Casas portuguesas não estão preparadas

Portugal é o país da Europa em que mais se morre de frio

aumento de 28 por cento na mortalidade durante o Inverno equivale a 8800 mortes prematuras
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aumento de 28 por cento na mortalidade durante o Inverno equivale a 8800 mortes prematuras Pedro Valente/PÚBLICO

Ter um clima ameno pode ser mais perigoso do que viver num clima de temperaturas extremas. Um estudo publicado hoje na revista "Journal of Epidemiology and Comunity Health" afirma que, numa lista de 14 países europeus, é em Portugal que se morre mais no Inverno devido ao frio, indicando um aumento médio de 28 por cento da mortalidade nesta época.

Estes números não espantam a Direcção Geral de Saúde, que aponta como principal causa o facto de as casas portuguesas não estarem preparadas para o frio.

O estudo, elaborado por uma equipa do University College de Dublin, na Irlanda, analisou durante dez anos, entre 1988 e 1997, os índices de mortalidade de 14 países, cruzando os dados com informação sobre os factores ambientais, estilo de vida e prestação de cuidados de saúde e gastos nesta área. A equipa concluiu que, dentro da lista de 14 países, é em Portugal que mais se morre de frio.

O aumento de 28 por cento na mortalidade durante o Inverno equivale a 8800 mortes prematuras provocadas pelo frio em cada ano analisado, tendo em conta o índice médio de mortalidade. Espanha, com 21 por cento de aumento, vem em segundo na lista, a par com a Irlanda, seguidos pela Grécia e pelo Reino Unido (ambos com 18 por cento).

"Estas conclusões podem dever-se à percepção generalizada de que os países do sul da Europa não são afectados por um acréscimo de mortes por frio devido aos seus climas amenos", referem os cientistas, realçando que esta é uma premissa errada e perigosa.

Como justificação de valores tão altos para Portugal, o estudo aponta um baixo investimento na educação das populações e nos cuidados de saúde. Acima de tudo, os dados revelaram uma eficiência térmica das habitações perfeitamente residual, a rondar os cinco por cento, sendo que a Grécia, país mais perto do nosso, está acima dos dez por cento.

"Estes resultados não me parecem surpreendentes, nomeadamente depois de termos visto os números relativos à onda de calor que sofremos este Verão", confessa Francisco George, subdirector-geral de Saúde, apesar de considerar os 28 por cento de acréscimo na mortalidade durante o Inverno um valor mais alto do que esperaria.

Vera Weigert, arquitecta da Direcção de Saúde Ambiental, representa Portugal num estudo, ainda em curso, da Organização Mundial de Saúde (OMS), que está a tentar analisar as condições de habitabilidade - alojamento e meio envolvente - nos diferentes países. O objectivo é saber de que modo estas condições afectam a mortalidade e a morbilidade das populações, incluindo em relação ao frio. A especialista também não se mostra surpreendida pelos resultados da equipa irlandesa: "Portugal só tem dois ou três meses de frio, mas as pessoas passam muito frio, porque não estão preparadas, contando, na maioria dos casos ,apenas com as lareiras", afirma.

Após concluído o estudo da OMS, o que se espera que aconteça nos primeiros meses de 2004, serão tomadas medidas e estudadas soluções para prevenir condições extremas como a indicada pelo estudo publicado na revista "Journal of Epidemiology and Comunity Health".

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