Crítica

Os dias que abalaram o mundo

O cinema e a televisão britânicos têm tradição de biografias reais, concentrando-se embora em algumas (poucas) figuras carismáticas de valor mediático seguro. A grande matriz passa, porventura, pelo "biopic" de Henrique VIII, que Alexander Korda concebeu para o virtuosismo de Charles Laughton, em "A Vida Privada de Henrique VIII" (1934), centrado na sua extravagante vida e na sucessão tragicómica dos seus casamentos com seis efémeras rainhas. O papel viria a servir de veículo para outros actores ingleses, desdobrando-se em outras narrativas reais de igual valor simbólico, em especial a da filha, Isabel I, também com intensa visibilidade hollywoodiana: desde Flora Robson, em "O Capitão Blood" (1935), até ao oscarizado retrato de Judi Dench em "Shakespeare apaixonado" (1998), passando pela dupla prestação de Bette Davis em "The Private Lives of Elizabeth and Essex" (1939) e "A Rainha Virgem" (1955). Em televisão, coube a Glenda Jackson e, recentemente, a Helen Mirren, a honra de incorporar a "rainha virgem", atestando do interesse mítico da figura e da sua força, enquanto epítome da monarquia, em momento de crise. O que ninguém tentara, apesar de inúmeros telefilmes sobre as desventuras da família real britânica, era o "biopic" fílmico de uma rainha viva, no contexto do conflito em torno da morte da princesa Diana. Stephen Frears "ressuscita" os dias negros do tempo que medeia entre a morte de Diana e o seu funeral, encenando o quotidiano da realeza, de férias, na Escócia, no castelo de Balmoral, e os jogos de poder entre a figura emblemática de Isabel II e o carisma novo do recém-eleito primeiro-ministro, o trabalhista Tony Blair. Para levar a bom termo tal ficção, escolheu para protagonista Helen Mirren e o efeito de "trompe l"oeil" não poderia resultar melhor: ela "é" a rainha, da caracterização ao olhar, dos gestos aos trajes. Tal colagem mimética confere ao filme um perverso sentido de subversão. À força de reconstituir o "real", usando programas de TV e documentos de época, Frears escapa, pelo excesso, aos riscos de se situar no território do telefilme.

Para tanto, "A Rainha" apresenta um retrato complexo da família real, acentuando a vulnerabilidade da monarca (extraordinária a sequência do encontro com o veado e a sua cena complementar, observando o cadáver ensanguentado e decapitado do animal) e jogando com a tradição em dois tabuleiros: por um lado, mostra-se a rigidez do protocolo, e, por outro, evidencia-se a fragilidade de uma mulher "sacrificada" a uma função. O "triunfo" final sobre a figura melíflua de um primeiro-ministro empenhado numa operação de charme e de humanização da realeza eleva a personagem a uma dimensão trágica, presa numa rede que deixou de dominar, frente a uma ideia de povo que já não reconhece e que já não a reconhece.

No papel de Blair, Michael Sheen nunca ultrapassa a sua condição de quase-sósia, de comparsa numa tragicomédia de poder e de tradições seculares. Não pode, no entanto, dizer-se que se trata de rendição. O que resulta mais fascinante é o modo como se recusam leituras simplistas. Mirren pode até exagerar numa frigidez de estátua, mas o olhar final passa por um arrepio cúmplice perante a negação dos sentimentos, a impotência de superar as regras de sobrevivência do sistema. Há algo de "shakespeariano" nesta tragicomédia de enganos, disfarçada de inócuo docudrama dos dias que abalaram o mundo de passadas grandezas reais. Nem Blair cede mais do que o suficiente para manter o "status quo" da unidade britânica, nem a rainha abdica do seu estatuto de "mãe da nação" e esteio de um ultrapassado jogo de privilégios. O ponto de vista de Frears situa-se, pois, nesse difícil e sedutor (des)equilíbrio, entre a crónica dos pequenos ridículos e o romance de uma crise adiada pela memória de tempos passados. Acaba por não se tomar partido, como se a neutralidade da "verdade histórica" fosse ainda possível.