Religião

Judeus assinalaram 500 anos de massacre "esquecido" em Lisboa

O massacre foi lembrado no largo de São Domingos
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O massacre foi lembrado no largo de São Domingos João Relvas/Lusa

Uma oração hebraica e algumas velas acesas junto a uma oliveira marcaram hoje a evocação dos 500 anos do massacre de milhares de judeus em Lisboa, em que participaram algumas dezenas de membros da comunidade judaica.

No largo de São Domingos, vários judeus, alguns usando o tradicional "kippah" na cabeça, juntaram-se em oração lembrando o "pogrom", o massacre que começou na igreja que ali se encontra, seguindo um apelo lançado pelo blog Rua da Judiaria.

Um dos membros da comunidade, o jornalista Ruben Obadia, disse que se tratou de um "movimento espontâneo" destinado a lembrar os "três dias em que morreram entre dois mil e quatro mil judeus" em Lisboa, um "pedaço de vergonha esquecida que não está nos livros de História".

O massacre terá começado no Mosteiro de São Domingos, quando os frades, acusando os cristãos-novos de heresia, provocaram uma onda de massacres e saques às casas dos cristãos-novos, numa altura em que Lisboa estava afectada pela peste.

Segundo a crónica de Damião de Góis, "mais de mil e novecentas criaturas" morreram ao cabo de três dias de "tamanha crueldade" que tomou conta da cidade e à qual nem escaparam pessoas que não eram cristãos-novos, falsamente acusados por "portugueses encarniçados neste tão feio e inumano negócio".

"Portugal perdeu nessa altura a sua elite financeira e cultural", disse Ruben Obadia, criticando a falta deste episódio nos currículos escolares e a falta de um monumento evocativo do massacre.

Este é um dia sagrado para os judeus, que assinalam nesta altura do ano o "Pesach", a passagem dos povos de Israel através do Egipto, escapando à escravidão e dirigindo-se para a terra prometida.

O blogue Rua da Judiaria, do jornalista Nuno Guerreiro, apelava a que se acendessem velas, mas poucos foram os que o fizeram.

Segundo Ruben Obadia, o acto de acender uma vela está associado à homenagem aos mortos na religião judaica, mas diferentes graus de ortodoxia fazem com que nem todos aceitem esta prática num dia sagrado, em que os praticantes da religião judaica estão impedidos de trabalhar.

Além dos membros da comunidade judaica, participaram na concentração o líder do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, o ex-provedor de Justiça Meneres Pimentel, o actor João Lagarto e o jornalista José Manuel Fernandes.