Crítica

A cidade do pecado ir ao cinema para ler?

Há quem diga de "Sin City - a cidade do pecado" que se trata da mais fiel adaptação do universo dos "comics" para o cinema, o que é provavelmente verdade, até pela participação de Frank Miller, o autor da novela gráfica original, na realização, ao lado de Robert Rodriguez. Só que esta "fidelidade" tem o seu preço: tudo é previsível, tudo é correspondência mecânica; não existe nem uma só ideia de cinema; cada enquadramento (cada movimento de câmara) aparece medido para reconstruir um quadro, fixado em imagem unidimensional.

E, depois, há problemas adicionais: como conferir densidade a personagens "planas", ridiculamente estereotipadas? Como cruzar três narrativas e fazê-las funcionar, quando nenhuma delas descola da mais óbvia exibição de violência gratuita. Não está em questão a "qualidade" da novela gráfica de Miller, mas sim a ideia de ir ao cinema para a ler, como se o suporte de papel se transferisse para o ecrã, sem qualquer critério de diferenciação.

"Sin City" regurgita de prostitutas dominadoras, de polícias vulneráveis e de bandidos malvados, numa caricatura soez do "film noir", elevando o estatuto da "pulp fiction" ao mais rasteiro consumo de prazeres do óbvio e do não elaborado.

A contradição espelha-se, por outro lado, num preto-e-branco rebuscado, numa estética de procura do artístico ("arty") a todo o custo. A vantagem de Chandler ou Hammett passava pela existência de um humor corrosivo, que questionava, quantas vezes, a própria credibilidade da acção. Frank Miller (sobretudo no filme) leva-se a sério e faz do seu mundo um microcosmos negativo autosuficiente.

As três estrelas protagonistas - Bruce Willis, Mickey Rourke e Clive Owen - comprazem-se nesta descarada "descomplexidade": agem por impulsos primários, ligam-se a esta cidade viscosa por vínculos mal definidos, ao sabor de uma inexpressividade que até convém à desconexão dominante. Qualquer comparação com "Pulp Fiction" de Tarantino (mesmo se este colabora, numa estranha co-responsabilidade) não pode passar de provocatória coincidência.

No entanto, o problema maior para o espectador, que não esteja viciado em Frank Miller, é a duração (penosos 126 minutos), obrigando-nos a aguentar o que na leitura passa pela interrupção, pela parcialidade. Grande parte da violência chega-nos, pois, pela imposição da imagem, sem hipótese de repouso e/ou distanciamento. A brutalidade (canibalismo, decapitação, violação pedófila) assume-se como um fim em si, o que faz do "filme" (será mesmo um filme?) um repositório de demagógica relação com os mais baixos instintos. Dito isto, que salvar? O regresso de Mickey Rourke (irreconhecível), a "star-quality" de Clive Owen, um certo humor da personagem de Benicio del Toro e pouco mais.

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