Crítica

O que fizemos ao nosso amor naquele quarto

Quando a autorização chegou, há dez anos, para assistirmos à rodagem de "Antes do Amanhecer"/ "Before Sunrise", de Richard Linklater, podíamos esperar um "cast" muito "cool", actores todos na onda Geração X, porque isso tinha a ver, afinal, com o primeiro filme, que teve sucesso e muito baixo orçamento, de Linklater, "Slacker" (1991) - a seguir, em 1993, realizou "Dazed and Confused", filme cheio de sexo, droga e rock'n'roll, com um grupo de actores acabados de chegar a Hollywood e que mais tarde viriam a ser estrelas: Matthew McConaughey, Liv Tyler, Ben Affleck.

Mas, não, naquele "plateau", há quase duas décadas, havia apenas dois actores, e não demasiado conhecidos. Linklater queria tentar algo novo, queria fazer uma experiência. Foi assim que nasceu a ideia para "Antes do Amanhecer" (1995). O objectivo era um filme que parecesse estar a acontecer em tempo real. Era algo experimental, basicamente uma longa conversa.

Uma rapariga e um rapaz de vinte e poucos anos, e com a vida toda pela frente, Céline e Jesse, conheciam-se durante uma viagem de comboio e decidiam durante uma noite explorar Viena - e, basicamente, conhecerem-se. A incessante conversa era proporcionada por dois muito articulados novatos de caras rosadas e com tendências filosóficas pronunciadas: Ethan Hawke, que se fizera notar no filme de Peter Weir "O Clube dos Poetas Mortos", e a francesa Julie Delpy, saída de "Branco", o segundo tomo da trilogia "Três Cores", de Krzysztof Kieslowski. O realizador permitiu aos actores larga margem de improviso, de tal maneira que a experiência foi marcante e deixou nos três a vontade de repetir. Ficaram entusiasmados pelo facto de o filme se ter tornado influente para toda uma geração que por aqueles dias se aventurava pela Europa de interail para se descobrir a si própria e para viver os momentos românticos que alteram as vida (Hawke, aliás, diz hoje ao Y que "não ficava nada surpreendido se Sofia Coppola tivesse sido grande fã desse filme" porque quando viu "Lost in Translation" pensou logo "que 'Antes do Amanhecer' e esse filme eram muito parecidos").

Eles queriam regressar ao "lugar do crime", mas a continuação, que hoje está nas salas portuguesas, e chama-se "Before Sunset"/ "Antes do Anoitecer", levou mais tempo do que o trio imaginava. Nesta era de "blockbusters", filmes com diálogos tão longos são considerados antiquados e o financiamento foi uma tarefa árdua.

"Tentámos fazê-lo há cinco anos, mas era um projecto diferente", explica Linklater. "As personagens encontravam-se seis meses depois, como tinham combinado no final, mas já tinha passado tanto tempo, na realidade, os actores estavam tão mudados que elas tinham que parecer diferentes ou então tudo seria uma piada de mau gosto".

O que acabou por possibilitar a existência de "Antes do Anoitecer" foi o facto de Linklater e Hawke terem sido presenteados com o maior sucesso comercial das respectivas carreiras, "School of Rock" e "Training Day" (papel pelo qual Hawke foi nomeado para um Óscar). Mesmo assim, "Antes do Anoitecer" foi feito com um orçamento minúsculo, e talvez por isso conserva a magia do original e é ainda melhor. Exponencia o fascínio de Linklater de ver "duas pessoas falarem e qualquer coisa parecida com a poesia nos emocionar - o que é algo que podemos experimentar na vida real mas que é difícil sentir num filme". E foi feito na altura certa, nove anos depois do filme anterior, quando as personagens são forçadas a reavaliar as suas vidas aos trinta e poucos anos, quando os ideais estão a ceder a pressões, digamos, materialistas.

"Gostei de ver o contraste - como eram antes e como são agora", diz o realizador.

Embora a personagem de Jesse (Hawke) tenha um casamento infeliz, está a ter sucesso com o livro que escreveu sobre o seu antigo romance em Viena. Durante a leitura de um capítulo do livro numa livraria parisiense volta a ver Céline (Delpy), e os dois passam o dia a deambular por Paris, pelos cafés, num passeio de barco.

"Dar de caras com uma antiga namorada que nos obriga a reavaliar a nossa vida é uma experiência pela qual já passei", admite Hawke. O actor, que se separou de Uma Thurman por causa de uma suposta aventura com outra mulher, diz que o argumento do filme foi escrito antes do seu fracasso conjugal, mas a rápida rodagem de quinze dias serviu-lhe de terapia, até porque esteve em companhia de amigos que já tinham passado também por altos e baixos amorosos. "É um bocadinho estranho", admite em relação aos paralelos com a sua vida pessoal. "Mas, no fim de contas, esta fase da minha vida vai acabar e o filme ainda aqui estará e ainda terá interesse".

Mesmo que Hawke e Delpy tenham perdido o esplendor da juventude, ainda são o mesmo tipo de pessoa: ambos possuem um extraordinário talento que os empurra em busca de uma certa verdade no cinema. Quando os observamos mal nos apercebemos que é uma actuação, sentimo-nos "voyeurs" de duas pessoas que reacendem o seu romance.

"Sabe o que é que acho especial neste filme?", desafia Hawke. "Pura e simplesmente a Julie. Há algo de mágico nestes dois filmes. Estive com ela um par de meses a escrever o argumento, antes de começarmos as filmagens, e estávamos a ficar preocupados sobre como as coisas se iam desenrolar. Mas logo que começámos a trabalhar juntos, lembrei-me como tinha sido antes - divertimo-nos imenso e há, de facto, uma química entre nós".

a última valsa e a próxima. Ao contrário do que aconteceu com Hawke e Linklater, a carreira de Julie (ainda) não arrancou a sério. Ela é francesa demais para os filmes americanos, como diz Hawke, é excessiva e demasiado senhora do seu nariz para Hollywood - facto que a própria alegremente admite.

"Rick [Linklater] sempre acreditou totalmente nela, este é o grande segredo da nossa interpretação; ele depositou toda a confiança em nós", confidencia Hawke. "Quando passamos algum tempo com as pessoas de quem gostamos e em que acreditamos, tentamos ser dignos dessa confiança e é isso que põe cá para fora o melhor de nós. Acho que é esse o efeito que surte na Julie e ela retribui a dobrar".

Enquanto Linklater, também ele co-autor do argumento e uma década mais velho que Céline e Jesse, diz que há uma parte dele próprio nas personagens, admite que se parece mais com Julie. "Estamos mais interligados", abana-se todo, soltando a sua gargalhada habitual. "Abordo os relacionamentos da mesma forma que Julie. Sinto-me à vontade a gracejar com ela sobre os mais diversos temas, coisa que não faço com o Ethan."

É verdade, Julie Delpy é um furacão. Nos bastidores de "Antes do Amanhecer" divertia toda a gente com os seus pensamentos lascivos e falava abertamente, mesmo com jornalistas, sobre muitos aspectos da sua vida, como os seus hábitos na casa de banho. O seu gosto por chocar as pessoas tem vindo a aumentar. Proveniente de uma família do 'showbiz', está longe da noção que temos de uma clássica actriz francesa, mesmo que já tenha trabalhado com alguns dos grandes, entre eles Jean-Luc Godard e Bertrand Tavernier. A sua personalidade é imediatamente reconhecível no filme - como quando afirma que os rapazes franceses não são nada excitantes ou excitáveis. "Estava sentado ao lado dela quando vimos o filme pela primeira vez no Festival de Berlim", recorda Hawke, imitando o sotaque inglês afrancesado da actriz, "e ela atirou, 'oh meu Deus, não posso acreditar que isto tenha saído no filme, os meus amigos vão-me matar'".

A actriz, que vive entre Paris e Londres, é também cantora e tem a sua banda. Confessa que uma das canções que canta no filme, "Last Waltz", não só foi inspirada nas experiências da personagem Céline, mas também por uma sua "one night stand". "Ele chamava-se Jesse tal como o rapaz no filme. Foi lindo e escrevi uma canção sobre isso" (é francês?, perguntamos. "Não, é inglês. Tenho a direcção dele se quiser. Ele é mesmo bom").

Passamos a falar dos pais dela, que aparecem no filme. "Foi ideia do Rick [Linklater], apaixonou-se por eles", explica Julie. "O meu pai é o homem gordo de calções. É engraçado só olhar para ele, é uma pessoa com imensa piada. A minha mãe faz o papel da vizinha com o esparguete que pergunta ao rapaz simpático (Jesse/Hawke) se vem à festa que ela vai dar. Fui eu que escrevi aqueles diálogos. Na vida real a minha mãe é muito intrometida e quer conhecer sempre toda a gente. Por isso, conto-lhe tudo. É uma doença. Até lhe dou conselhos sobre sexo. Ela queixa-se que o meu pai é muito gordo, eu digo-lhe para ter paciência."

Delpy avança com detalhes que talvez não devamos mencionar, por isso imaginemos apenas as discussões que teve com Ethan e Linklater enquanto escreviam o argumento. "O mais importante é sermos abertos uns com os outros", assegura. "É provável que eles me conheçam melhor do que a maioria das pessoas e eu conheço-os também melhor que muitos. Naquele quarto em que escrevemos, deixamos os tabus todos para trás das costas." É como se fosse um quarto de dormir? "É mais pessoal que a maioria dos quartos de dormir, acho. É mais ousado porque muitas vezes não falamos muito nos quartos de dormir."

No fundo, este ilustre trio, cínico e sincero sobre os mais variados tópicos, desde o sexo a Hollywood, ainda é constituído por pessoas apaixonadas prontas a seguir os seus corações, tal como as personagens do filme. Mais do que falar sobre as cruéis obsessões do amor, o filme de Linklater joga na subtileza, dizemos-lhe. "Acho que quando nos debruçamos sobre o tema do amor as pessoas entram no mundo dos outros com uma facilidade espantosa e acham esse tópico sedutoramente misterioso. Muitas vezes encontramos algo que se parece com a nossa própria vida. Tomo como um elogio isso de ser 'subtil'. Pelo menos a mim parece-me real", diz o realizador.

A verdade é que Linklater & Ca. fazem com que pareça credível. Dada a forma como o filme foi rodado, em continuidade, todos os momentos tinham que ser preparados com antecedência e isso levou anos. Por isso, há já gente à espera, impacientemente, do próximo episódio. Vai existir?

"Podemos prosseguir a partir da altura em que eles vão ao conselheiro matrimonial, ou quando se estão a divorciar!", sugere Hawke. "Tenho a certeza que vamos pensar nisso daqui a uns anos e voltar a pegar na história se ainda estivermos interessados. Teria, sem dúvida, piada. A razão pela qual gostaria de continuar a fazê-lo é que continuo a imaginar que se fizermos cinco desses filmes durante o período de uma vida, isso seria um 'magnum opus' sobre relacionamentos amorosos".

No final de "Antes do Amanhecer", Céline e Jesse prometiam encontrar-se seis meses depois (vendo "Antes do Anoitecer" sabemos o que aconteceu depois dessa cena, quem compareceu, quem faltou).

No final de "Antes do Anoitecer", Céline imita Nina Simone, com um palhaço excêntrico (algo que Linklater viu Julie Delpy fazer na vida real). O que acontece entre eles, cabe ao espectador decidir, consoante os seus níveis de cinismo e de romantismo. Há uma terceira via, para utilizar a definição de si próprios que deram Linklater, Delpy e Hawke, que é a do "romântico-realista". Mas para saber se acertámos ou não, teremos que esperar outros nove anos?

Linklater responde: "Quem sabe? Quem poderá adivinhar o futuro? Segundo a Julie se vamos fazer alguma cena de sexo temos que nos despachar: (e imita o sotaque de Delpy) 'não quero estar velha e de cabelos brancos, não, não, mas agora ainda sou boa'".

Hawke e Delpy apareceram por breves momentos na cama num anterior filme de Linklater, a odisseia filosófica e sentimental "Waking Life" - mas os seus corpos foram trabalhados por artistas de BD, "hélàs"... - que foi o primeiro sinal público de que o par queria regressar como Jesse e Julie. Para além disso, teria havido sexo no écrã se tivesse sido feito a sequela a "Antes do Amanhecer" tal como tinha sido inicialmente projectado. Mas Linklater gosta de "Antes do Anoitecer" tal como está hoje.

"Não sou nenhum puritano, mas quando fizer um filme sobre sexo não será por si só uma coisa superficialmente excitante. O tema será o sexo. Tenho estado a pensar sobre isso, mas ainda não me ocorreu a história perfeita nem as personagens."

Sugerir correcção