Nuno Severiano Teixeira assume pasta da Defesa

Freitas do Amaral pede demissão e vai ser substituído por Luís Amado

Freitas do Amaral
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Freitas do Amaral

Freitas do Amaral pediu hoje a demissão do cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, alegando motivos de saúde. O anúncio foi feito pelo gabinete do primeiro-ministro, que acrescentou que o cargo será ocupado por Luís Amado, substituído na pasta da Defesa por Nuno Severiano Teixeira.

"O primeiro-ministro solicitou hoje ao senhor Presidente da República a exoneração, a seu pedido, do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, professor doutor Diogo Freitas do Amaral, por motivos imperiosos de saúde que requerem uma intervenção cirúrgica", lê-se num comunicado emitido pelo gabinete de José Sócrates.

Ao que o PÚBLICO apurou, Freitas do Amaral deverá ser submetido na próxima terça-feira a uma intervenção cirúrgica.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros marcou, entretanto, uma declaração à imprensa para as 16h00.

Na nota divulgada à imprensa, o primeiro-ministro sublinha "o extraordinário contributo que, com toda a sua experiência e prestígio internacional, o professor doutor Diogo Freitas do Amaral deu ao Governo e aos interesses nacionais na condução da política externa portuguesa".

Freitas do Amaral "foi sempre revelador de um elevado sentido de Estado e de enorme dedicação à causa pública. É justo reconhecer, de modo especial, o seu papel determinante no sucesso de Portugal nas negociações das perspectivas financeiras da União Europeia, tão importantes para o futuro do país", acrescenta a nota.

"Por estas razões, entende o primeiro-ministro ser seu dever manifestar, em nome de todo o Governo, público reconhecimento pelos distintos serviços que o professor Freitas do Amaral, mais uma vez, soube prestar a Portugal, na certeza de que muito terá ainda a dar ao país, logo que alcance o pronto restabelecimento que todos lhe desejamos", conclui o comunicado.

Numa entrevista concedida ao "Expresso" no início de Maio, o ministro dos Negócios Estrangeiros admitia que o cargo, com as constantes viagens e as longas horas de trabalho de gabinete, era "muito cansativo", em especial para quem, como ele, sofre de problemas de coluna. "Chego completamente estoirado ao fim do dia", declarou o ministro, que negou, no entanto, a intenção de se demitir, como chegou a ser noticiado.

A saída de Freitas do Amaral obriga a uma pequena remodelação governamental, já que a chefia da diplomacia será assumida por Luís Amado, que tutelava até agora o Ministério da Defesa. Para o seu lugar José Sócrates escolheu Nuno Severiano Teixeira, que foi ministro da Administração Interna no segundo Governo de António Guterres.

Três décadas de acção política

Fundador do CDS-PP, que liderou entre 1974 e 1982 e novamente de 1988 a 1991, Freitas do Amaral foi candidato à Presidência da República nas eleições de 1986, tendo sido derrotado na segunda volta por Mário Soares.

Afastando-se do partido com a chegada de Manuel Monteiro à presidência, Freitas do Amaral saiu da ribalta política, mas em 1995 foi eleito presidente da Assembleia-Geral da ONU, um cargo que ocupou durante um ano.

Opositor da guerra do Iraque, contrariando a posição assumida pelo Governo PSD/CDS-PP, Freitas do Amaral aproximou-se nos últimos anos da área socialista. Com a vitória do PS nas legislativas de Fevereiro do ano passado, o seu nome foi anunciado por José Sócrates como um trunfo no novo Executivo. Regressava, assim, a um ministério que chefiara no Governo da Aliança Democrática, antes de ser chamado a assumir interinamente o cargo de primeiro-ministro, com a morte de Francisco Sá Carneiro.

O último ano não foi, contudo, fácil para o ex-chefe da diplomacia, contestado pela forma como reagiu à polémica sobre os cartoons do profeta Maomé na imprensa europeia. A oposição acusou-o de não ter condenado a violência gerada contra interesses europeus, optando por criticar a publicação das caricaturas.

Freitas do Amaral voltou a causar polémica quando admitiu a aplicação de sanções militares contra o Irão, depois de esgotadas todas as outras opções para convencer o país a abdicar das suas ambições nucleares.

No entanto, no início de Maio garantiu à Lusa que não se sentia "politicamente morto". "Acho que ainda posso ter alguma coisa a dar ao meu país e enquanto for considerado útil e a saúde aguentar, estou disponível", afirmou então Freitas do Amaral.