Crítica

Parque jurássico

É um dos documentários mais estimulantes dos últimos tempos, e não tem seguramente nada a ver (ou tem muito pouco) com o tipo de filme documental que tem feito a recente "redescoberta" do género pela distribuição portuguesa. Nada a ver com as arengas de gente como Michael Moore ou Morgan Spurlock nem com as suas declinações alimentadas por um capital "polémico" e contaminadas pela "legibilidade" directa da linguagem e das necessidades televisivas, dominadas por uma lógica de acumulação de informação e pelo ruído decorrente.

"O Céu Gira" é justamente o contrário, um filme de e sobre o silêncio, de e sobre a inacção, de e sobre a espera - sendo este, "a espera", e em mais do que um sentido, facilmente isolável como tema, conteúdo e, sobretudo, método, de algumas das mais fascinantes tradições do cinema documental.

O céu gira sobre a aldeia natal da realizadora Mercedes Álvarez. Cá em baixo as coisas giram menos: é o rame-rame duma espécie de rotina da extinção, a história sem "pathos" de uma aldeia que se aproxima do fim por falta de regeneração. Sobram (sobravam em 2003, quando o filme foi rodado) catorze habitantes, nenhum com muito menos de setenta anos. "O Céu Gira" é um filme de um reencontro, o reencontro de alguém com a sua terra natal, e um filme sobre o iminente desaparecimento dessa mesma terra, ou se calhar melhor, sobre a sua transformação em ruina. Lugar sem futuro, sem sequer um verdadeiro presente, a aldeia de "O Céu Gira" já quase só tem espaço para projecções, de qualidade mais ou menos "fantasmática", de um passado que é sempre mais presente do que o próprio presente.

Mercedes Álvarez instala-se, então, na aldeia que deixou em criança. Traz memórias, "imagens mentais", cujo confronto com a realidade o filme também documenta. No seu coração, "O Céu Gira" é essencialmente um retrato de uma comunidade, mas a dimensão pessoal trazida pela relação da realizadora com a aldeia é sempre exposta como um enquadramento desse retrato e, de certa maneira, como sua pontuação. Há um efeito de não-reconhecimento, de não-confirmação - como se a imagem crua de uma câmara de cinema (ou de vídeo, como é o caso) "trespassasse" a memória e a submergisse numa espécie de "excesso de realidade". A questão pessoal introduz um "problema de representação" em "O Céu Gira", como se essa memória - que Álvarez reduz mais do que uma vez, a uma só imagem (um determinado ponto de vista sobre a paisagem) - só pudesse ser restituida fechando os olhos à realidade; e por isso, há no filme a personagem de um pintor quase cego, é ele quem acaba por pintar o retrato dessa imagem. O fim do filme responde em rima directa ao princípio, em passagem do cinema à pintura, da fotografia ao desenho. A verdade da memória são os vestígios.

E vestígios não faltam a "O Céu Gira". Como se fosse uma ironia, o filme abre com pegadas de dinossauro gravadas no chão (e mais tarde um dinossauro será mesmo visto, no lugar duma escavadora). "O Céu Gira" filma a "vida em desaparecimento", mas filma-a em coexistência com todas as outras vidas que precederam esta e também desapareceram. Ficaram as marcas, numa espécie de omnipresente "memento mori": "O Céu Gira" é um filme sobre tudo o que morreu e ficou para trás, mas que ao mesmo tempo deixou vestígios cravados no terreno. As pegadas de dinossauro, mas também as ruinas da antiga cidade de Numancia, visitadas numa sequência "pedagógica", ou um antigo castelo árabe.

São "fósseis", é a morte "mineralizada" , como se o tempo, em vez de simplesmente passar, se fosse acumulando. No cemitério, por exemplo - onde como diz a realizadora (entrevista ao lado) estão muito mais aldeões do que os que andam pelas ruas (e a sequência no cemitério, que parece que também já está ele próprio a "fossilizar-se", é das mais notáveis de todo o filme). "O Céu Gira" tem algo a ver com o cinema de Victor Erice, seja nesta relação com um passado "fantasmático" mas indubitavelmente material seja na história do pintor ("O Sol do Marmeleiro") seja ainda em questões mais formais (como o tratamento do tempo). Mas também tem a ver com outro grande filme espanhol dos últimos tempos, "En Construccion" (que ficou lamentavelmente por estrear em Portugal) de José Luis Guerín, do qual aliás Álvarez foi montadora. O filme de Guerín centrava-se num bairro antigo e degradado de Barcelona durante as obras de remodelação a que foi sujeito. Também há obras em "O Céu Gira", um palácio que vai ser transformado em hotel (a passagem do tempo mede-se sempre na pedra, parece ser a moral), mas nem é essa a questão: é que como o de Guerín (e de maneira nem por isso muito distante de algo como "O Quarto da Vanda" de Pedro Costa, com o qual "En Construccion" mantinha relações mais evidentes) o filme de Mercedes Álvarez é um grande "filme de ecossistema". Esta aldeia é filmada como um organismo, um conjunto de equilíbrios e interacções: não há um traço distinto entre o que é a "matéria humana" e o que é o seu "habitat", é como se tudo formasse um corpo único e não houvesse distinção fundamental entre os humanos, as suas memórias, as pedras e todas as assombrações que nestas se projectam. Mais: é como se, no seu isolamento e na sua "entropia", houvesse uma maior continuidade e familiaridade entre os habitantes e os fósseis que os rodeiam do que com o "exterior" e com o que chamaríamos o "mundo contemporâneo". Este mundo só entra pela televisão, por exemplo, naquele plano da velhota a ver os bombardeamentos em Bagdad - é um mundo que é sempre uma coisa longínqua (como longínqua está, de resto, a Espanha, é o que se vê nas cenas quase burlescas com os carros de propaganda eleitoral que vêm trazer cartazes, balões e preservativos).

Mas para acabar, definamo-lo assim: "O Céu Gira" é o mundo de "Stars in my Crown" em alegre convivência com as sombras dos outros filmes de Jacques Tourneur.

Toda a gente a viver em paz com os seus fantasmas. É o que estávamos a tentar dizer desde o princípio.