A colunista diz tratar--se de uma "demissão pacífica", mas aponta desinvestimento naquele espaço camarário

Clara Ferreira Alves deixa Casa Fernando Pessoa no fim de Janeiro

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Clara Ferreira Alves, que em Março completaria quatro anos como directora da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, anunciou ontem a sua demissão. A colunista do "Expresso", convidada por Pedro Santana Lopes, quando este assumiu a presidência da Câmara Municipal de Lisboa (CML), para dirigir a Casa Fernando Pessoa (CFP), disse ao PÚBLICO tratar-se de uma "demissão pacífica", embora admita que "o último ano foi terrível, de caos orçamental e penúria".

Ferreira Alves lamenta o orçamento "errático" para aquele equipamento dependente da CML, dizendo que em 2005 não teve recursos financeiros "para fazer nada" e que a revista Tabacaria, editada pela CFP, foi suspensa por falta de dinheiro. "O dinheiro que havia serviu para pagar a fornecedores externos. Reduzimos o passivo. Havia dívidas acumuladas com meses. Era uma situação incómoda para mim."

Ferreira Alves aproveitou ontem a visita do director municipal de cultura, Rui Pereira, à CFP para anunciar a sua demissão. "Devo dizer que eles ficaram muito surpreendidos", afirma. Garante que "não há nenhuma querela particular com Amaral Lopes [vereador do PSD com o pelouro da Cultura] nem com ninguém".

Mas admite que "as relações com a tutela no último ano não existiram", referindo-se à vereadora da Cultura de Santana Lopes, Maria Manuel Pinto Barbosa, entretanto substituída por José Amaral Lopes, com a chegada de Carmona Rodrigues à autarquia.

Por que esperou até haver uma nova equipa na vereação da cultura, e nunca se pronunciou durante a anterior? "Não serviria rigorosamente para nada falar disso antes, a não ser que me demitisse. Às vezes apeteceu-me, mas não o fiz por teimosia. Não gosto de deixar coisas a meio."

Contactado pelo PÚBLICO, Amaral Lopes diz já ter "uma ideia concreta" de quem será o próximo responsável pela CFP, adiantando que este deverá ser publicamente anunciado no início da próxima semana.

Ferreira Alves comprometeu-se a assegurar a transição de pastas até final deste mês. Declarando-se "exausta", diz que sai da CFP porque quer escrever um romance, há muito anunciado, cujo título será E Nunca Teremos Paris.

Amaral Lopes, que ontem falou com a directora demissionária, afirma-se "tranquilo" por as razões invocadas serem "pessoais". Diz também que esta "é uma altura fundamental para se definir um projecto futuro" para aquele espaço camarário criado há 12 anos e que a entrada da obra de Fernando Pessoa no domínio público, a partir deste ano, implica que a CML tenha "uma resposta mais actuante".

Ferreira Alves deixa a CFP sem ter cumprido o seu grande objectivo: a transformação daquele espaço numa fundação que combinasse capitais públicos e privados, permitindo uma maior autonomia. "Não aconteceu por razões exteriores a mim. Continuo a achar que é a melhor solução e comuniquei-o à actual vereação. Apesar de a câmara achar bem que a fundação avançasse, os contactos com o principal parceiro privado não foram bem sucedidos." Trata-se da Caixa Geral de Depósitos, que chegou a conceber um projecto de marketing para o banco baseado na imagem de Fernando Pessoa.

"Os contactos correram bem numa primeira fase, depois houve uma reviravolta política e o projecto foi abandonado", diz Ferreira Alves. Essa reviravolta política corresponde à mudança de governo [parte da administração da CGD foi renovada em Agosto passado]? "Sim, e a mudança do próprio presidente da câmara."

E acrescenta: "Espero que a Câmara perceba uma coisa: esta casa não tem racionalidade administrativa e precisa dela urgentemente. Ninguém aguenta dirigir este equipamento nas condições em que eu o dirigi. É preciso que tenha um orçamento e o respeite e responda por ele. Coisa que eu nunca tive, ao contrário do que me foi prometido."