Crítica

Berlim vista de cima

Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) são dois anjos. Estão muitas vezes sentados nas asas da estátua da Vitória, o Siegessäule no centro de Tiegarten. O olhar estende-se para lá do Reichstag e das portas de Brandenburgo. Para lá do muro.

Berlim vista de cima - a preto e branco - é caótica, fechada, ruidosa. Mas há uma outra cidade que se estende do outro lado da fronteira, vazia, sublime, fria e austera (como a Paris de Jacques Tati?)

Os dois anjos, sentados num stand de automóveis da BMW, conversam sobre homens. Conseguem ouvir os seus pensamentos - uma mulher passa de bicicleta, um suicida no edifício da Mercedes Benz, crianças que jogam à bola, mulheres e homens no metropolitano. Ouvem as vozes de dentro. Mas não conseguem alcançar mais nenhum sentido dos homens - não cheiram, não vêem cores, nem têm tacto, nem paladar.

"Às vezes farto-me desta eterna existência de espírito", diz Damiel. O seu desejo (e é o desejo que o fará perder as asas) é ter febre, ficar com os dedos sujos ao ler o jornal, mentir, andar. "Poder entusiasmar-me com o mal", diz Cassiel.

Anjos que querem ser homens? Apenas um conseguirá, Damiel, por amar uma mulher. Cassiel só mais tarde se tornará homem - mas isso só acontece no próximo filme (a sequela deste "Asas do Desejo") "Tão Longe, Tão Perto", de 1993, em que Wenders regressa a Berlim para misturar anjos com a máfia russa...

Damiel apaixona-se por uma acrobata de circo, Marion (Solveig Dommartin, o primeiro papel no cinema e o primeiro para Wenders, que voltaria a filmá-la em "Até ao fim do mundo" e "Tão Longe, Tão Perto"). E é o amor (o desejo?) que o fará ver a cores, sentir o frio na garganta, o calor do café.

"As Asas do Desejo" (1987) marcou o regresso de Wenders à Alemanha, após "O estado das Coisas" (1982) ou "Paris, Texas" (1984) - e aqui voltou a colaborar com Peter Handke no argumento. E este foi também um filme para "sarar feridas de guerra" - "Não consigo encontrar a Potsdamer Platz. Seria aqui? Não pode ser." Há um homem, Homer (Curt Bois), que vagueia pela cidade (como um anjo?) à procura de lugares antes deste tempo. Procura a infância da história, que perdeu o seu narrador. O muro ainda divide as pessoas, ainda há fronteiras na cidade. Cada indivíduo é um Estado, ainda é preciso saber a senha para poder entrar no coração das pessoas. E só os anjos o conseguem...