Crítica

Portugal profundo

Se exceptuarmos as ficções algo grotescas de António de Macedo, com "Os Abismos da Meia-Noite" (1984) a dar o tom "kitsch" absoluto, não existe grande tradição no cinema português de lidar com o fantástico e o sobrenatural, talvez até porque escasseiem os meios de produção, a impedirem que tais tentativas soem a falso. "Os Canibais" de Manoel de Oliveira arriscava a adaptação do homónimo conto fantástico oitocentista de Álvaro do Carvalhal, mas fazia-o a coberto de um curioso subterfúgio, o de transformar a acção numa ópera moderna, permitindo sublinhar o artifício e elidindo muitas das complexidades que o "género" exigiria.

Só por isso, este "Coisa Ruim", estreia na longa-metragem da dupla Tiago Guedes e Frederico Serra, que, com algumas interessantes curtas no activo, fizera mão na publicidade, já revelava os seus méritos. Mas não trata apenas de uma mera curiosidade inovadora. O filme parte de um argumento bem pensado (de Rodrigo Guedes de Carvalho) e, como veremos, constrói uma apreciável rede de sentidos, criando personagens credíveis e densas e uma atmosfera de mistério que se relaciona, na perfeição, com o território que explora: o de um Portugal profundo, preso a crendices ancestrais e a catolicismos supersticiosos.

O ponto de partida é muito simples: uma família da cidade muda-se para um casarão assombrado, que o "pater famílias", biólogo de profissão (excelente Adriano Luz, a demonstrar, mais uma vez, que existem entre nós actores de cinema, com a noção da câmara e do "timing" certo), herdou de um tio-avô e confronta-se, por um lado, com a religião popular, empenhada em exorcismos e rezas expiatórias, e, por outro, com as estranhas aparições de três crianças que exercem, sobre os três filhos do casal, maléficas influências.

Em breve nos apercebemos de que as aparições (será por acaso ou em resultado de corrosivo humor que os entes vindos do além se parecem tanto com a imagem icónica dos pastorinhos de Fátima?) resultam de uma maldição, devida aos pecados de um distante antepassado que chacinara toda uma família de camponeses, a fim de lhes ficar com as terras. Nos "flashbacks" dá-se corpo visual a esse acontecimento (com a divertida participação do produtor, Paulo Branco, no "amaldiçoado" latifundiário), com uma economia de meios e uma justeza de tom que se harmoniza, às mil maravilhas, com a história contemporânea, os terrores sonoros e as suspeições adivinhadas por detrás das estranhas reacções dos membros mais jovens da família, sugerindo-se, inclusive, uma perturbante hipótese de incesto. A morte acidental (e sacrificial) do filho mais novo parece aplacar as forças do Mal, forçando o agregado familiar a abandonar o mundo em que se instituía como transgressor.

Toda esta saga, cruzada com uma análise cuidadosa dos terrores quotidianos de uma população condicionada por séculos de convivência com o oculto, oscilando entre o sagrado das missas e o profano de cerimónias secretas, paredes-meias com rituais antigos de feitiçaria, poderia resultar risível, não fora o rigor da câmara a captar os rostos e os ângulos escusos da casa, mais interessada nas texturas da paisagem do que no folclore do medo.

Vem-nos à memória o universo de um realizador como M. Night Shyamalan, no modo como se configura a zona do indizível, filmando, com intenso "realismo", o que se não pode ver, mas perfila-se um olhar original e muito português sobre um mundo de lendas e de premonições, relacionadas com nebulosas serras e perturbadores pesadelos nocturnos.

Existem algumas facilidades representativas, um excesso de desfocados e um certo maneirismo no tratamento da imagem, mas a sobriedade narrativa acaba por triunfar, pela soberba direcção de actores (para além de Adriano Luz, destaca-se a complexa mãe que Manuela Couto constrói com inexcedível contenção) e pela noção da importância dos planos de conjunto: a cerimónia espírita e as refeições ganham, assim, o valor de convocações propiciatórias, desafiando a câmara a abarcar todas as dimensões da acção. Num papel secundário, de velha criada sábia e discreta, que funciona como espécie de síntese e abstracção metonímica de toda a aldeia, surge, em grande esplendor, a força dessa enorme actriz que dá pelo nome de Elisa Lisboa: pela sua bela voz "quebrada" e pelo seu rosto, ao mesmo tempo sereno e transtornado, temos acesso às contradições profundas de um mundo antigo e imutável, oposto à lógica racional das gentes da cidade.

No cômputo geral, uma surpreendente primeira obra, simultaneamente ambiciosa e consciente das suas limitações, revelando uma concepção de cinema já amadurecida e capaz de lidar com zonas complicadas do humano em confronto com o desconhecido.

Sugerir correcção