Crítica

Tão longe e tão perto

Há dois anjos em Berlim. Um apaixona-se por uma mulher. É o desejo que o vai trair e transformar em homem. O clássico "boy meets girl" é substituído por "angel meets girl". Berlim, sinfonia de uma cidade, poética e sublime.

Quando Peter Falk, que em "As Asas do Desejo" faz de si mesmo, se vira para o anjo Damiel (Bruno Ganz) e lhe diz que gostaria de o ver, apesar de apenas o poder sentir, sabe-se que ele pode comunicar com anjos. E, mais tarde, quando Damiel se torna homem, o actor diz-lhe que "há mais como eu e tu", o que quer dizer que há muitos anjos que se tornaram homens. "O que vais fazer agora?", pergunta-lhe Falk, mais conhecido por Columbo, na série homónima de TV americana e que está em Berlim a realizar um filme. O anjo-agora-homem responde-lhe: "Há uma rapariga."

Há sempre uma rapariga.

Mas aqui, o clássico "boy meets girl" transformou-se num insólito "angel meets girl". Damiel é um anjo, tal como Cassiel (Otto Sander); são dois amigos. Vive (?) em Berlim desde o princípio da História. Voa sobre a cidade a preto e branco - é um eufemismo, na verdade não voa, está quase sempre sentado no cimo das estátuas e dos edifícios, a ver Berlim do céu.

O grande desejo de Damiel (e de Cassiel também) é sentir como os homens, "ser selvagem", diz Cassiel, "ficar só, deixar, correr, ficar sério", diz Damiel. Só as crianças podem vê-los. Há quem olhe para eles e sorria, há quem os reconheça e quem os ignore. Os dois anjos conseguem ouvir os pensamentos das pessoas: "Não a vejo há quatro anos", "Por que estou vivo?", "Depois vêm as raparigas e fazem olhinhos aos homens", "A minha mãe tinha razão" - fragmentos de memórias que, por vezes, os fazem sorrir, por vezes os incomodam.

A câmara roda sobre Damiel. Várias vezes. No fundo de um túnel escuro, há um circo. Damiel aproxima-se. Ele continua a ser anjo e continua a ver a preto e branco. Há uma rapariga, loira, de caracóis, suspensa por cordas, que desenha sombras na tenda gigante. É uma acrobata. "Não te pendures, voa! Tu és um anjo!", grita o homem do acordeão a Marion (Solveig Dommartin). Pequenos "flashes" de cor inundam a tela. São esporádicos e momentâneos - o anjo apaixona-se por Marion e torna-se homem. Estará o amor a encher de cores o mundo a preto e branco?

Ser ou não ser anjo

Um dos problemas para Bruno Ganz quando fez "As Asas do Desejo" foi "fazer de anjo", disse, numa entrevista à "Point of View". O actor explica: "Normalmente, fazemos um personagem e (...) perguntamo-nos 'Como é este homem? O que é que ele está a sentir, o que está a pensar? Como é que poderia expressar-se? Está zangado, com fome, irritado, é estúpido?' Esse é o problema quando fazemos de anjo. O que fazer? Tentamos andar, apesar de podermos voar e, ao mesmo tempo, és tu mesmo, porque não o podes fazer. (...) Damos o nosso corpo. Só isso. Não há possibilidade para problemas psicológicos nos anjos."

Ganz explica que discutiu com Wenders e viram imagens de anjos. Wenders trouxe um livro chamado "Who's Who of angels", "uma invenção anglo-saxónica", satiriza Ganz, que fazia troça da igreja católica e da história dos anjos. Mas o problema continuava a ser "como expressar-se": "O que queria dizer: tu és um anjo e o que fazes? Voas ou quê? É impossível. Pronto, andas pelas ruas e és invisível. Ouves os pensamentos das pessoas. O que significa isso? O que fazes com a tua cara, com o teu corpo? O que dizem os teus olhos? O que é um anjo?"

Berlim torna-se, em "As Asas do Desejo", a cidade dos anjos - não como no "remake" lamechas, "City of Angels", que era Los Angeles, o anjo era Nicholas Cage e a 'acrobata' era uma enfermeira de nome Meg Ryan.

Nesta Berlim de Wenders não há tempo, nem espaço (há ainda um muro, uma fronteira) para que a história de um anjo, que quer ser homem por amar uma mulher, se torne piegas. Há qualquer coisa de poético e de sublime - quem não se apaixonou por Berlim só por ver este filme? - nessa cidade cinzenta, industrial, fria, austera, fechada sobre si, aberta ao mundo.

Há imagens da II Guerra - do fim, porque as marcas do pós continuam lá, de um lado pejadas de "graffiti", do outro lado (o soviético) de branco imaculado, controlado por homens com dentes feitos de canos de espingarda. "Agora só penso no presente. Que tem a paz que a longo prazo não causa entusiasmo? Devo desistir agora?", pergunta, amparado por Cassiel, o velho Homer (Curt Bois), desorientado na cidade que já não reconhece, à procura do Café Josti, na Potsdamer Platz - um terreiro de lama e poças de água, um viaduto e um pedaço de muro.

É sobretudo a cidade (e não os anjos) que Wenders exibe num misto de admiração e angústia. A câmara percorre com tensão as ruas, os viadutos, os jardins, as largas avenidas, o rio e as pontes. "As Asas do Desejo" é, por isso, uma homenagem a Berlim, a sinfonia de uma cidade (como a de Walter Ruttman, sim, mas agora mais desiludida, resignada, dividida pelo muro). "Entre cada terreno há uma faixa que não é de ninguém. O povo alemão desintegrou-se em pequenos estados e traz esses estados consigo", diz a voz de dentro de um taxista. Sarar feridas? Expiar pecados ou fantasmas? A cidade continua, no entanto, dividida, apesar de isso pouco influenciar o amor do anjo e da acrobata.

Wenders regressa seis anos depois a essa Berlim esventrada, agora reunificada pela queda do muro (em 1989). "Tão Longe, Tão Perto" é uma espécie de continuação de "As Asas do Desejo" - aliás, os mais incautos ficarão surpreendidos quando, no final do filme, aparece um "To be continued" vindo não se sabe de onde (continua para onde?, para quê, se eles já estão juntos?, esta é a parte I?). A pergunta é pertinente: para quê? Nem o próprio Ganz (que regressa a Berlim com Otto Sander, Dommartin e também Nastassjia Kinski e Willem Dafoe, e um elenco de luxo a brincar ao tráfico de armas) sabe bem porquê.

Na mesma entrevista, Ganz disse que não gostou de "Tão Longe Tão Perto" e que a relação entre os filmes foi "totalmente diferente": "Não gosto de 'remakes'. E em 'Tão Longe, Tão Perto', sei que não devia dizer isto, mas creio que o argumento era mesmo horrível. Havia coisas a mais. O tráfico de armas, a história da máfia russa, e depois outra vez o Hitler e Heinz Rühmann durante 20 minutos..."

Porquê ninguém sabe, mas "As Asas do Desejo" vale pelos dois - e também por Nick Cave, que tem uma participação no filme e canta, ao vivo, "From Her to Eternity". Inesquecível.