Daciano da Costa: Morreu o designer total

Foto
Os interiores do CCB foram um dos seus últimos trabalhos António Pedro Valente/PÚBLICO (arquivo)

Daciano da Costa recusava para si o título de "papa" do design, mas era assim que era visto pelos seus colegas de várias gerações. São dele design de interiores e equipamentos de espaços tão emblemáticos como a Biblioteca Nacional, a Fundação Gulbenkian, o Teatro Villaret, o Casino do Estoril, o Centro Cultural de Belém ou mesmo a recente Casa da Música. É dele algum do primeiro design português feito em série, o mobiliário metálico para escritório produzido na Metalúrgica da Longra nos anos 60. "É dos primeiros designers a serem convidados para trabalhar numa fábrica e a fazê-lo com a metodologia de um projecto de design, a trabalhar muito directamente para aquela fábrica e aqueles recursos. E fá-lo com enorme sucesso, inédito até aí.", diz João Paulo Martins, que foi comissário da exposição Daciano da Costa Designer, organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2001. Essa colaboração com a Longra, iniciada em 1961, havia de durar mais de 30 anos, sublinha João Paulo Martins, numa das mais produtivas relações da indústria nacional com o design - "a linha Cortez entrou no imaginário do espaço de trabalho português".

Com formação em pintura, Daciano da Costa começou a trabalhar no atelier do pintor e arquitecto Frederico George, que via como o seu mestre de eleição, também nesta ambivalência que sempre teve entre várias disciplinas. "Tenho atelier desde 59, quando deixei de trabalhar com o Frederico George. Comecei em Belém, no Pavilhão da Independência, no que sobrou da Exposição do Mundo Português, onde havia ateliers de artistas, sobretudo de escultores. Não me afirmo completamente como designer, porque no fundo o que eu tenho feito mais é arquitectura de interiores e design de mobiliário. Não quer dizer que não tenha já feito outras coisas e que não esteja preparado para fazer outras", contou numa entrevista em 1994 ao PÚBLICO.

O projecto global

A primeira "obra fundamental" do atelier de Daciano Costa foram os interiores da Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa (1960-61), diz o comissário da retrospectiva da Gulbenkian. Seguem-se a Biblioteca Nacional, o Teatro Villaret, o Casino do Estoril, o Hotel Alvor Praia, alcançando a maturidade com a Fundação Gulbenkian. E maturidade para Daciano da Costa significava ser "o prolongamento da arquitectura", acentuar ou ajudar a revelar os grandes gestos, neste caso dos arquitectos Pedro Cid, Alberto Pessoa e Ruy D"Athouguia.

"Até aí a arquitectura de interiores era mais entendida como decoração. Esquecia-se o que estava à volta. Para ela era um projecto de continuidade", afirma João Paulo Martins, que trabalhou no atelier de Daciano da Costa e actualmente é professor no curso de Arquitectura do Design da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. Na altura da exposição, a crítica de arquitectura Ana Tostões chamou a atenção para este "exemplo eloquente" de projecto global, onde "o desenho das mesas da biblioteca retoma o tema da estrutura portante em betão do edifício, demonstrando a permeabilidade de escalas". Na sua longa carreira de docente - criou o curso de Design da Faculdade de Arquitectura de Lisboa - Daciano da Costa defendeu uma unidade entre as diversas escalas do projecto, do território ao objecto.

Para Rui Afonso, historiador do design, Daciano da Costa é o mais importante designer português do século XX. "O seu trabalho tem uma consciência ética fortíssima e uma noção de empenho social", diz o historiador, acrescentando que Daciano Costa vê o design como veículo de transformação social. "Como professor, Daciano procurou ensinar aos seus alunos que o design existe para mudar o mundo."

"Efémero e teatral", duas palavras de Daciano da Costa que foram usadas na entrada da exposição retrospectiva da Gulbenkian, voltam a ser repetidas por João Paulo Martins. "Tinha uma sensibilidade muito voltada para a dimensão do gesto e da mão, para o diálogo com artesãos e operários, uma sensbilidade de raiz inglesa que tinha aprendido com Frederico George, como quem também aprendeu, através da arquitectura efémera para exposições, um sentido da festa e da comemoração. Dava muita atenção aos aspectos da vida corrente, aquilo que faz parte da vida das pessoas, mas entendendo-a como uma oportunidade de encenação. Sabia quando usar o banal e o trivial, mas também o excepcional."

Conceptualmente, no seu design ou na criação de ambientes, diz João Paulo Martins, "há um sentido de construção em peças, standards repetidos que se articulam para fazer conjuntos significativos" - como o tecto que fez para o Villaret ou a linha Dfi para a Longra -, por isso são enfatizados os elementos de ligações, como os encaixes ou os parafusos à vista. Rui Afonso destaca o "rigor extraordinário" com que cria objectos e interiores racionais, de grande sobriedade.

Design e indústria

Foi a sua associação ao empresário Fernando Seixas que revolucionou o mobiliário em Portugal e a relação do designer com a indústria, diz Rui Afonso. "A dada altura não havia repartição que não tivesse peças da linha de escritório Cortez. A consciência da importância destes móveis e o uso que deles foi feito levou a que, até na época, surgissem imitações."

Daciano Costa transforma-se na "grande referência do design português do século XX", defende Rui Afonso. Para o historiador, "a sua linguagem continua hoje muito actual". "Daciano é intemporal e isso vê-se no interior da Biblioteca Nacional ou na Fundação Gulbenkian", obras dos anos 60.

À Gulbenkian teve oportunidade de voltar há cerca de três anos. "A racionalidade e o equilíbrio estão lá, fazem parte de um vocabulário de continuidade baseado num rigor racionalista desenvolvido à luz de um critério profundamente ético". O trabalho na fundação é, segundo Rui Afonso, "o testamento espiritual" de Daciano da Costa, o espaço que faz a síntese do seu percurso. Um percurso em que é notória a sua "formação humanista" e o desejo de "democratização do design".

Daciano da Costa era casado com Maria Teresa Leitão de Barros Cottinelli Telmo, com quem teve cinco filhas.