Crítica

Há 50 anos este filme seria uma blasfémia

É uma família frágil, a da rainha Isabel II. Não há nada que não lhe tenha acontecido nos últimos anos. A vida deles oscila entre uma telenovela e um drama de Shakespeare - depende da perspectiva mais popular ou erudita. Uma citação de Shakespeare abre "A Rainha". "Uneasy lies the head that wears a crown" - a frase sobre o desconforto da cabeça que usa uma coroa é retirada de "Henrique IV", a peça sobre um rei que usurpou o trono com um assassinato à mistura.

Se Stephen Frears não tivesse sido simpático no retrato que fez de Isabel II, "o filme podia ter feito estragos", porque a família real é "muito vulnerável", admite ao Y o historiador Philip Ziegler, autor de várias biografias, entre as quais a de Eduardo VIII, o rei que abdicou para casar com uma americana divorciada, Wallis Simpson, ou a biografia de Lord Mountbatten, o último vice-rei da Índia.

É um filme sobre a vida de Isabel II na semana em que a Princesa Diana, já divorciada, morreu num acidente de carro em Paris. É um "close-up" sobre a Rainha e quebra um tabu. "Nunca tinha sido feito a esta escala. É a representação mais séria da família real", diz o historiador, embora acrescentando que se trata de uma representação ficcionada. "Há 50 anos, sem dúvida, este filme seria uma blasfémia." A representação é considerada inédita pelo jornal "The Guardian", e uma prova de que a monarca perdeu a protecção especial que tinha na cultura visual britânica. É, de longe, o retrato mais "ousado" de um monarca vivo já visto na Grã-Bretanha.

Philip Ziegler afirma que o filme "tem uma brilhante interpretação" de Helen Mirren como Isabel II. "É fiel, apanha a sua personalidade", ao mesmo tempo que (voltamos a Shakespeare), "mostra a pressão tremenda e a dificuldade que é ser monarca". E é também "um filme divertido".

A mesma opinião não se pode ter, acrescenta, sobre outras personagens secundárias, como o Duque de Edimburgo (James Cromwell), "caricatural", e sobre a Rainha Mãe (Sylvia Syms), "muito inadequada". Já a figura de Tony Blair (Michael Sheen), aqui nos seus primeiros dias como primeiro-ministro, "é muito boa" e "bastante heróica", segundo o historiador. "Rei Tony" é, aliás, como o escritor Andrew O"Hagan lhe chama no seu artigo sobre o filme publicado em Novembro na "New York Review of Books". Diz que "A Rainha" é também já sobre o actual desapontamento com o primeiro-ministro britânico. E que nesse sentido é profético. "Um dia eles vão tentar ver-se livres de si. E bastante de repente", diz Isabel II a Blair, na cena final, depois da tempestade ter passado. Andrew O"Hagan conclui então sobre o "King Tony": "E, no entanto, enquanto escrevo é o Rei Tony que está sentado no penhasco com o dedo da nação a empurrá-lo pelas costas."

"É uma coisa que tende a acontecer aos primeiros-ministros", comenta o historiador Philip Ziegler, quando perderam a sua base de eleitores. As rainhas, pelo menos esta, parece que são para sempre. "Isabel II já recuperou completamente a sua popularidade. Só uma pequena parte da população, muito pequena, diz que quer viver numa república. Provavelmente, essa proporção vai crescer significativamente quando ela morrer, mas isso é o futuro", acrescenta Ziegler. A semana em que Diana morreu não foi uma ameaça verdadeira para a monarquia. "Foi um momento único no século XX", considera o historiador. Mas é preciso relativizar: houve outros momentos únicos nos séculos XIX, XVIII e XVII... "até cortaram cabeças". O que quer destacar é que o "fantástico" movimento de massas ou "luto histérico" foi "totalmente imprevisível". Toda a gente, dos media a Buckingham, "foi apanhada de surpresa". Se a monarquia aprendeu alguma coisa nessa semana não é algo que se possa ver no seu comportamento quotidiano, a não ser o facto de "a família real e a sua "entourage" prestarem agora atenção muito maior à relação entre o povo e a monarquia, à sua monotorização e ao potencial da opinião pública".

O que Isabel II pensa do filme, como já disse Helen Mirren várias vezes, provavelmente nunca o saberemos. Anthea Secker, que foi secretária-adjunta para a imprensa no Palácio de Buckingham nos anos 50, considera o filme "uma invasão". Viu-o, não quer dizer se gostou ou não: "É difícil desenhar uma separação entre o público e o privado. É um "biopic", de qualquer forma. Eu gosto de "biopics", mas de figuras históricas, não de pessoas vivas. E o facto da figura de Helen Mirren ser favorável à rainha não é, de facto, a questão." A antiga cortesã não acredita que "toda a publicidade seja boa publicidade", sendo que o filme também não é retrato, porque é meio ficção: "É a primeira vez que isto é feito assim. É esta noção moderna de que podemos fingir ser qualquer coisa... Mas um soberano está numa posição diferente, não é uma pessoa vulgar, é algo diferente. Alguém ia fazer um filme sobre o papa enquanto ele fosse vivo? Imagino que só se para fazer dinheiro." Pela arte? "Dinheiro e entretenimento, apenas", acentua. Biografias sobre Isabel II, mesmo em forma de livro, não se justificam enquanto a Rainha for viva, diz esta mulher que também trabalhou no "Times Literary Supplement": "Só depois dos reis morrerem é que se faz a biografia oficial. Antes, é apenas bisbilhotice."