solidamente institucional, tendo encontrado maneira de sacudir o torpor, a época foi mais dramática para o grande ícone do cinema de acção dos anos 80, Sylvester Stallone. Herói reaganiano por excelência, transformara os seus Rambos e Rockys em algo que, originalmente, eles não eram: máquinas vindicativas de fantasmas americanos (como o Vietname), instrumentos de confronto com o Império do Mal, porta-vozes publicitários da superioridade do "mundo livre".

Num instante, tudo isso, que já parecia problematicamente esquemático, ficou velho e gasto. Nunca mais ninguém ligou pevides a Stallone, que precisou de praticamente vinte anos para se lembrar de lamber as feridas do esquecimento e devolver Rocky à sua singela e original condição de boxer simplório.

Sobrava Schwarzenegger, o "herói pós-moderno". Que, aliás, não perdeu pela demora, quando uns anos depois, com o mesmo realizador de "Die Hard" (John McTiernan), se deixou entusiasmar com essa coisa de ser um herói pós-moderno e embarcou na aventura meta-reflexiva de "O Último Grande Herói" (1993) - magnífico filme, mas o público torceu o nariz a tanta pós-modernidade e foi um "flop". Mas Schwarzenegger também levantava problemas de relacionamento. Se Stallone criara uma figura de labrego politizado, Schwarzenegger era uma bisarma robótica e distante. Em comum, corpos de "bodybuilder" e apologia do primado do poderio físico. O adolescente comum, o espectador jovem, que procurava um herói de acção com quem pudesse, se não identificar-se, sentir uma mínima afinidade, um laivo de proximidade, estava condenado a oscilar entre esses dois grandes estafermos. E portanto, a não encontrar ninguém, e a ir à procura dos seus heróis de acção entre os heróis de outros tempos. Em todo este contexto o John McClane de Bruce Willis caiu que nem ginjas.

Lauren Bacall dos heróis de acção

Tinha todas as qualidades que os outros não tinham. Uma presença real, um corpo que não parecia o resultado de um cruzamento entre uma nadadora da RDA e um membro da equipa de atletismo dos EUA. Um certo cepticismo, que lhe refreava os instintos políticos (de direita, os "action heroes" são sempre de direita) e o dotava do bom senso necessário para, lá por estar a enfrentar terroristas do Leste europeu, não transformar o assunto numa sessão de "flag waving" patrioteiro. Uma total ausência de espírito missionário; tudo aquilo, o arranha-céus, os terroristas, era para ele uma chatice, horas extraordinárias inesperadas e não remuneradas, uma coisa que ele tinha que fazer se queria ir para casa (e ir para casa era tudo o que ele queria). Nenhuma devoção pela acção; havendo a possibilidade de derrotar um adversário sendo apenas mais esperto do que ele e não mexendo uma palha, essa era sempre a opção a tomar. E isto era bastante novo no panorama dos heróis de acção de 80: alguém que levava a melhor não por ser mais bruto que o opositor mas por ser mais esperto. E McClane era espertíssimo, agia e comentava a acção enquanto agia, com uma boca ou um trocadilho adequado a cada situação. OK, Schwarzenegger também tinha uma certa "nonchalance", mas McClane ia mais longe, transformava a "nonchalance" em pura insolência, como se fosse a Lauren Bacall dos heróis de acção. E por falar em Bacall, havia ainda outra coisa muito importante: Bruce Willis vinha de "Moonlighting", a série de televisão que em Portugal se chamou "Modelo e Detective", e era um pouco como se importasse dela, e da sua personagem nela, uma série de qualidades - a menor das quais não seria a sensação de ainda trazer agarrado o perfume de Cybil Shepherd. Isto era a cereja em cima do bolo: em "Die Hard" mergulhava-se no universo masculinizado do filme de acção, mas conservando a impressão de que Cybil Shepherd andava por perto.

Em "Die Hard" McClane tinha, é claro, um realizador habilidosíssimo e talentosíssimo, John McTiernan, porventura o melhor realizador de "action movies" dos últimos vinte ou trinta anos em Hollywood. Não teve nada que se parecesse na primeira sequela, "Die Hard 2" ("Assalto ao Aeroporto"), de 1990. Dirigido por Renny Harlin, o pior cineasta finlandês do mundo, era um aproveitamento indistinto da personagem de McClane, com um aeroporto no lugar do arranha-céus, resolvida em banalíssimos modos.

Voltou a haver McTiernan para o terceiro episódio, "Die Hard With a Vengeance" (1995). A combinação McTiernan/Willis tratou de devolver a McClane os seus traços fundamentais, em especial a componente maçadora da acção. O arranha-céus e o aeroporto foram substituídos por uma cidade inteira, Nova Iorque: McClane passa o filme a correr de um lado para o outro (no meio do trânsito e dos constrangimentos físicos de uma Manhattan bastante "real") a desarmadilhar as "instalações" de um terrorista tarado. E pela primeira vez o individualista McClane tinha um parceiro (Samuel L Jackson), aceitando renitentemente que a força das circunstâncias o obrigue a trabalhar em equipe.

E com isto tudo, o tempo passa. O primeiro "Die Hard" foi quase há vinte anos. Bruce Willis já passou dos cinquenta. "Die Hard 4.0", o novo filme, de Len Wiseman, que hoje se estreia leva isso em conta. McClane está cansado, solitário e um pouco amargo (mas a amargura faz maravilhas pelo sentido de humor). Mais uma vez, tudo o que quer é ir para casa. Acabar com aquilo para poder ir para casa. Salvar a filha e fazer as pazes com ela. Esta é a sua motivação - e se ao salvar a filha ajudar consequentemente os EUA a salvarem-se de um terrorista cibernético e apocalíptico, tanto melhor.

Ficamos a pensar que McClane começa a ter alguns traços em comum com Snake Plissken, o mercenário criado por John Carpenter (e interpretado por Kurt Russell) em "Escape From New York" (1981) e "Escape From L.A." (1996). Claro, Plissken é mais anarca e mais revoltado, mais desconfiado de instituições como a polícia (para a qual McClane trabalha), e politicamente sempre do contra; e McClane é o protótipo do "righteous man", bom americano sem dúvidas sobre o Bem e o Mal, capaz de fazer das tripas coração, e homem de família mesmo se a família for uma ficção. Sendo ambos individualistas num grau próximo do autismo, talvez o convívio fosse difícil à primeira. Mas encontrar-se-iam - encontrar-se-iam no reconhecimento comum daquele sentido intuitivo de "decência" que leva à noção exacta de qual é a "coisa certa" a fazer, sentido e decência esses que os ligam, a ambos, à família dos heróis clássicos americanos.

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